Mantega prevê crescimento com mais arrocho e gastos com juros

Em 2011, ele anunciou que o país cresceria 5%

Diante da sessão de vaticínios e entidades de outro mundo - mais fantasistas e vigaristas do que espirituais, é verdade – oficiada pelo ministro da Fazenda na reunião ministerial de segunda-feira, relembremos outro evento, do mesmo tipo, acontecido há um ano.

Em janeiro do ano passado, na primeira reunião ministerial do governo Dilma, o ministro Guido Mantega disse que o país cresceria 5% em 2011, o que já era um recuo de 0,5 ponto percentual em relação à sua previsão anterior; disse que a média anual de crescimento do mandato de Dilma seria 5,9% - superior, portanto, em nada menos que 1,3 p.p., à do governo Lula; disse que a taxa de investimento da economia aumentaria, até 2014, de 19 ou 20% para 24% do PIB; disse que a forma de chegar a isso era cortar gastos públicos “com custeio”, não realizar “novos” gastos (isto é, investimentos), aumentar o “superávit primário” (o confisco de dinheiro do Orçamento para gastar com os bancos, via juros), diminuir o financiamento público (isto é, do BNDES) às empresas, e “criar condições para redução dos juros” (cf. HP, 19/01/2011).

Em resumo, ele postulava que o país iria crescer, fazendo o oposto do que Lula fez. Além disso, o salário mínimo não teve aumento real, os servidores não tiveram nem reajuste, e montou-se uma campanha contra os aumentos salariais, ou seja, achatou-se o mercado interno ainda mais do que já é achatado por um dos mais baixos níveis salariais do mundo civilizado.

Os leitores sabem o que aconteceu a seguir, em 2011:

1)         o país cresceu menos de 3%, nem chegando ao miserável “PIB potencial” dos tucanos e neoliberais – e muito menos chegou perto da média de crescimento do segundo mandato de Lula, para não falar dos 7,5% de 2010;

2)         os juros foram aumentados cinco vezes consecutivas;

3)         a taxa de investimento caiu, em relação a 2010 – não temos ainda o resultado do último trimestre de 2011, mas ela estagnou no primeiro trimestre, caiu no segundo e caiu no terceiro trimestre em relação ao ano anterior;

4)         a produção da indústria, que crescera +10,5% sob Lula, amargou medíocres 0,4% até agora;

5)         os gastos públicos foram cortados (não somente os de custeio, mas, inclusive, gastos com investimento); o BNDES reduziu seus financiamentos às empresas; o “superávit primário” foi aumentado em +40% em relação a 2010. O resultado foi que somente os gastos com juros cresceram - cresceram tanto que, apesar de um “superávit primário” gigantesco, as transferências aos bancos, sob a forma de juros, excederam-no em R$ 89,3 bilhões;

6)         o câmbio, no momento em que o país continuava sendo agredido por colossais quantidades de dólares desvalorizados, foi manipulado e distorcido pelos juros altos e pelas intervenções do BC, subsidiando uma catadupa de importações que ocuparam parcela crescente do mercado interno, depredando a indústria nacional;

7)         as contas externas ficaram penduradas na especulação com commodities, pois 47,83% das exportações foram de produtos primários. O resultado é que o aumento no valor das exportações foi mero aumento especulativo de preços, sendo insignificante o aumento de sua quantidade. Enquanto isso, as exportações de produtos manufaturados - que já foram quase 60% - caíram para 36% do total. 

2012

Bem, leitor, depois dessa lembrança, o que aconteceu na reunião de segunda-feira, depois de 12 meses em que o país, do ponto de vista econômico, bordejou entre a mediocridade e a calamidade?

O ministro Mantega disse que o país crescerá “de 4 a 5%” em 2012. Por que de “4 a 5%”? “Se a economia internacional se comportar adequadamente, não tiver grandes surpresas – se recuperar, inclusive - , nós podemos tentar buscar 5%. Se a economia internacional se agravar, então nós podemos ter 4%. Quatro por cento é o mínimo. Cinco por cento é o padrão, teto. Portanto, 4,5% é o centro”.

