Carta a uma Jornalista

Publicamos, em setembro de 2011, nesta mesma página, um texto do físico belga Jean Bricmont sobre a atitude de certa “esquerda” europeia a respeito da agressão imperialista à Líbia (v. HP, 07/09/2011). Desta vez, seu assunto é a ameaça de intervenção na Síria – especialmente as acusações a ele de “ligações com a extrema direita” por sua oposição à ingerência externa nesse país do Oriente Médio.

Por sua contribuição à ciência, Bricmont, atualmente professor da Unidade de Física teórica e física matemática (FYMA) da  Universidade Católica de Louvain, é detentor do Prêmio J. Deruyts da Academia Real da Bélgica (1996) e do Prêmio Quinquenal de 2005 do Fonds de la Recherche Scientifique (FNRS). Foi também professor do Departamento de Matemática da Universidade de Princeton, EUA, de 1979 a 1981.

Não tentaremos descrever seu trabalho científico – até porque está acima das nossas possibilidades explicar o que são, por exemplo, “equações estocásticas não  lineares” ou o que é a “teoria de KAM e Eliasson”, para não falar em “renormalização e equações diferenciais não lineares”. Aqui, seguiremos o sábio conselho dos gregos antigos: sapateiro, não vás além das tuas sandálias.

Recentemente, a Academia Real da Bélgica instituiu a Conférence en l'honneur de Jean Bricmont, que se realizará nos dias 10 e 11 de abril, para homenagear os 60 anos do cientista.

No entanto, Jean Bricmont é conhecido mundialmente pela sua crítica devastadora do chamado pós-modernismo e do relativismo científico em seu livro “Imposturas Intelectuais” (escrito com Alan Sokal), por sua denúncia das atuais agressões imperialistas em “Impérialisme humanitaire. Droits de l’homme, droit d’ingérence, droit du plus fort?” e por seu diálogo com Noam Chomsky em “Raison contre pouvoir. Le pari de Pascal”.

A oposição de Bricmont à agressão na Líbia – e, agora, na Síria – rendeu a ele uma vasta campanha de difamação na França. Especialmente membros do PCF (que hoje desonram o seu nome, Partido Comunista Francês, e o seu passado) atacaram Bricmont por sua posição anti-imperialista.

É a esse tipo de “esquerda”, que renegou a si própria para se agasalhar debaixo do imperialismo, no momento em que ele é mais repugnante, que Bricmont se refere no texto que hoje publicamos.

Não é a primeira vez que a História presencia essa revoada de renegados. Ao eclodir da I Guerra Mundial, Lenin escreveu: “A guerra, como toda crise na vida dos homens, levanta uns e abate outros”. Como ele notou, “não existe uma grande luta sem heróis e sem traidores”.

As ideias filosóficas de Bricmont não são, em nossa opinião, impecáveis. Particularmente, consideramos discutível o lugar que ele concede a Bertrand Russell como pensador. No entanto, é um direito dele ter sua própria opinião – e ainda bem que a tem e não a esconde. Ninguém deixará de ser um homem decente por ter uma opinião, ainda que equivocada, sobre Russell.

Mas, sim, deixará de sê-lo - e de ser um democrata - se apoia a agressão, os assassinatos, os atos de terrorismo e o genocídio de potências imperialistas sobre povos que pretendem empreender o seu próprio caminho – se gostamos ou não desse caminho, como ressalta Bricmont, não tem a menor importância. Não será a submissão ao imperialismo que fará com que os povos sigam caminho melhor. O que não se pode é ser cúmplice, quando se pretende afogar o caminho que os povos, bem ou mal, escolheram para si próprios, em sangue.

C.L.

JEAN BRICMONT

Uma jornalista (a qual não mencionarei nem o nome nem o jornal para o qual ela trabalha) me colocou uma questão a propósito do meu “apoio aos ditadores” (em particular, Assad), da ingerência nos assuntos internos de países como a Síria que esse apoio representaria, de minhas ligações com a extrema direita, tanto com sites “conspiracionistas” e do respaldo racionalista e progressista que eu lhes aportaria.

Eis minha resposta:

Você superdimensiona duas questões importantes: meu “apoio às ditaduras” e minhas “ligações com a extrema direita”. Essas questões são importantes não porque elas sejam pertinentes (elas não são), mas por que elas estão no coração da estratégia de diabolização das modestas formas de resistência à guerra e ao imperialismo que existem na França. É graças a esse gênero de tergiversação que meu amigo Michel Collon foi proibido de falar na Bolsa do Trabalho em Paris, em seguida a uma campanha levada por auto-intitulados anarquistas.

