Brasil não apoia resolução forjada por EUA/Otan na ONU contra Síria

Assessor especial da Presidência, Marco Aurélio Garcia, lembra que a Otan manipulou
a resolução 1.973 para bombardear a Líbia  

Por determinação da presidenta Dilma Rousseff, que se encontra em viagem pela Europa, o Brasil se absteve na votação, realizada na terça-feira (4) no Conselho de Segurança (CS) da ONU, de resolução contra a Síria.

A resolução com ameaças de intervenção no país árabe foi articulada pelos EUA junto com alguns países europeus. Além do Brasil, abstiveram-se a Índia, a África do Sul e o Líbano. Já a China e a Rússia usaram suas prerrogativas no CS e vetaram a resolução (ver também na página 6).
 

O assessor especial do Palácio do Planalto para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, afirmou que o Brasil tem que ter muita cautela neste assunto. A justificativa oficial de Brasília para a abstenção é a de que a Resolução 1.973, que autorizou a Otan a intervir na Líbia, foi interpretada de forma abusiva pela aliança atlântica. Segundo ele, o temor é que os abusos que foram cometidos contra a Líbia se repitam na Síria. “A situação (sobre a resolução para a Síria) é muito, muito complicada”, disse. “Mas já está encerrada. Rússia e China agiram de forma bastante firme. A China havia anos não tomava uma posição de veto”, observou.
 

Garcia acrescentou que o governo brasileiro recebeu informações de que parte da cúpula do chamado “conselho nacional de transição (CNT)” esteve envolvida diretamente em ordens para massacrar pessoas simpáticas ao governo de Kadafi. Para justificar o morticínio contra o povo líbio, “relatórios” produzidos na Europa e pelo próprio CNT tentaram jogar sobre as forças leais a Kadafi acusações de crimes e violações. Segundo Garcia, porém, as informações que chegaram à diplomacia brasileira são de que quem mandou assassinar rivais capturados foram os integrantes da cúpula do CNT e não os partidários de Kadafi.
 

O assessor da presidência alerta ainda para a indefinição sobre o controle do poder na Líbia. “A situação não está resolvida ainda e pode ser muito perigosa”, disse. Garcia lembrou que os integrantes do famigerado CNT ainda não tomaram Sirte, reduto de Kadafi, e não há um cenário claro sobre o futuro da Líbia. Além da indefinição sobre o controle do país, outro tema que preocupa o Palácio do Planalto é a divisão interna dos grupos que controlam o CNT. “As divisões são importantes”, destacou o assessor internacional, que acompanha a presidente Dilma durante visita à Bulgária.
 

Depois da orientação, dada pela presidenta Dilma, para que a equipe do Itamaraty se abstivesse na reunião da ONU, a embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti destacou a dificuldade para estabilizar a região. Ela disse que o mais importante seria o Conselho de Segurança ter condição de agir com cautela e expressar uma só voz. “O Brasil acredita firmemente que o diálogo nacional significativo e inclusivo que leve à reforma política efetiva é a única maneira de solucionar a atual crise na Síria”, declarou.
 

O texto da resolução elaborado conjuntamente por Alemanha, França, Portugal e Reino Unido acabou sendo engavetado por conta da decisão da China e Rússia de vetar a medida. Depois do veto, o embaixador russo Vitaly Churkin afirmou que a resolução proposta não promoveria uma solução pacífica para a crise. Segundo ele, a questão não era de redação, mas “um conflito de abordagens políticas” sobre como acabar com a crise. Já o embaixador chinês, Li Baodong, disse que o texto apresentado só complicaria a tensão existente. Para ele, o rascunho estava excessivamente concentrado em exercer pressão sobre a Síria e incluía ameaça de sanções, o que não resolveria a situação.
 

Os embaixadores dos EUA e da França se disseram indignados com a decisão do Conselho de Segurança. Susan Rice, representante americana, esperneou dizendo que os países que não apoiaram a resolução terão de responder ao povo sírio. Para ela, é enganoso sugerir que a resolução levaria a uma intervenção militar na Síria. Ela só não explicou o que houve com a resolução que levou a Otan a lançar bombardeios criminosos contra a população civil da Líbia. E também não explicou por que não há resoluções do órgão contra as repressões massivas em Wall Street. O embaixador francês Gérard Araud também demonstrou profundo desapontamento com a posição dos Brics. E ele deve ter seus motivos, afinal a França, que já teria acertado com os mercenários que saqueiam a Líbia que quer 35% do butim, agora está com pressa para saquear também a Síria.

SÉRGIO CRUZ


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