Nada como um ministro que sabe matemática – e até consegue calcular que entre 4 e 5, o meio é 4,5. Mas a “crise internacional” não tem a ver com isso, como também não tem a ver com a aceleração da queda do crescimento em 2011, pois a crise que existe é a dos países centrais – fora esses, só estão em crise aqueles cujos governos acham que é uma glória ser espoliado por um país imperialista, aliás, poucos. Só nessa medida a crise dos países centrais pode restringir nosso crescimento.

Porém, de onde Mantega tirou que a crise “pode” afetar o Brasil em um ponto para baixo e a “não-crise” em um ponto para cima – ou meio ponto pra lá, meio ponto pra cá? De onde ele tirou que 5% é o “teto” do crescimento brasileiro?

Já que crescimento econômico não é chuva, que cai do céu, mas o resultado de uma ação humana, que política Mantega está propondo para que o país chegue a 4% ou a 4,5% ou a 5%, em 2012?

Sucintamente, nas suas próprias palavras:

Vamos atrás do primário cheio [isto é, sem nem mesmo o desconto que o FMI permite para gastos em infraestrutura] em 2012. O contingenciamento [o corte no Orçamento] vai ser do tamanho necessário para garantir o cumprimento da meta de R$ 140 bilhões de superávit primário. Isso significa manter o controle de gastos de custeio. Vamos continuar nessa direção, dando continuidade à política fiscal e monetária que já praticamos em 2011”.

Em suma, ele quer alcançar essa taxa de 4% - nada esplendorosa (Lula chegou a 7,5% de crescimento), porém, maior que a de 2011 - cortando mais gastos públicos, aumentando em mais R$ 20 bilhões o “superávit primário” e contendo o financiamento público às empresas, pois o seu “aumento de investimentos”, aliás, ridículo, refere-se unicamente ao “Minha Casa, Minha Vida” e aos “programas sociais” - o investimento do conjunto das empresas nacionais que se dane.

Antes que nos esqueçamos, ele pretende aumentar a taxa de investimento para 24% do PIB em 2014... E, diz ele, “vamos continuar [???] com a política de impedir a valorização do câmbio” - como se alguma vez ele tivesse tomado alguma providência efetiva contra o escândalo cambial; e que “a economia brasileira, mesmo crescendo menos, está gerando mais emprego” (o que é, obviamente, mentira; há meses o emprego industrial está caindo; aliás, pela teoria de Mantega, o bom para o emprego seria o país ter crescimento negativo...).

Logo, essa meta de 4% ou 4,5% ou 5% é tão falsa e mentirosa quanto a meta de 5% de 2011. Aumentar os investimentos através da redução dos investimentos é coisa que não ocorreu nem ao Barão de Münchausen. Aumentar mais o emprego com menor crescimento, também. Acelerar o crescimento com aceleração da queda do crescimento, é milagre que nem São Serapião conseguiu cometer, quanto mais o de estimular a indústria despejando os recursos públicos na parasitagem financeira.

Para as pessoas normais, é algo espantoso como Mantega repete, 12 meses depois, o que disse 12 meses antes, como se não tivesse acontecido nada no intervalo. Como se a indústria – o setor mais dinâmico da economia - não estivesse batendo pino, como se o crescimento do país não estivesse num despenhadeiro, e exatamente pela política que, segundo ele, irá deflagrar uma arrancada do crescimento.

Quanto aos 5% de “teto”, só apareceram porque a taxa média de crescimento do segundo mandato de Lula foi 4,6%. O “teto” de Mantega nada tem a ver com a realidade; ele apenas escolheu, como em janeiro de 2011, um número algo superior à média do governo Lula, em que teve de engolir o crescimento do país para além da ponta do próprio nariz – distância máxima, segundo Voltaire, da visão de mundo dos sapientíssimos sábios adesistas, conformistas e conformados com o mundo tal qual eles acham que é – e que, se depender de seus mesquinhos interesses, vai ser assim para sempre.

CARLOS LOPES

 

 


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