Inicialmente, já que você fala de racionalismo, pensemos no maior filósofo racionalista do Século XX: Bertrand Russel. O que aconteceu com ele no momento da Primeira Guerra Mundial, a qual ele se opunha: foi censurado por apoiar o Kaiser, evidentemente. A astúcia que consiste em denunciar os opositores das guerras como sendo apoiadores da parte a qual se faz a guerra é tão velha como a propaganda de guerra. Nas últimas décadas eu “apoiei” Milosevic, Saddam Hussein, os talibans, Kadafi, Assad e pode ser que amanhã apóie Ahmadinejad.

Na realidade, eu não apoio regime algum. Apoio uma política de não ingerência, quer dizer que não apenas eu rejeito as guerras humanitárias, mas também as eleições compradas, as revoluções coloridas, os golpes de estado organizados pelo Ocidente etc.; proponho que o Ocidente adote a política do movimento dos Países Não Alinhados, que em 2003, pouco antes da invasão do Iraque, desejava “reforçar a cooperação internacional a fim de resolver os problemas internacionais tendo um caráter humanitário e respeitando plenamente a Carta das Nações Unidas” e reiterando “a rejeição pelo movimento dos Não Alinhados do auto-intitulado direito de intervenção humanitária que não tem nenhuma base na Carta das Nações Unidas ou no Direito Internacional”. É a posição constante da maioria da humanidade, da China, da Rússia, da Índia, da América Latina, da União Africana. O que quer que você pense disso, essa posição não é de extrema direita.

 

Como eu escrevi um livro sobre esse assunto (Imperialismo humanitário - Aden, Bruxelas) não vou explicar em detalhes minhas razões; ressaltarei simplesmente que se os ocidentais são realmente capazes de resolver os problemas da Síria, por que não resolveram eles os do Iraque, do Afeganistão ou da Somália? Sublinho igualmente que há um princípio moral elementar que seria necessário respeitar ao se intrometer nos assuntos internos dos outros países – sofrer nós mesmos as consequências disso. Os Ocidentais evidentemente pensam que fazem bem em toda parte, mas os milhões de vítimas causadas pelas guerras da Indochina, da África Austral, da América Central e do Oriente Médio vêem sem dúvida as coisas de maneira diferente.

Com relação a minhas ligações com a extrema direita, há duas questões distintas: o que se quer dizer por ligações e o que se quer dizer por extrema direita? Eu não pediria nada mais nada menos do que me manifestar junto com toda a esquerda contra a política de ingerência, como eu penso que ela deveria fazer. Mas a esquerda ocidental foi completamente convencida pelos argumentos a favor da ingerência humanitária, e, de fato, critica até muito frequentemente os governos ocidentais porque eles não se ingerem suficientemente a seu gosto.

Então, as raras vezes em que eu me manifesto, eu o faço com aqueles que concordam com isso, que não são todos de extrema direita, longe disso (a menos que definamos ser de extrema direita os que de fato são contra as guerras humanitária) mas que não são de esquerda no sentido usual do termo, visto que o grosso da esquerda apóia a política de ingerência. Quando muito, uma parte da esquerda se refugia na política do “nem-nem”: nem a OTAN, nem o país atacado no dado momento. Pessoalmente considero que o nosso dever é lutar contra o militarismo e o imperialismo de nossos próprios países, não criticar os que se defendem deles, e que nossa posição não tem nada de neutra nem de simétrica, ao contrário do que sugere o slogan “nem-nem”.

Por outro lado, estimo ter o direito de encontrar e falar com quem eu quiser: acontece de falar com pessoas que você qualifica como de extrema direita (mesmo se eu não concordo, na maior parte dos casos, com essa qualificação), mas é bem mais frequente com pessoas de extrema esquerda e mais frequente ainda com pessoas que não são nem uma coisa nem outra. Eu me interesso pelos sírios que se opõem à política de ingerência porque eles podem eventualmente me fornecer informações sobre seu país que se contrapõem aos discursos dominantes, já que evidentemente eu conheço, através da mídia, os discursos dos sírios pró-ingerência.

