Nova versão de Obama confessa: Bin Laden teve execução sumária

Após asseverar que Bin Laden estava “armado”, a Casa Branca mudou a versão no dia seguinte depois que veio a público testemunho da filha dele de 12 anos que viu o pai ser morto desarmado

O governo dos EUA, após asseverar na segunda-feira dia 2 que Osama Bin Laden estava “armado” e usara a própria mulher de “escudo humano”, mudou a versão no dia seguinte, depois que veio a público testemunho da filha dele de 12 anos, de que viu o pai ser morto à queima roupa, desarmado e rendido. O testemunho foi relatado por autoridades paquistanesas à BBC e postado na internet, em português, às 9h48 de terça-feira dia 3, e amplamente reproduzido (G1, Notícias Uol, Último Segundo, Band News).

Também divulgaram a denúncia a TV Al Arabiya, a agência EFE, o jornal inglês Guardian e outras mídias.

Já o remendo foi feito três horas depois, na conferência diária de imprensa da Casa Branca, que teve início às 12h57 (hora de Brasília) e se encerrou às 13h54.

O assessor de Obama para a segurança interna, John Brennan, na entrevista coletiva do dia 2, ao lado do porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, havia chegado a detalhar as mentiras. Conforme o relato da agência Reuters, ele disse que o líder da Al Qaeda “tentou se esconder atrás de mulheres quando as forças especiais norte-americanas invadiram o complexo onde ele estava vivendo no Paquistão no domingo”, na cidade de Abbottadab.

Outra “autoridade sênior” de segurança havia, antes dessa entrevista, respondido à pergunta se “o próprio Osama havia se envolvido no tiroteio ou se defendido”, dizendo expressamente que “ele realmente resistiu ao assalto” e foi morto “na troca de tiros”. Houve até descrições das armas à disposição de Osama, como “um fuzil AK-47 e pistolas”.

Com o depoimento da filha de Osama, não houve outro jeito senão dar o dito por não dito, tarefa que sobrou para o porta-voz Carney. Ele ainda tentou enrolar, mas foi perguntado por um jornalista “como Osama resistiu se ele não tinha uma arma, como ele estava resistindo?” Ao que Carney retrucou dizendo que, para ele, resistência – isso contra 30 ou 40 assassinos de elite da CIA armados – “não requer uma arma de fogo”, e prometeu mais detalhes, quando estivessem disponíveis. O repórter insistiu: “Ele tinha alguma arma?”. Então, Carney se rendeu: “ele não estava armado, é o que eu entendo”. Ou seja: uma execução sumária, e na frente da mulher e dos filhos.

Posteriormente, o diretor da CIA, Leon Panneta, e que está de malas prontas para chefiar o Pentágono, deixou ainda mais claro que o que Washington queria era uma queima de arquivo, eliminar Bin Laden. Após dizer que teoricamente este poderia ser capturado caso “se rendesse e não aparentasse representar qualquer tipo de ameaça”, Panneta acrescentou que “para ser franco, eu não acho que ele teve muito tempo para dizer algo”.

O reparo incluiu mudar a história de Brennan sobre a mulher de Osama, que inicialmente teria morrido após ter sido usada por ele como escudo humano. Passou a ser de que ela [sem armas] é que teria atacado um dos sicários da CIA, e levado um tiro na perna por causa disso. A morta era “outra mulher, que atravessou o fogo cruzado” no primeiro andar, onde mais dois supostos seguranças foram liquidados.

Há informes contraditórios sobre um quarto morto ou ferido, o filho de Osama, Hamza. Alguns dizem que foi levado de helicóptero junto com o pai; outros, que ficou largado ali numa poça de sangue. De acordo com a France Presse, no relato de Carney nem mesmo é citado o nome do filho de Osama. Há variações ainda sobre o número de sobreviventes. No registro da BBC, são duas mulheres – a esposa e a médica dele – e dez crianças; mas há relatos, tendo como fonte o serviço de inteligência paquistanês, de até 16.

Também está virando fumaça a fantasiosa caracterização do casarão a 100 km da capital como “mansão”. Brennan até a avaliou em “1 milhão de dólares”. Tirando os muros, a casa não tinha nada, nem ar condicionado. Em dois dias, o “preço” já tinha encolhido para um quarto disso, e caindo.

REMENDOS

Tantas incongruências, divergências e remendos foram explicados pelo porta-voz Carney como fruto da vontade de manter a opinião pública informada, sob a pressão das notícias do front. A propósito, ao ser anunciada a operação e morte de Bin Laden, foi dito que tudo foi acompanhado em “tempo real”, e divulgaram uma foto em que Obama observa atentamente uma tela, acompanhado dos seus principais auxiliares na área de segurança.

Na entrevista do dia 2, Brennan, ao ser perguntado se “podiam ouvir os disparos”, riu e afirmou que “éramos capazes de monitorar a situação em tempo real”. Depois, quando começaram a aparecer os questionamentos sobre o justiçamento de Bin Laden e notícias de “fotos muito fortes”, tiro na cabeça, o cérebro saindo pelo crânio rachado, a coisa mudou, com Panneta dizendo no dia 3 que “por 25 minutos” – a invasão da casa -, houve um apagão e que a decisão foi da “equipe no local”.


 

ANTONIO PIMENTA


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