Ocupação inglesa nas Malvinas é um desacato à América do Sul

Presidente Cristina Kirchner afirmou que vai levar a questão à ONU, onde já existe uma resolução desde 1965 pró-Argentina

     O governo argentino tem toda razão ao apontar que o envio às ilhas Malvinas, pela Inglaterra, do destróier HMS Dauntless, de um submarino nuclear e tropas - onde não falta um príncipe real em trajes guerreiros - tem “o objetivo de distrair a atenção pública das políticas econômicas de ajustes num contexto interno de crise estrutural e alto desemprego”.

O mumificado establishment inglês é, há muito, especialista nesse tipo de aventura – forjar uma distração externa, enquanto o povo inglês é explorado, desempregado e roubado pelos tubarões que mandam no governo e devastam o país.

No caso das Malvinas, há uma atração extra – que não é pequena: existe petróleo. Saquear outros povos, além do seu, é uma espécie de cacoete inextirpável daqueles que, historicamente, fizeram a vida na pirataria.

No entanto, não estamos mais no século XIX, quando, em 1833, um navio de guerra inglês expulsou, debaixo de bala, as tropas e a população argentina que vivia nas Malvinas. A ocupação inglesa hoje é um enclave colonial escandaloso, em que uma decadentíssima ex-potência colonial, que hoje só consegue existir, ela própria, como colônia - dos EUA - mantém territórios a milhares de quilômetros, na costa do país que, no passado, ela pilhou. A questão é de tal forma escandalosa que basta olhar o mapa para perceber a aberração – evidentemente, só um ingênuo perguntaria como o governo inglês pode defender que ilhas na costa argentina, a dezenas de milhares de quilômetros da Inglaterra, são “britânicas”. O atual governo inglês defende isso porque é sem vergonha, como geralmente é o colonialismo. Para quem já defendeu, como os conservadores ingleses, que a Índia e a Birmânia eram intrinsecamente britânicas...

Há 180 anos, a ocupação das Malvinas foi um ato de bucaneiros. Hoje, é mais anacrônica que a rainha da Inglaterra – que, no frigir dos ovos, ao contrário das Malvinas, é um problema apenas para os ingleses.

Por tudo isso e por mais alguma coisa, a ocupação ilegal e colonialista das Ilhas Malvinas, Georgias e Sandwich do Sul deixou há muito de ser uma questão somente argentina. A rigor, nunca foi apenas uma luta argentina. Trata-se de uma agressão a todos os países que se libertaram do colonialismo, em especial os da América do Sul e América Latina. Principalmente quando os colonialistas começam a usá-la como base para militarizar o Atlântico Sul – e pode-se lembrar que as forças armadas inglesas, hoje, servem para intervir onde os norte-americanos mandarem que elas intervenham. 

Em especial, o Brasil, maior país da região, que há décadas apoia a restituição das Malvinas à Argentina, pode ter, e certamente não poderá deixar de ter, um papel especial na solução do problema. A ocupação inglesa é também uma agressão ao Brasil. As Malvinas ficam mais perto do território continental da Argentina (pouco menos de 500 km) do que as ilhas capixabas de Trindade e Martim Vaz do território continental do Brasil (cerca de 1.200 km) ou até do que Fernando de Noronha em relação a Recife (545 km). Os ingleses não ocuparam essas ilhas brasileiras, mas têm tanto direito a estar nas Malvinas quanto teriam de ocupar os nossos arquipélagos - isto é, nenhum.

A presidente Cristina Kirchner declarou que pretende levar a questão à ONU (V. matéria na página 7). Com efeito, até já existe uma resolução da ONU, aprovada a 16 de dezembro de 1965 - por 94 votos a favor, 14 abstenções e nenhum contra – que reconhece a urgência de “por fim ao colonialismo em todas as partes e em todas as suas formas, em uma das quais se enquadra o caso das Ilhas Malvinas” (cf. Resolução 2065 da Assembleia Geral da ONU, in “Historia de las Relaciones Exteriores Argentinas, Tomo XII, Capítulo 56: Malvinas y la diplomacia multilateral, 1945-1981”).

Antes dessa, há também uma resolução do Comitê de Descolonização da ONU, que estabeleceu o “reconhecimento da soberania Argentina como única solução jurídica válida” nas Malvinas.

O governo inglês desrespeitou essas resoluções – e, por consequência, os países que as aprovaram.

Atualmente, todos os países da América Latina exigem o fim da ocupação inglesa nas Malvinas. O chanceler argentino Héctor Timerman sintetizou a situação bastante bem, ao discursar em Caracas, há alguns dias: “As Malvinas se converteram em uma causa de toda a América Latina e do Caribe e por isso a Argentina não está só, quem está só é a Grã-Bretanha”. O mesmo disse a presidente Cristina Kirchner (ver matéria na página 7).

Nas últimas semanas, a Inglaterra enviou seu ministro das Relações Exteriores, William Hague, aos países da América Latina. Todos os países que visitou confirmaram a decisão tomada por unanimidade na reunião do Mercosul (e também na Unasul), de apoio à Argentina e de não permitir que aportem em seus países navios com a bandeira colonial das Malvinas (aliás, uma bandeira ridícula, com a cruz da bandeira inglesa e um carneiro com cara de perdido no pasto). É uma decisão, por enquanto, suave, que mostra o caráter pacífico dos países latino-americanos. Sempre se poderá aumentar a pressão, ainda pacificamente: o mais justo é que navios de bandeira inglesa, que servem à ocupação das Malvinas, não possam atracar nos portos do continente.

No dia 2 de abril, a Guerra das Malvinas fará 30 anos. Seus resultados, apesar das vidas perdidas, estão longe de ser negativos. A ditadura que existia na Argentina se chocou com seus próprios patrões ianques - e acabou derrubada. Os EUA se desmoralizaram, quando Reagan mandou às favas o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) para apoiar a Inglaterra. O  governo do Chile, que, sob Pinochet, apoiou a Inglaterra, hoje, mesmo com o atual presidente, apoia a Argentina. Em suma, a unidade em torno do fim da ingerência militar inglesa na América Latina progrediu qualitativamente.

Disse o chanceler Timerman que “o envio de navios de guerra, a presença de um herdeiro real com um uniforme militar, a exploração pesqueira e de petróleo em mares argentinos, usurpando bens que pertencem ao povo argentino, não somente aporta uma escalada desnecessária da disputa, mas implica em riscos ambientais e demonstra que o Reino Unido se guia por parâmetros colonialistas, atuando como se estivesse acima da ordem jurídica internacional, desrespeitando as múltiplas decisões da ONU e os apelos dos foros regionais para restabelecer o diálogo com a Argentina”.

É verdade. Por isso mesmo é que a ocupação das Malvinas é um problema de todos – e nunca foi, assumidamente, tão de todos, quanto hoje.

CARLOS LOPES


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