No que se refere a sites, eu me exprimo em cada um que posso – novamente, se o NPA, a Frente de Esquerda ou o PCF quiserem me escutar ou mesmo debater de modo contraditório comigo sobre a política de ingerência, eu estou pronto a fazê-lo. Mas este não é o caso. Percebo que os sites “conspiracionistas”, como você diz, são bem mais abertos, pois sabem que em geral eu não compartilho suas análises, em particular sobre o 11 de setembro, e eles me aceitam assim mesmo. Por outro lado, os indivíduos que eu conheço e que publicam nesses sites não são, absolutamente, de extrema direita e o simples fato de serem céticos com relação ao discurso oficial sobre o 11 de setembro não tem nada em si de extrema direita.

O mundo é complicado demais para mantermos uma atitude “pura”, onde  encontramos e falamos unicamente com pessoas do “nosso lado”. Não nos esqueçamos que na França foi a Câmara eleita na época da Frente Popular que votou plenos poderes a Pétain (após a exclusão dos deputados comunistas e com o concurso dos senadores). E a oposição aos colaboracionistas reunia os stalinistas (na época os comunistas o eram verdadeiramente) e os gaullistas, dos quais muitos eram, antes da guerra, bastante à direita. A mesma coisa se produziu durante a guerra da Argélia e do Vietnam, a oposição às coalizões reuniam, entre outros, comunistas, trotskistas, maoistas, cristãos de esquerda, pacifistas, a propósito, será que Stalin, a FLN (Frente de Libertação Nacional) da Argélia, e Ho Chi Minh não eram democratas? Estávamos errados em os apoiar? Quer dizer, se opor junto com eles ao nazismo e ao colonialismo? E nas campanhas anticomunistas dos anos 1980, a esquerda dos direitos do homem não apoiou a mesma causa comum que uma série de nacionalistas extremistas ou de anti-semitas (Soljenitsyne, por exemplo)? E hoje os partidários da ingerência na Líbia e na Síria não sustentam a mesma causa comum com o Qatar, a Arábia Saudita e uma série de movimentos salafistas?

Em seguida, eu tenho um problema com a definição de “extrema direita”. Eu sei bem o que vocês entendem por isso, mas para mim o que conta são as ideias, não as etiquetas. Agredir países que não os ameaçam (o que é a essência do direito de ingerência) para mim é uma ideia de extrema direita. Punir pessoas em função de suas opiniões (como faz a lei Gayssot), para mim é uma ideia de extrema direita. Suprimir dos países sua soberania e, por consequência, o fundamento da democracia, como o faz cada vez mais a “construção europeia”, para mim é uma ideia de extrema direita. Dizer que Israel é muito criticado porque é uma grande democracia, como se não houvesse outra razão para criticar Israel, para citar aquele em que quase toda a esquerda votará no segundo turno (François Hollande), para mim é uma ideia de extrema direita. Opor de modo simplista o Ocidente ao resto de mundo, em particular à Rússia e à China (como boa parte da esquerda faz hoje em nome da democracia e dos direitos do homem), para mim é uma ideia de extrema direita.

Se vocês querem encontrar um lugar onde eu estarei sem hesitação de acordo com a “esquerda”, viaje um pouco, e vão para a América Latina. Lá vocês verão toda uma esquerda que é anti-imperialista, popular, soberanista e democrática: dirigentes como Chavez, Ortega e Kirchner são eleitos e reeleitos com votações impensáveis aqui, compreendidos como “esquerda democrática”, e eles enfrentam uma oposição midiática bem mais perigosa que um simples Faurisson [N.E.: Robert Faurisson foi um professor de literatura na Universidade de Lyon famoso por negar o Holocausto, hoje condenado pelo Tribunal de Grandes Instâncias de Paris como um ‘falsificador da História’]  (essa oposição chega até a apoiar golpes de estado) mas que eles não pensariam jamais em proibir.

Infelizmente, na Europa e sobretudo na França, a esquerda abandonou a resistência por muitas coisas, a paz, o direito internacional, a soberania, a liberdade de expressão, o povo e o controle social da economia. Essa esquerda substituiu a política pela moral: ela decide no mundo inteiro o que é democracia e o que não é, o que é de extrema direita, o que é frequentável ou não. Ela passa seu tempo inflando o peito “denunciando” as ditaduras, seus cúmplices, as frases politicamente incorretas, ou os anti-semitas, mas ela não tem, na realidade, nenhuma proposição concreta a fazer que possa ir ao encontro das preocupações das populações que ela pretende representar.

Esse abandono múltiplo das causas progressistas abre efetivamente uma avenida para uma certa extrema direita, mas o problema cabe aos que acabaram aceitando essas mudanças, não aos que tentam modestamente resistir a esta ordem mundial.


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