U.S. Deutsch Bank e outras aventuras edificantes (3) 

Continuação da edição anterior

 O que houve na Grécia foi uma transferência de papéis dos bancos privados para o FMI, BCB e alguns bancos centrais, à custa de aumentar a espoliação sobre os gregos

CARLOS LOPES 

O chamado “acordo” sobre a dívida da Grécia, no fim da semana passada, rendeu a esperada algazarra da mídia imperialista & serviçal: os gregos, espoliados brutalmente (e, felizmente, revoltados), foram retratados como “caloteiros”. Alguns patifes por pouco não expeliram lágrimas de esguicho pelos bancos, coitados, tão prejudicados por esses gregos... O próximo passo, provavelmente, será lamentar outras vítimas dos helenos - por exemplo, Xerxes, Mussolini, Hitler, ou, talvez, a Hidra de Lerna.

Sendo assim, comecemos pelo seguinte: na quinta-feira, 8 de março, “os juros da dívida grega a um ano voltaram a superar os 1.000%” (cf. Agência Financeira, “Grécia declarada em incumprimento”, Lisboa/Porto, 08/03/2012).

[Para evitar confusões, compreensíveis devido às estratosféricas taxas do BCB, avisamos que não se trata de juros básicos (a taxa básica real da Grécia está negativa: -1,3% a.a.), mas de juros supostamente “de mercado”, isto é, da escorcha à solta dos bancos sobre os gregos. A diferença pode parecer estranha aos nossos leitores, porque no Brasil, ao contrário de outros países, a taxa básica também remunera os títulos do governo.]

Mas, continuemos: os monopólios financeiros faziam pressão para conseguir, exatamente, o que conseguiram. No entanto, os bancos que especulavam com os papéis gregos não tinham direito algum a receber nada da Grécia. Não se trata apenas de que especulação com risco zero é vitupério: a maioria dos bancos apostou contra a Grécia, isto é, apostou que o país iria à bancarrota – contando com a União Europeia (que não passa, hoje, de uma união dos bancos contra os países) e com o FMI (que sempre foi isso) para expropriar os gregos. Certamente, não avaliaram o tamanho da crise que estavam provocando, mas essa é uma característica intrínseca do especulador: a fixação absoluta nos próprios ganhos – e que se dane o mundo.

O economista Nouriel Roubini tem toda razão ao apontar (em artigo intitulado “Os credores privados da Grécia são os únicos com sorte”, publicado na seção de “opinião” do “Financial Times”) que o “acordo” é um aumento da dívida grega, não uma redução: em troca de um desconto nominal nos antigos títulos, a Grécia terá que tomar 130 bilhões de euros no FMI e no BCE, que serão, quase integralmente, transferidos aos bancos privados – para serem pagos pelos gregos.

Diz Roubini:

Está sendo criado um mito de que os credores privados aceitaram perdas significativas na reestruturação da dívida grega (…). A realidade é que os credores privados conseguiram um acordo dulcíssimo, enquanto as perdas atuais e futuras foram transferidas para credores públicos. (…) a dívida pública da Grécia será insustentável, em aproximadamente 140% do PIB: na melhor das hipóteses, cairá para 120% até 2020 e pode aumentar para algo tão alto quanto 160% do PIB. Por quê? Um ‘corte’ de 110 bilhões de euros nos títulos em mãos privadas está casado com um aumento de 130 bilhões na dívida da Grécia em mãos de credores públicos. Uma parte significativa desse aumento na dívida pública da Grécia vai ser injetado [bail out] em credores privados. 30 bilhões de euros em dinheiro [cash] serão um adiantamento sobre os novos títulos, para garantir a maior parte do seu valor de face. Qualquer novo corte para fazer a dívida grega sustentável, portanto, se chocará com as exigências [não mais do setor privado, mas] do setor público. Os empréstimos de, pelo menos, 25 bilhões de euros do European Financial Stability Facility ao governo grego são para a recapitalização dos bancos, em um esquema que manterá aqueles bancos em mãos privadas e permitirá que os acionistas comprem de volta qualquer injeção de capital público, a preços docemente fixados. Os novos títulos estarão sujeitos à Lei Inglesa, ao contrário dos antigos, que estavam sob jurisdição grega. Assim, caso a Grécia deixe a zona da euro, não poderia mais aprovar uma legislação para converter a dívida em euros numa dívida em dracmas. Essa é uma doçura surpreendente para os credores. (…) A realidade é que a maior parte dos ganhos nos bons tempos (…) foram privatizados, enquanto que a maior parte das perdas foram  socializadas” (Roubini, "Greece’s Private Creditors Are the Lucky Ones", FT, 07/03/2012).

