Palocci, o articulador político, pede desculpas a Michel Temer

“Exijo respeito! Já nem mais como vice-presidente da República, mas como pessoa mesmo”, cobrou Temer

"Desculpe pelo telefonema anterior. A tensão está grande, mas sempre fomos amigos”. Com essas palavras, o ministro chefe da Casa Civil, Antônio Palocci, tentou se desculpar para o vice-presidente Michel Temer, após o desastroso e insólito contato feito na noite de terça-feira (24), antes da votação do Código Florestal, em que ameaçou o vice-presidente da República com a retirada dos ministérios do PMDB, em especial o da Agricultura, caso o partido votasse a favor da emenda 164, que define o uso de áreas consolidadas e abre para os Estados a legislação sobre o tema. “Não, Palocci”, respondeu Temer, “nunca fomos amigos íntimos”.

Na noite de terça-feira, segundo publicou o colunista Jorge Bastos Moreno em “O Globo”, no sábado, Palocci, na presença do ministro da Articulação Política, Luiz Sérgio, e do líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza, que ouviam pelo viva-voz, telefonou para Temer e fez a ameaça. Temer, segundo a descrição, retrucou:

“Você acha que eu vou brigar por um ministério de merda?!”

Palocci ainda tentou dizer alguma coisa:

“Mas acontece que...”

O vice-presidente não o deixou prosseguir:

“Exijo respeito! Já nem mais como vice-presidente da República, mas como pessoa mesmo!”

Depois dessa brilhante articulação, o governo perdeu a votação na Câmara.

Palocci, a partir daí, deu vários telefonemas a Temer pedindo desculpas, entre os quais o descrito acima.

No mesmo sábado em que saiu a descrição de sua conversa com Palocci, Temer confirmou que teve um forte entrevero com Palocci na terça-feira e disse que recebeu uma “ameaça velada” do ministro da Casa Civil. “A conversa foi tensa, admito que subi o tom, falei alto mesmo, mas quem me conhece sabe que não sou de falar palavrões”. Quando Palocci ameaçou demitir os ministros do PMDB, citando especificamente Wagner Rossi, da Agricultura, o vice-presidente respondeu, segundo alguns dos seus amigos: “Não precisa demitir, porque amanhã cedo mesmo todos entregarão os cargos”.

A inabilidade demonstrada pelo chefe da Casa Civil na condução das articulações políticas do governo, bem como o seu próprio desgaste com a multiplicação de seu patrimônio, tem trazido um grande desconforto à presidenta da República.

Palocci nunca foi conhecido pela habilidade; nem pela sensibilidade, aquilo que o povo chama de simancol: o caso do palacete que seus amigos alugaram quando era ministro da Fazenda, e ele frequentava, já seria suficiente para demonstrá-lo; no entanto, o desaguadouro desse caso foi pior ainda: a quebra de sigilo do caseiro, um desastre político só comparável ao atual, em que está sendo convidado a explicar como multiplicou por 20 o seu patrimônio nos quatro anos em que esteve na Câmara dos Deputados, entre 2006 e 2010, com a compra de um apartamento nos Jardins, em São Paulo, por R$ 6,6 milhões e um escritório por R$ 882 mil, sem precisar nem ao menos de um financiamento da Caixa... Na declaração pública que fez depois de ser eleito deputado, Palocci havia declarado bens no valor de R$ 375 mil. Os imóveis, adquiridos por meio da empresa Projeto, aberta depois da declaração de bens, em que o ministro tem 99,9% do capital, foram adquiridos, segundo disse, com dinheiro ganho em consultorias a empresas privadas. Em dois meses, entre a eleição passada e a sua posse na Casa Civil, a empresa faturou R$ 10 milhões. Palocci se recusa a revelar os seus clientes, arguindo que nos contratos que assinou havia uma cláusula de confidencialidade. Um caso, portanto, diferente do sigilo do caseiro...

Mas talvez pior do que esse problema – que, convenhamos, nem é tanto dinheiro assim – foi a defesa enviada aos parlamentares: a de que “no mercado de capitais e em outros setores, a passagem por Ministério da Fazenda, BNDES ou Banco Central proporciona uma experiência única que dá enorme valor a esses profissionais no mercado. Não por outra razão, muitos se tornaram, em poucos anos, banqueiros como os ex-presidentes do BC e do BNDES Pérsio Arida e André Lara Resende, diretores de instituições financeiras como o ex-ministro Pedro Malan ou consultores de prestígio como o ex-ministro Mailson da Nóbrega”. Não pretendemos negar o valor do ministro no mercado. Mas não era isso que todo o campo da oposição aos tucanos – inclusive, supõe-se, o próprio Palocci - era contra?

A defesa não foi muito bem recebida no Congresso – nem em lugar algum. Muito menos a emenda de que o texto era só para orientar as bancadas da base aliada na defesa de Palocci, e foi enviado por engano a todos os congressistas. É difícil perceber como a base aliada iria defender Palocci com essa base.

Conhecedor desses problemas, o ex-presidente Lula, no encontro que teve com as lideranças dos partidos da base do governo, na residência do presidente do Senado, José Sarney, revelou que “no jantar com o Palocci ontem à noite eu disse a ele: tome cuidado porque sua situação no Congresso é péssima. Há uma imensa insatisfação com sua conduta. Você tem que se aproximar mais, atender as bancadas, marcar jantares políticos”. Com sua verve tipicamente popular, Lula, ao ouvir críticas de políticos, brincou, meio sério: “desse jeito vamos ter que criar o MVDM, o Ministério do Vai Dar Merda”.

Porém, Palocci parece, quando à inabilidade, um caso genético. Talvez só isso possa explicar sua declaração de que “fiz um trabalho muito bom para essas empresas em 2008. Nenhuma delas caiu em erros, por exemplo, de apostar em ativos cambiais”. Genialidade financeira à parte – ele nem reparou que o sucesso nas apostas em “ativos cambiais” depende, naturalmente, de que aposta se faça – quem está preocupado com suas consultorias em 2008? Como disse o governador Jaques Wagner, o problema é 2010, pois “um ano de consultoria ganhar R$ 20 milhões todo mundo se surpreende. É um rendimento muito alto, como também chamou atenção a questão lá do apartamento”.

Na segunda-feira (30), Michel Temer e a presidente Dilma Rousseff encontraram-se na Base Aérea de Brasília, onde ela embarcou para o Uruguai. No sábado, os dois já tinham conversado por telefone sobre o mal-estar. Na votação de terça, outro articulador, o deputado Vacarezza, disse, atribuindo à presidente, que a emenda do PMDB era “uma vergonha para o país” - e teve de engolir calado o protesto do relator, Aldo Rebelo (PcdoB), sobre atribuir à presidente o que ninguém ouviu.

SÉRGIO CRUZ


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