Queda do crescimento mostra que é preciso mudar política econômica

Cinco aumentos consecutivos da Selic, bilhões gastos com juros, câmbio favorendo importados, arrocho ao crédito e aos salários derrubam PIB

Em janeiro, o ministro da Fazenda expôs a política econômica do novo governo (v. HP, 19/01/2011).

Segundo disse, para dar continuidade ao governo Lula seria necessário fazer o contrário do governo Lula: reduzir gastos e investimentos públicos; aumentar o “superávit primário”, isto é, o confisco orçamentário para repassar juros aos bancos; diminuir os financiamentos do BNDES e demais bancos públicos às empresas; reduzir o crédito para conter o consumo; manter os juros altos (o que era apresentado como “criar condições para baixá-los”, que é o mesmo que não baixá-los); e reduzir o crescimento “para que ele fosse sustentável”. Logo em seguida, juntou-se a isso a repressão aos salários, com zero de aumento real para o salário mínimo, zero de reajuste para o funcionalismo e uma insidiosa campanha contra os aumentos salariais em geral.

Tudo, alegou o ministro, porque a crise havia passado.

A crise - evidentemente, a crise dos países capitalistas centrais - não havia passado e não passou. Hoje ela é a mesma, e só a mídia servil e mentirosa foi capaz de propalar uma fantasiosa “recuperação” nos EUA. Como alguns advertiram, os estímulos à economia, especialmente à expansão do mercado interno, nem mesmo dependiam da crise, mas da vontade e da intenção de crescer. Certamente, a crise torna a ação do Estado mais urgente, como mostrou o governo Lula, mas, com crise ou sem crise, são os investimentos públicos e o gasto público que sempre puxam o crescimento.

Agora, depois de fazer o contrário durante oito meses, diante da redução do crescimento no segundo trimestre, o ministro da Fazenda declara que “uma parte do nosso crescimento está sendo atendido pelas importações e isso se deve ao câmbio, que desfavorece o produto brasileiro, e ao desespero internacional, que faz com que os outros países exportem para os mercados mais dinâmicos. Se não houvesse esse vazamento, o PIB brasileiro teria sido maior nesse segundo trimestre de 2011”.

Passemos ao largo dessa consideração de que outros países exportam para cá por “desespero” - um desespero muito bem sucedido, enquanto aceitarmos que o câmbio seja manipulado de acordo com os interesses deles.

O sr. Mantega pode escolher uma das alternativas: ou as importações “atendem” o nosso crescimento ou prejudicam o nosso crescimento. As duas ao mesmo tempo, não. Mas foi o que ele disse.

Muito interessante é a teoria do “vazamento”. Geralmente é para evitar problemas cambiais desse tipo que os governos têm um ministro da Fazenda. O câmbio é o preço da moeda nacional em relação às outras, não um enclave colonial para favorecer moedas externas. No entanto, ao modo de Washington Luís, o ministro diz que o problema do câmbio só vai ser resolvido quando os países centrais se recuperarem, “e isso pode levar algum tempo”. Portanto, se depender dele, seremos plateia da invasão de importações e do “vazamento” do nosso crescimento para o exterior.

Porém, ao mesmo tempo que culpa esse “vazamento” pelo crescimento algo pífio - portanto, reconhece que ficou abaixo do que esperava - o ministro também diz que “a desaceleração responde às ações adotadas pelo governo”, e que ela é positiva, pois, “ajuda no controle da inflação”.

Das duas, uma: ou a redução do crescimento no segundo trimestre é algo bom e planejado - assim como as ações do Chapolin Colorado são todas friamente calculadas - ou é ruim e causado pelo “vazamento” para o exterior, via importações. As duas coisas ao mesmo tempo não são possíveis nem para a astúcia do super-herói mexicano - e Mantega sabe qual é a verdadeira, tanto assim que promete um “aquecimento da atividade” para o final do ano.

O ministro, depois do ridículo de propor que todos os países do mundo adotem o chamado “câmbio flutuante” (não alcançou muito sucesso no seminário do FMI em que fez tão perspicaz proposta), declarou que é “desespero” (sic) a Suíça defender sua moeda, passando a administrar o câmbio, e que o Brasil não sairá do câmbio flutuante, esse mesmo que, segundo suas próprias palavras, “desfavorece o produto brasileiro”. Ao invés de se preocupar com isso, está preocupado em tachar de desesperados os que defendem os seus produtos, para que continuemos “vazados” pelos picaretas de maior porte do mundo.

Se o leitor, até agora, achou que tudo isso parece coisa de maluco, é porque é coisa de maluco.

Não que o problema da política econômica seja psiquiátrico. A questão é que essa política recessiva, de privilégio consumado ao setor financeiro, fracassou rotundamente. O dobre de finados foi a redução do crescimento abaixo até daquilo que o então presidente Lula chamou, muito justamente, de “imbecilidade de certos economistas”: o “PIB potencial” de 3,5%, que seria o máximo que poderíamos crescer.

Daí, quem quer manter-se fora da realidade, isto é, manter uma política já falida na prática, acaba por mergulhar em contradições insolúveis, num piquenique de alhos com frangalhos, em negativas das próprias afirmativas e afirmativas das próprias negativas.

A única forma de sair desse beco é saindo dele, isto é, mudando o trajeto para não cair nele. Não se resolve o problema fingindo que ele não existe, ou seja, fingindo que se acertou até agora. É preciso reconhecer que se errou – e mudar.

Toda a história de que a crise externa já havia passado e, por isso, era necessário retirar os estímulos ao mercado interno, era uma falácia. Mas não foi a crise externa que levou a um crescimento medíocre no instante em que o país precisa – e pode – se desenvolver.

O crescimento do PIB, quando o atual governo assumiu, era 7,5% - e a crise externa era fato corrente havia dois anos. Os aumentos de juros, cinco em seguida, e demais medidas recessivas da dupla Mantega/Tombini, sua cumplicidade no gasto perdulário de R$ 138,5 bilhões em juros no intervalo de apenas sete meses, sua complacência com um câmbio distorcido por juros estapafúrdios e manipulado pela guerra cambial dos EUA, levaram a uma queda para 3,1% no segundo trimestre (comparado ao ano passado) e apenas 0,8% maior que no trimestre anterior.

É sintomático que, eludindo a sua responsabilidade, o Banco Central sacou como argumento para cortar 0,5 p.p. na taxa de juros básica, exatamente, a crise externa. Esta, desde 2008, é ora mais aguda, ora menos, mas em que ela interferiu para reduzir o crescimento do país? Em absolutamente nada, ao contrário dos cinco aumentos de juros perpetrados pelo BC.

Esses aprendizes de feiticeiro, apesar de reiteradamente avisados, não contavam com tamanha derrubada da economia. Mas era óbvio que essa política não podia resultar em mais que um aborto – e os números atuais são preocupantes, antes de tudo, pela tendência que revelam, se essa política continuar.

CARLOS LOPES
 

 

 

 

 

 


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