Quanto aos títulos antigos em mãos das chamadas (muito mal) instituições “multilaterais”:

O FMI tem tradicional precedência, mas os títulos detidos pelo Banco Central Europeu e outros bancos centrais da zona do euro também escaparam de um ‘corte’ [‘haircut’], assim como os  empréstimos de fundos de resgate da zona do euro que têm o mesmo status jurídico que os créditos privados”.

Na mesma edição do “Financial Times” há outro artigo - sobre as “ameaças” dos gregos aos bancos e outras canalhices - com uma lista de detentores dos títulos gregos: Allianz [a seguradora do Commerzbank], BNP Paribas, Deutsch Bank, HSBC e Royal Bank of Scotland (cf. “Greece inches closer to € 206bn debt deal”, FT, 07/03/2012).

Para resumir: os dois grandes bancos privados com sede na Alemanha, o maior banco francês e os dois maiores bancos ingleses.

Mas essa lista, apesar de denominar os principais, é muito incompleta. Até os três maiores bancos portugueses – o Banco Comercial Português (BCP), o Banco Português de Investimento (BPI) e a estatal Caixa Geral de Depósitos (CGD) – estão pendurados em títulos gregos (cf. Agência Financeira, “BCP junta-se a BPI e CGD e reestrutura dívida grega”, 07/03/2012).

Toda essa quadrilha espoliava a Grécia. Querem escapar do abismo que eles mesmos cavaram, com ressarcimento – esse é o “acordo” do fim de semana.

O entrelaçamento financeiro não é novidade. Mas o que fez com que chegasse a esse ponto, extremo e estúpido, foi a transformação da banca dos países da Europa em receptadora dos grandes bancos dos EUA. Assim, a única forma de um país dispor de um sistema bancário próprio é através de bancos estatais – desde que tenha um governo decente, um governo próprio, um governo nacional, pois, p. ex., a CGD é estatal, mas pouco serve, no momento, ao povo português, assim como o Royal Bank of Scotland, com 84% das ações em mãos do governo inglês (a “Escócia” do nome desse banco é hoje marca de fantasia).

Quanto à Grécia, o que houve foi uma transferência de papéis dos bancos privados para o FMI, BCB e alguns bancos centrais, à custa de aumentar a espoliação sobre os gregos.

Insistiremos, aqui, numa questão: os bancos exigem que a especulação seja sem riscos – é o que significa “grande demais para quebrar”. Até já vimos isso por aqui, mas não deixa de ser peculiar: por definição, a especulação é uma atividade de risco. Se o sujeito não conseguiu sucesso em roubar (a especulação é sempre um roubo), ou seu próprio roubo o levou à bancarrota, por que teria direito a esperar ressarcimento?

Somente o neoliberalismo conseguiu inventar uma especulação em que o especulador (os grandes, bem entendido) não pode perder. Mas não é um problema teórico. Nem mesmo um problema econômico. Não é a força “econômica” da Alemanha que faz seu ministro das Finanças, Wolfgang Schaüble, declarar, como fez na quarta-feira em Florença: “Se não conseguirmos salvar o sistema financeiro na Grécia, seria uma catástrofe para a população grega. Todo mundo sabe que as verdadeiras causas dos problemas da Grécia e dos gregos vêm da Grécia e da sociedade grega, não do estrangeiro”.

Muito comovente essa intenção de salvar a Grécia e os gregos de si mesmos. Não é a primeira tentativa. Mas, na anterior, foram os gregos que ajudaram a sociedade alemã a melhorar... Talvez repitam o feito.

Enquanto isso, pelo menos no bestunto de serviçais arrogantes como Schaüble, a garantia dos bancos para a especulação sem riscos é o arsenal norte-americano – boa parte do qual ocupa a Alemanha, que nem mesmo chega a ser uma potência de segunda classe.

