Funcionários se mobilizam em defesa dos aeroportos

Categoria rechaça privatização e aprova indicativo de greve 

Os trabalhadores aero
portuários decidiram, em assembleias realizadas nos últimos dias 7, 8 e 9 de junho, iniciar a preparação de uma greve geral contra a privatização dos aeroportos de Guarulhos(Cumbica), Campinas (Viracopos) e Brasília (JK), anunciada pelo governo.

Em todas as assembléias os trabalhadores sinalizaram entrar em greve, caso o governo federal siga com a iniciativa de privatização. O movimento, que começou nestes três aeroportos, já prepara assembléias em outros aeroportos do país encabeçado pelo Sindicato Nacional dos Aeroportuários (Sina), Federação Nacional dos Trabalhadores na Aviação Civil (Fentac) e com o apoio da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transporte (CNTT) e a Central Única dos Trabalhadores (CUT).

Segundo o presidente do Sina, Francisco Lemos, nesta quinta-feira (16) será a vez dos trabalhadores do aeroporto de Confins (MG) realizarem sua assembléia, ficando a mobilização do Galeão (RJ) com data ainda a ser definida. “Juntos com a direção da Central Única dos Trabalhadores/CUT e demais entidades estaremos nos articulando para buscar os apoios necessários, como por exemplo, do Congresso Nacional e da sociedade brasileira”, afirmou o sindicalista. Nesta terça-feira, os trabalhadores de Manaus devem fazer sua assembleia.

A Fentac também já se manifestou contrária à privatização dos aeroportos. De acordo com seu presidente, Celso Klafke, o governo tem condições e dinheiro para seguir administrando esses aeroportos que são “muito rentáveis”. Ele criticou a privatização proposta pelo governo pois, segundo ele, “o Estado ficaria com as unidades não-rentáveis enquanto grupos privados receberiam os que dão lucro”. Ou seja, “privatiza o filé e estatiza o osso”, observou.

De acordo com o Sina, dos 67 aeroportos administrados pela Infraero, quatro apresentaram resultados acima de R$ 30 milhões em 2008. Exatamente os que se pretende entregar à “iniciativa privada”: Guarulhos (R$ 340,7 milhões), Campinas (R$ 108,3 milhões), Congonhas (R$ 102,4 milhões) e Curitiba (R$ 34,7 milhões). Os demais não atingiram esses resultados. Ainda assim, segundo o Sina, em termos de geração de resultado, em 2008, a Infraero obteve lucro antes dos investimentos de R$ 372,7 milhões.

Em audiência na última quinta-feira (9) com Wagner Bittencourt, titular da Secretaria da Aviação Civil da Presidência da República/SAC, os presidentes da Central Única dos Trabalhadores/CUT, Artur Henrique, do Sina, Francisco Lemos, e da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transporte/CNTT-CUT, Paulo João Estausia, alertaram o ministro sobre o equívoco da proposta de privatização e avisaram que os três aeroportos – Guarulhos, Campinas e Brasília – já aprovaram indicativo de greve.

Em artigo publicado no seu blog e na página da entidade, o presidente da CUT, informou que na audiência disse ao secretário de Aviação Civil, “a quem cabe a tarefa de ‘abrir concessão’ dos aeroportos à iniciativa privada, que usar o termo ‘concessão’, como diria o José Simão, é tucanar a velha e ruim privatização”. “Privatizar o que já está pronto, e dando lucro, é crime”, argumentou Artur Henrique. Ele deixou claro “que 49% para a Infraero é muito pouco!”. “O modo como o governo pretende tocar esse projeto vai render problemas parecidos com o que vemos hoje no setor de energia elétrica, que é minha origem e onde eu já era sindicalista quando o governo tucano privatizou empresas geradoras e transmissoras”, advertiu. (veja o artigo na íntegra ao lado).

Na privatização anunciada dos aeroportos, o Estado, através da Infraero, entrará “no máximo” com 49% do capital para garantir que o sócio privatizador fique com 51% - e, portanto, mande no aeroporto. O ministro anunciou que os investimentos na modernização dos aeroportos serão de R$ 5,6 bilhões até 2014, dos quais R$ 5,2 bilhões caberão à Infraero, e R$ 400 milhões às empresas privadas. Apesar disso, diz o ministro, “a concessão de três aeroportos no coração do país foi definida porque precisamos ter investimentos mais rápido para eles”.

O edital da Anac para a privatização do Aeroporto Internacional de São Gonçalo do Amarante, na região metropolitana de Natal (RN), é só uma pequena amostra do que vem por aí nas entregas de terminais de Guarulhos (SP), Brasília e Viracopos (Campinas). Pelo edital, o preço mínimo de outorga deverá ser de R$ 51,7 milhões, que começa a ser pago só depois de 37 meses, parcelado em 25 anos. O consórcio que vencer o leilão explorará um aeroporto que recebeu investimentos da ordem de R$ 250 milhões dos cofres públicos, na construção das pistas e do pátio do aeroporto, obras que estão sendo executadas pelo Batalhão de Engenharia do Exército, com 80% delas concluídas.

Na opinião do presidente do Sina, Francisco Lemos, o modelo para os três aeroportos “entregará de bandeja o controle estratégico na mão das raposas estrangeiras que, estes sim, lucrarão muito e levarão boa parte desses lucros para fora do nosso país, pois se alguém tem dúvida disso é só imaginar que a chave da porta de entrada e saída do Brasil não estará mais em nossas mãos”, denunciou o sindicalista, acrescentando que “até o nome será trocado de aeroporto para aeroshopping!”.

Os dirigentes sindicais expressaram sua indignação com a reunião. Bittencourt bateu na tecla surrada de que o modelo proposto apresentará grande lucratividade para o Estado. Falou até de uma “parceria” com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social/ BNDES na liberação de recursos, em que o banco vai entrar com 70% dos investimentos, conforme relato de Artur Henrique. Nada disse de concreto sobre o futuro dos trabalhadores da Infraero.

Com o início da mobilização, o presidente da Infraero, Gustavo do Vale, foi mandado a campo na tentativa de confundir os aeroviários. Sem a presença do Sina, os aeroviários de Brasília foram convocados para uma reunião no fim de semana e, nesta segunda-feira (13), os diretores da empresa se reuniram com os trabalhadores de Guarulhos e Viracopos.

Francisco Lemos disse que a discussão estava mais do que na hora. Ele acrescentou que é bom que se discuta porque vai ficar claro para todos o projeto de privatização em curso. “Quando falamos isso temos propriedade na afirmação, pois esse ‘modelito clássico e chulo de neoliberalismo’ já causou muitos estragos em aeroportos de outros países, como também em outras empresas aqui no Brasil, como no caso da energia elétrica e dos trens”, afirmou. O sindicalista acrescentou que o presidente da Infraero, ao tentar defender as “vantagens” da privatização, faz um discurso “de quem teria exagerado na leitura de ‘Alice no País das Maravilhas’. Só que “nós, aeroportuários, deixamos, há muito tempo, de acreditar em Papai Noel e Coelhinho da Páscoa”.

SÉRGIO CRUZ


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