A situação medieval dos hospitais

ROBERTO BITTENCOURT*

A edição do Correio Brasiliense, na coluna do jornalista Luiz Carlos Azedo, do dia 20 e maio pp, publicou notícia intitulada “Cadeias Medievais” revelando que o Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, irá implantar um programa para acabar com a superlotação no sistema penitenciário brasileiro.

Estimulado pela notícia, resolvi escrever esse texto solicitando ao nosso Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, um programa para acabar com a superlotação nos serviços de emergência dos hospitais públicos brasileiros.

Há uma ideia entre gestores de saúde que tal objetivo é impossível de ser alcançado sem tornar a atenção primária resoluta e sem criarmos alternativas sanitárias entre os centros de saúde e os hospitais, como as UPAs (Unidades de Pronto Atendimento).

Tal enunciado demonstra um componente do problema. Para confirmar, citamos exemplo próximo de nós. Em Brasília, 42% das consultas realizadas pela população ocorrem nos serviços de urgência e apenas 36% são realizadas pela atenção primaria. O preconizado é que apenas 15% ocorram nos serviços de urgência e 65% sejam realizadas na atenção primaria.

O caminho nessa direção está sendo percorrido. Aqui mesmo em Brasília, serão contratados 50 médicos de família e comunidade no próximo concurso, em junho, e mais três UPAs estão sendo construídas. Assim como, no restante do Brasil, as soluções existem e estão sendo implementadas. Todavia, sabemos que a escala dos problemas sanitários brasileiros está em uma dimensão exponencialmente superior ao ritmo lento que as soluções caminham.

Ou seja, aguardar a reorganização dos nossos serviços de saúde para ai sim acabar com a superlotação dos serviços de emergência hospitalares, além de ser equivocado do ponto de vista gerencial é extremamente desumano, pois a superlotação talvez seja a característica mais desumana dos nossos serviços de saúde.

O segundo componente desse fenômeno - a superlotação - ainda não suficientemente abordado, é o baixo desempenho dos nossos hospitais públicos. É importante frisar: os pacientes que superlotam nossas emergências, na sua grande maioria, precisam de fato internação no hospital, pois são doentes agudamente graves, instáveis e muitas vezes necessitando de procedimentos invasivos, cirurgias e terapias intensivas.

Como baixo desempenho dos hospitais? Os hospitais públicos padecem da falta de coordenação na gestão do leito e controle da efetividade clínica. O que é isso? Em muitos hospitais públicos a taxa de ocupação nos serviços de emergência é maior do que 100%, porque macas são colocadas ao lado dos leitos até o limite espacial dos pronto-socorros. Todavia, a taxa de ocupação dos leitos nas alas de internação, muitas vezes, está abaixo de 80%. Não há coordenação para a ocupação do leito hospitalar. O critério para tal ocupação não segue os parâmetros de risco clínico e, portanto, podemos encontrar a situação de superlotação no PS, mas existirem leitos vagos nas alas de internação.

O outro aspecto é a efetividade clínica. O tempo médio de permanência nos nossos hospitais públicos é alto. Mesmo nos hospitais de maior complexidade, preconiza-se o tempo de permanência, entre cinco a seis dias. Não raro encontramos pacientes que ficam mais de quinze dias ocupando leitos hospitalares, com as mais variadas explicações, que só revelam dificuldades superáveis.

Esses indicadores de baixo desempenho hospitalar convivem com outras ações de verdadeiro heroísmo e alta expertise clínica, também, encontrados entre as equipes que atuam nos nossos hospitais públicos.

Acabar com a superlotação dos serviços de emergência hospitalar é factível. Pois caminhamos no sentido de diminuir a pressão na porta de entrada, mas precisamos melhorar o fluxo de saída do paciente das unidades de emergência para as alas de internação, permitindo que fiquem no máximo 24 horas no PS e menos de seis dias em média nos leitos hospitalares.

Sabemos que o Ministério da Saúde está criando mecanismos de gestão que irão ter grande impacto na melhoria do desempenho dos serviços de saúde. O ritmo está acelerado. Todavia, pensamos que um programa com foco em acabar com a superlotação dos pronto-socorros é inadiável.


*Professor Doutor do Curso de Medicina da Universidade Católica de Brasília
 

Publicado na edição do Correio Brasiliense (pg.11) 06/06/2011


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