ESTATÍSTICAS

Algo notável, embora pareça detalhe, é que, ao contrário da Irlanda e até da Islândia – ou, evidentemente, da França e da Alemanha –, pouco se falou nos bancos “gregos”.

Nomes - em inglês - como NBG (National Bank of Greece), EFG Eurobank Ergasias, Alpha Bank, Piraeus Bank, ATEbank (Agricultural Bank of Greece), Attica Bank, Emporiki Bank, General Bank of Greece (ou Geniki Bank) apareceram menos na mídia que os muito menores bancos islandeses.

Entretanto, para um país das dimensões e com a economia da Grécia, esses bancos são gigantescos polvos que espalham seus tentáculos pelos Bálcãs e mais além. Apesar disso, não têm importância alguma como bancos gregos. O Geniki Bank, por exemplo, passou a ser até mesmo oficialmente uma sucursal do Société Générale. Os outros, não faziam (e não fazem) mais do que atuar, na prática, como filiais de bancos com sede na Alemanha, França e Inglaterra - ou, diretamente, nos EUA.

Um dos capítulos mais preconceituosos do livro de Lewis é, como seria de esperar, aquele sobre a Grécia. Naturalmente, os gregos têm, como defeito, uma terrível falta de vocação imperialista – e parecem-se demais com os povos do “terceiro mundo”, isto é, nós.

Logo, o problema da Grécia é que os gregos viviam acima das suas possibilidades, com salários nababescos - e não vamos repetir outros clichês, pois o leitor os conhece devido aos papagaios da mídia.

Mas, examinemos a questão dos salários.

Considerando que eles foram estabelecidos, antes da crise, pelo governo ultrarreacionário de Karamanlis, o leitor pode concluir que não eram nenhuma maravilha. Mas é verdade, segundo o insuspeito Mikis Theodorakis, que “o padrão de vida (…) até então [2008] tinha sido bastante elevado (a Grécia foi classificada entre os 30 países mais ricos do mundo)” - v. HP, 02/03/2012.

Como se explica isso, sobretudo considerando que, após a adesão de Karamanlis à UE e ao euro, a situação do país piorou, o que era evidente pelas contas externas – o saldo comercial agrícola de 9 bilhões de dracmas viraram um déficit de 3 bilhões de euros, com a conta de transações correntes (saldo comercial menos as remessas para o exterior), indo de um superávit de 1,5% do PIB para um déficit de 13%?

Exatamente por isso: transformados em importadores até de alimentos e em remetedores de lucros para outros países, como os gregos iriam comprar os produtos das empresas estrangeiras sem algum nível salarial?

No que se refere às remessas, chama a atenção que um país relativamente pequeno tenha sido invadido, sem contar as de outras nacionalidades, por 130 empresas alemãs. Se considerarmos o PIB de cada país, essa invasão é maior (bem maior) que as 1.600 empresas alemãs, citadas recentemente pela presidente Dilma, que têm filiais no Brasil.

Uma história que Lewis repete, sem a menor crítica (pelo contrário), é a do déficit público grego, que passou de 3% para 15,4% do PIB em uma semana, segundo as contas da equipe do novo primeiro-ministro, George Papandreu, porque teria sido fraudado. A história adquiriu verossimilhança porque era o Goldman Sachs quem administrava as finanças públicas na época de Karamanlis – e, naturalmente, se há algo em que o Goldman Sachs tem muita credibilidade é em fraudes.

Mas a história verdadeira, sucintamente, é a seguinte: em 2010, Papandreu, que substituíra Karamanlis desde outubro do ano anterior, transformou a Autoridade Estatística Helênica (EL.STAT - o IBGE da Grécia) em órgão “independente” do governo, supostamente para livrá-lo de influência “política”. Nomeou, então, um estatístico do FMI, Andreas Georgiu, para presidi-la. Georgiu, passando por cima do conselho da EL.STAT, fez a reavaliação do déficit público de 2009. Mas os membros do conselho protestaram. Especialmente Zoe Georganta, que, além de membro do conselho da EL.STAT, é uma conceituada professora da Universidade da Macedônia, especializada em modelos informáticos para aplicação em economia.

