O canto da sereia de Bob Fields e a campanha contra o salário 

Para o ministro Gilberto Carvalho, aumento de salários coloca “em risco a carruagem”

Em 1964, logo após o golpe de Estado, o falecido Bob Fields – hoje, provavelmente, dando coices no Inferno – descobriu o verdadeiro culpado pela inflação: os salários. Eram os monopólios externos, e não os trabalhadores, que estavam puxando os aumentos de preços – exatamente para capturar uma parte dos salários através desses aumentos de preços. Mas a solução de Bob Fields era dar de presente uma parcela ponderável dos salários a esses monopólios, através do maior arrocho salarial que até então o país tinha visto. Assim, os monopólios não precisariam aumentar os preços.

Bob Fields até mesmo elaborou um decreto que proibia aos empresários dar aumento aos trabalhadores. Dizia ele que os aumentos de salários eram inflacionários porque os trabalhadores não se conformavam em ter reduzido o seu salário real – isto é, queriam ter pelo menos o poder aquisitivo que perdiam com a inflação reposto no salário. Para efetivar essa política dos salários aumentarem menos que a inflação – vale dizer, de reduzir o salário - foi necessário um golpe de Estado e uma ditadura, que desembocaram numa crise terrível.

Nunca houve nada tão desmoralizado na época da ditadura quanto a história de que os aumentos de salários eram causa – e não, pelo menos parcialmente, efeito – da inflação. O próprio presidente Lula começou sua liderança sindical em âmbito nacional pela contestação de um índice de inflação que um ministro da época (não vamos dizer seu nome) havia “expurgado” para não repor a inflação nos salários.

O ministro Gilberto Carvalho deve saber disso, pois era soldador nas fábricas do ABC paulista durante as décadas de 70 e 80 e membro destacado da Pastoral Operária, que sempre combateu essa ideia de que os aumentos de salário causavam inflação.

Por isso, é estranho que o ministro tenha declarado à Agência Carta Maior que “vamos ter campanhas salariais no fim do ano, quando a inflação já estará caindo, mas no acumulado ainda estará alta. Então, vai ter que ter maturidade do movimento sindical, do governo e do funcionalismo público, para que, num ano específico como este, as pessoas não queiram, egoisticamente, o seu próprio bem e ponham em risco o andamento da carruagem”.

“Egoisticamente”? Como podem os aumentos de salários reivindicados pelos trabalhadores por em risco a “carruagem”, isto é, o combate à inflação?

Os bancos tiveram, em média, 30% de lucro apenas especulando, sem fazer nada de produtivo, e ninguém fala em limitar nem os lucros nem a especulação. O governo gastou R$ 195 bilhões em juros no ano passado e, no orçamento deste ano, estão reservados R$ 169.870.725.435,00 para eles. No entanto, o BC somente faz aumentar os juros. As multinacionais monopolizaram o etanol e em apenas quatro meses, segundo o IBGE, o preço do produto já aumentou 31,09%. Fora isso, as commodities aumentaram de preço sem qualquer motivo interno, devido somente à especulação nas bolsas de Chicago e Nova Iorque.

E, mesmo assim, não há nada de extraordinário na inflação. Somente os que querem aumentar os juros é que fazem escândalo com um IPCA de 6,51% nos últimos 12 meses.

No entanto, pela declaração do ministro, são os trabalhadores que não podem ser “egoístas” e exigir aumentos de salários mais ou menos justos porque, senão, “podem por em risco a carruagem”. Já os bancos e as multinacionais...

O ministro, certamente, sabe, desde a época em que, como diz, “distribuía panfletos em porta de fábrica”, que os salários no Brasil são baixos até em relação a países menos desenvolvidos. No entanto, sua fundamentação é que “há um canto da sereia muito grande que setores interessados propagam na imprensa hoje a favor de juros mais altos, de medidas mais duras, que o setor financeiro sobretudo tem interesse. E o governo acredita que não é bem assim, que tem de manejar o remédio em doses adequadas para evitar um efeito colateral recessivo muito grande. Nos interessa que os trabalhadores compreendam isso e possam vir a apoiar, nossa esperança é que venham a apoiar”.

O ministro vai nos desculpar, mas não são os trabalhadores que caem em tentação com esse “canto da sereia”. Não há um trabalhador que seja a favor de juros altos, e, menos ainda, de aumentos de juros. O mesmo não se pode dizer do BC ou do ministro da Fazenda.

Para evitar mais aumentos de juros, os trabalhadores não têm que aceitar aumentos ou reajustes menores. Basta o governo, através do BC, não aumentar os juros – e reduzi-los. Os aumentos de salários não têm nenhuma relação com os aumentos de juros, exceto se a tese for, como parece ser, a de que os aumentos de salários, por causar inflação, acabam forçando o BC a aumentar os juros.

Mas essa é a tese do Bob Fields, de 50 anos atrás, que todo o movimento sindical de hoje se formou, precisamente, combatendo-a – inclusive o próprio ministro. Certamente, não são os aumentos salariais que forçam o BC a aumentar os juros. Tanto assim que no governo Fernando Henrique os juros do BC foram a 45% com os salários caindo mais do que a mulher de Putifar ao ver José, o filho de Jacó.

Mas talvez tudo seja apenas uma questão de más companhias. Na televisão, o presidente do BC, Alexandre Tombini, disse que “a inflação estará rodando acima do teto da meta de 6,5% quando importantes categorias de trabalhadores estarão dando início às negociações salariais. (…) os agentes econômicos devem mirar a perspectiva de inflação quando as propostas estiverem na mesa. (…) reajustes muito elevados podem resultar em perda de competitividade do mercado local com relação a seus pares internacionais”.

Muito legal: não são os juros e o câmbio que o BC fabricou que tiram a “competitividade” de nossas empresas, mas os aumentos de salários - que são a base da expansão do mercado interno.

A presidente Dilma poderia livrar o ministro Gilberto dessas más companhias. Por exemplo, demitindo esse presidente do BC. Até porque, desde quando presidente do BC, que tem como responsabilidade a política monetária, e nada mais, pode dar palpite sobre salários?

CARLOS LOPES


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