Após derrubar economia com cinco aumentos de juros, Copom baixa 0,5

Escalada de juros provocou queda na produção e no emprego industrial em junho. Variação do Índice de Atividade Econômica do BC foi negativa

O que se pode, com segurança, concluir da nota do Copom sobre o corte nos juros básicos nominais em 0,5 ponto percentual (12,5% para 12%), é que a escalada de juros promovida de janeiro a julho provocou uma derrubada na economia muito mais violenta – e, mesmo, fora de controle – do que foi admitida oficialmente até agora. Pelo menos uma derrubada suficientemente grande para assustar o governo e até os aprendizes de feiticeiro neoliberais que no momento compõem a diretoria do Banco Central (BC), e, portanto, o Copom – estes não porque estejam preocupados com o crescimento, mas, sem dúvida, com seus cargos, apesar das declarações de vassalagem à ilegal autonomia do BC de algumas autoridades. Eles sabem que não é o sr. Mantega ou o sr. Augustin que garantem as suas altas colocações.

A redução, em si, é muito pouco importante do ponto de vista das necessidades do país: significa que o juro real, isto é, descontada a inflação, passou de 6,8% para 6,3%, o que também significa que ele é mais que o dobro da segunda taxa do mundo (a da Hungria, com 2,8%) e quase infinitamente maior do que a média das taxas de juros básicos dos 40 principais países (-0,9%). Logo, o diferencial em relação às taxas de outros países continua tão grande, tão enorme, que a redução não terá qualquer influência no câmbio, distorcido pela entrada de um Niagara de dólares, atraídos, precisamente, por essa diferença abissal entre taxas de juros. Para estarmos no mesmo patamar dos outros países é necessário uma queda muito maior – sobretudo considerando que a taxa real dos EUA está em -3,2%.

O professor Dércio Munhoz tem toda razão ao declarar que esse exíguo corte de juros – o primeiro desde julho de 2009 – nada teve a ver com a elevação da meta do superávit primário em R$ 10 bilhões, até porque “o superávit primário não paga metade do gasto com juros”.

Realmente, é uma aberração que o governo, de janeiro a julho, tenha liberado, fora restos a pagar de anos anteriores, apenas R$ 4,9 bilhões em investimentos orçamentários - o que é somente 7,22% do que o Congresso aprovou para o ano - enquanto só o aumento do gasto com juros, em relação ao mesmo período do ano passado, foi R$ 29,4 bilhões e o total despendido foi R$ 138,54 bilhões (cf. STN, “Resultado do Tesouro Nacional”, Tabela A9; e BC, “Relatório de Política Fiscal”, Quadro 2, ambos de agosto/2011).

É assim que o sr. Mantega corta o custeio para aumentar os investimentos... Impossível não concordar com Amir Khair, quando ele chama isso de “política suicida”.

As menções ao “cenário externo” recessivo e “desinflacionário” da nota do Copom têm a aparência da popular peneira que tapa o astro-rei. Evidentemente, esse “cenário”, a tendência ao afundamento das economias centrais, não é novidade alguma. O que, então, mudou? O que mudou é que eles conseguiram, depois de cinco aumentos seguidos da taxa básica de juros, criar um “cenário” suficientemente ruim aqui dentro sem precisar de nenhuma contribuição adicional da recessão externa. Foi isso o que mostraram as estatísticas de emprego, de produção industrial e o próprio índice de atividade do BC, uma espécie de simulação do PIB.

De fato, aumentaram a vulnerabilidade externa a um ponto muito pior do que era em 2008. Por isso, apesar de seu caráter de peneira solar, a menção ao “cenário externo” não é inteiramente despropositada. É fácil perceber, com essa situação, quando os que estão alojados no BC e na Fazenda não conseguem ver o Brasil senão a reboque da matriz imperialista, o que não aconteceria (ou, ainda, acontecerá, se depender deles) com a recessão aprofundando-se nos EUA e Europa. Aliás, toda a nota do Copom é uma descrição de como o país será contaminado inelutavelmente pela crise externa.

É possível (ainda que isso seja uma ilação em cima de uma hipótese) que, sem alguma queda, ainda que simbólica, nos juros, daqui a pouco fosse demais até para uma pessoa invulgarmente paciente - apesar da lenda - como a presidente Dilma. Ou assim sentiram os membros do Copom, que tiveram os números, ruins, da produção industrial de julho divulgados durante a reunião - e ainda tinham uma espada de Dâmocles sobre a cabeça: a divulgação do PIB do segundo trimestre pelo IBGE, marcada para dois dias após a reunião do Copom, e sem poder colocar a culpa pelos resultados no “cenário externo”.

Mas não é bom, porque não seria verdadeiro, exagerar a sensibilidade dos membros do Copom, mesmo diante da perspectiva de ser-lhes apontada a serventia da casa. Essa turma é tão obtusa quanto arrogante.

Entretanto, há 45 dias – desde a reunião do Copom de 20 de julho, que aumentou a taxa de juros pela quinta vez no ano – o único assunto importante deste país são os juros exorbitantes do Banco Central. Certamente, houve toda a futrica da mídia sobre tal ou qual figura pública, mas o número dos que se enredaram nessa bobagem foi pequeno, e deu com os burros n’água no vexame da “Veja” tentando espionar, a la Murdoch, o ex-ministro José Dirceu.

Os juros altos - como já se disse, pornográficos - foram o principal assunto entre os empresários, entre os trabalhadores e até entre os estudantes, para não mencionar que mesmo no Congresso houve anúncio de projeto para contê-los. Escreveram-se laudas e laudas de artigos sobre o tema – a maioria, aliás, bastante interessante – quase todos apontando o alucinado privilégio de alguns especuladores, principalmente bancos estrangeiros, sobre os recursos públicos brasileiros. Fizeram-se manifestações, cada vez maiores, contra o saque do país via juros – e até nos EUA, surpreendentemente, apareceram textos sobre a indecente chuva de maná financeiro, que só chove para meia-dúzia, no Brasil. Houve, inclusive, pesquisas de opinião registrando queda de popularidade do governo diante de um aumento no já grande repúdio da população por essa pilhagem.

No momento, o gasto do setor público com juros chega a 6,02% do PIB, isto é, estamos desperdiçando dinheiro público equivalente a 6% de todo o valor produzido durante um ano inteiro dentro do país. Para comparação: a soma de todos os investimentos aprovados pelo Congresso no Orçamento, em todos os setores, representam 1,7% do PIB. Em doze meses, foram R$ 224,76 bilhões gastos com juros.

Não há, evidentemente, nenhuma necessidade econômica de tal gasto, exceto a necessidade econômica dos bancos estrangeiros e seus fundos ficarem mais ricos à nossa custa. A taxa básica de juros é determinada pelo Banco Central. E os resultados recentes da economia deixaram claro – ainda que antes já fosse óbvio – a que leva o “belo primário” do sr. Mantega e mais todo o dinheiro extra gasto com juros: simplesmente, à recessão, à crise, ao desastre, em suma, a nos tornarmos patos indefesos no tiro ao alvo dos países centrais e bancos externos.

CARLOS LOPES

 

 

 

 

 

 

 


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