O déficit de 2009”, disse Zoe Georganta ao jornal Eleftherotypia, “foi artificialmente inflado para mostrar que o país tinha o maior rombo fiscal em toda a Europa, até mesmo mais alto que o da Irlanda, que era 14%”. Ela especificou que Georgiu incluíra itens que não faziam parte do cálculo do déficit em nenhum país da Europa, com exceção da Noruega – e que isso fora feito devido à pressão germânica, para possibilitar medidas de arrocho.

O caso rolou e bateu, em novembro passado, onde devia bater: na polícia, que abriu um inquérito criminal para investigar a conduta de Georgiu. Este, tentando devolver a acusação de fraude, emitiu uma frase significativa, em declaração à Reuters: “Qualquer tentativa de administrar [to manage] estatísticas de acordo com o interesse nacional é uma receita para o desastre” (v. The Huffington Post, 28/11/2011, “Andreas Georgiou, Greek Statistics Chief, Accused Of Falsifying Data To Make Crisis Look Worse”).

MUNICÍPIOS

Por último, uma breve observação sobre o capítulo do livro de Lewis que trata da falência dos municípios nos EUA.

Muito interessante é o quadro desolador dos municípios da Califórnia, o Estado norte-americano onde, pode-se dizer, os municípios já faliram há muito tempo – uma das municipalidades visitadas por Lewis demitiu todos os seus funcionários, com exceção do sujeito que os demitiu, contratado para administrar o município (o fato de existir um prefeito escolhido em eleições parece que é um fato sem importância nos EUA) e sua secretária. Em suma, terceirizou-se todo e qualquer serviço público, com salários mais baixos.

Lewis não estabelece relação entre essa catástrofe e a estrutura de impostos que isenta, na maior parte, os mais ricos, inclusive as grandes corporações. Nem está preocupado com os Estados, pois, diz, nos EUA eles descarregam os problemas financeiros sobre os municípios.

No entanto, gasta boa parte do capítulo com a profícua administração de Schwarzenegger na Califórnia, apresentando-o como um moralizador das finanças públicas. O interessante, para quem gosta de humorismo involuntário, é que, com todos os elogios de Lewis, ao entrevistá-lo, Schwarzenegger parece exatamente o que é – um acabado débil mental.

Lewis repete todas as falsificações da mídia sobre a (e pela) derrubada do governador mais progressista do país, o democrata Gray Davis, que enfrentou o monopólio da eletricidade - a Enron & comparsas -, regulamentou as misturas que as petroleiras faziam nos combustíveis e vetou a proibição de que imigrantes “ilegais” fossem atendidos pelo sistema de saúde (a mesma proposta – uma infâmia nazista denominada “Proposição 187” - cassava a nacionalidade norte-americana dos filhos desses imigrantes nascidos nos EUA).

O golpe de Estado sórdido contra Davis, apenas 10 meses após sua reeleição, em que, na mesma cédula, votava-se a saída do governador e o nome do sucessor, Arnold Schwarzenegger, não é um problema para Lewis. Nem se refere ao fato de que Davis, se bem sucedido no enfrentamento aos monopólios, seria um candidato fortíssimo à Casa Branca.

No meio desse embrulho, no entanto, há algo importante: no Brasil, qualquer governador ou prefeito pode dizer que seu principal gasto é com a Educação, especialmente com o salário dos professores, ainda que estes ganhem mal. Nos EUA, esse gasto é tão irrelevante que Lewis nem o menciona: diz ele que 75% do gasto dos municípios é com a “segurança pública”, isto é, com a polícia - secundariamente, com os bombeiros.

É verdade que, no Brasil, a polícia é uma função estadual. Mesmo assim, é notável que os municípios dos EUA gastem 75% do orçamento com “segurança”, pois cada Estado também tem a sua polícia, para não falar no aparato federal: FBI, DEA, ATF, etc., etc., etc.

No esboço inicial para este artigo, tencionávamos fazer um comentário mais longo sobre o assunto, em especial sobre o caráter repressivo da sociedade norte-americana – pois é preciso ser um parvo para achar que o principal objetivo desse gasto é o combate ao crime (e, se fosse, revelaria uma sociedade de criminosos).

Mas, pensando bem, esse comentário é dispensável.


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