Paz mundial pende por um fio (2)

 (Continuação da edição anterior)

FIDEL CASTRO

Qualquer um se espantaria da tranquilidade com que os Estados Unidos e a civilizada Europa promovem esta campanha com uma pasmosa e sistemática prática terrorista. Bastem estas linhas transmitidas por outra importante agência europeia de notícias: “O assassinato, na quarta-feira, de um responsável da planta nuclear de Natanz, no centro do Irã, tem três precedentes desde janeiro de 2010."

A 12 de janeiro desse ano: “Um físico nuclear reconhecido internacionalmente, Masud Alí Mohamadi, professor na Universidade de Teerã e que trabalhava para os Guardiões da Revolução, morreu na explosão de uma moto bomba diante do seu domicílio…”.

“29 de novembro de 2010: Majid Shahriari, fundador da Sociedade nuclear do Irã e ‘encarregado de um dos grandes projetos da Organização iraniana da energia atômica’ […] foi morto em Teerã pela explosão duma bomba magnética fixada a seu automóvel.

“No mesmo dia, outro físico nuclear, Fereydoun Abasi Davani, foi alvo de um atentado em condições idênticas quando estacionava seu carro diante da Universidade Shahid Beheshti em Teerã, onde ambos os homens eram professores.” Apenas resultou ferido.

“23 de julho de 2011: O cientista Dariush Rezainejad, que trabalhava em projetos do ministério da Defesa, foi morto a tiros por desconhecidos que se deslocavam numa moto em Teerã.”

“11 de janeiro de 2012: isto é, no mesmo dia em que Ahmadinejad viajava da Nicarágua a Cuba, para ministrar sua conferência na Universidade de Havana†O cientista Mostafa Ahmadi Roshan, que trabalhava na planta de Natanz, da qual era vice-diretor para os assuntos comerciais, morreu na explosão de uma bomba magnética colocada sobre seu automóvel, perto da Universidade Allameh Tabatabai, a leste de Teerã”. Como em anos anteriores “Irã acusou de novo os Estados Unidos e o Israel.”

Trata-se de uma chacina seletiva de brilhantes cientistas iranianos sistematicamente assassinados. Li artigos de conhecidos simpatizantes de Israel que falam de crimes realizados por seus serviços de inteligência, em colaboração com os dos Estados Unidos e a Otan, como algo normal.

Ao mesmo tempo, desde Moscou as agências informam que “A Rússia advertiu hoje que na Síria está amadurecendo um cenário similar ao da Líbia, mas alertou que desta vez o ataque virá da vizinha Turquia.

“O Secretário do Conselho de Segurança russo, Nikolai Patrushev, sustentou que Ocidente deseja ‘castigar Damasco não tanto pela repressão à oposição mas por sua resistência a interromper sua aliança com Teerã’.”

“…em sua opinião, na Síria está madurando um cenário como o da Líbia, mas desta vez, as forças de ataque não virão da França, da Grã-Bretanha e da Itália, mas da Turquia.”

“Inclusive, atreveu-se a adiantar que ‘é possível que Washington e Ancara estejam definindo já várias opções de zonas de exclusão de vôo, onde exércitos armados de rebeldes sírios poderiam ser treinados e concentrados’.”

As notícias não só procedem do Irã e do Oriente Médio, mas também doutros pontos da Ásia Central próximos do Oriente Médio. Elas nos permitem ponderar a complexidade dos problemas que podem se derivar dessa perigosa zona.

Os Estados Unidos têm sido conduzidos por sua contraditória e absurda política imperial a problemas sérios em países como Paquistão, cujas fronteiras com outro importante Estado, Afeganistão, foram traçadas pelos colonialistas sem levar em conta nem a cultura nem as etnias.

Neste último país, que durante séculos defendeu sua independência face ao colonialismo inglês, a produção de drogas se tem multiplicado desde a invasão ianque, e os soldados europeus apoiados pelos aviões sem piloto e armamento sofisticado dos Estados Unidos cometem vergonhosas chacinas que incrementam o ódio da população e afastam as possibilidades de paz. Isso e outras imundícies também se refletem nos telexes das agências ocidentais de notícias.

“Wasshington, 12 janeiro 2012 – O secretário estadunidense de Defesa, Leon Panetta, qualificou nesta quinta-feira de ‘absolutamente lamentável’ o comportamento de quatro homens apresentados como marines norte-americanos urinando sobre cadáveres no Afeganistão em um vídeo difundido por Internet.

“Vi as imagens e acho o comportamento (desses homens) absolutamente lamentável…”

“‘Este comportamento é totalmente inapropriado da parte de membros do exército estadunidense e não reflete em nenhum caso os critérios e os valores que nossas forças armadas juram respeitar’…”

Na verdade nem o afirma nem o nega. Qualquer um pode ficar com a dúvida e possivelmente até o próprio Secretário de Defesa.

Mas também resulta extremamente desumano, que homens, mulheres e crianças, ou um combatente afegão que luta contra a ocupação estrangeira, seja assassinado pelas bombas dos aviões sem piloto. Uma coisa também muito grave: dezenas de soldados e oficiais paquistaneses, que cuidavam das fronteiras do país, têm sido destroçados por essas bombas.

Em declarações do próprio Karzai, Presidente do Afeganistão, expressou que o ultraje aos cadáveres era “‘simplesmente desumano, e pediu ao governo estadunidense que ‘aplique o castigo mais severo a quem for, que acabe sendo condenado por este crime’.”

Porta-vozes dos talibãs declararam que “‘nos dez últimos anos ocorreram centenas de atos similares que não foram revelados’…”

A gente inclusive sente lástima por aqueles soldados, separados de familiares e amigos, a milhares de quilômetros de sua própria pátria, enviados a lutarem em países que nem sequer talvez ouviram mencionar como escolares, onde lhes encomendam a tarefa de matar ou morrer para enriquecer empresas transnacionais, fabricantes de armas e políticos inescrupulosos, que dilapidam cada ano os fundos que se precisam para a alimentação e a educação dos incontáveis milhões de esfomeados e analfabetos no mundo.

Nem poucos desses soldados, vítimas dos traumas sofridos, terminam se privando da vida.

Acaso exagero quando afirmo que a paz mundial pende de um fio?
 


Capa
Página 2
Página 3 Página 4 Página 5 Página 6 Página 7 Página 8