Bicheiro destinava 30% para Demóstenes, averiguou a PF

Até relatórios de reuniões reservadas que teve no Executivo, Legislativo e Judiciário o atual líder do Dem passava para Carlinhos Cachoeira

A Polícia Federal (PF) descobriu que as ligações do senador Demóstenes Torres (GO), líder do Dem no Senado, com o esquema criminoso de exploração de jogos ilegais do bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, são bem antigas e mais profundas do que ele disse em discurso no Senado. As investigações da Operação Monte Carlo, deflagrada no final de fevereiro, encontrou relatórios apontando que o vínculo era de conhecimento da instituição desde 2006.

Segundo a documentação reunida pela PF, relatórios assinados pelo delegado Deuselino Valadares dos Santos, então chefe da Delegacia de Repressão a Crimes Financeiros (DRCOR), da Superintendência do órgão em Goiás, revelam que o senador recebia 30% da arrecadação geral do esquema armado pelo bicheiro, calculado em, aproximadamente, 170 milhões de reais nos últimos seis anos.

A informação faz parte de um Relatório Sigiloso de Análise da Operação Monte Carlo, em estudo no Núcleo de Inteligência Policial da Superintendência da PF em Brasília, obtido pela revista CartaCapital. De acordo com matéria de Leandro Fortes, o delegado que elaborou os relatórios acabou sendo cooptado pela organização criminosa, o que abafou as investigações e garantiu a impunidade da quadrilha até hoje.

Os documentos em poder dos investigadores mostram que o último relatório de Deuselino Valadares sobre o esquema tem a data de 31 de maio de 2006. Nele, o delegado – um dos 35 presos pela Operação Monte Carlo, em 29 de fevereiro, detalhou as ramificações do bicheiro, que incluía, além do senador do Dem, os deputados federais Carlos Alberto Leréia (PSDB), Jovair Arantes (PTB) e Rubens Otoni (PT).

Segundo CartaCapital, uma anotação do delegado Raul Alexandre Marques de Souza, em 13 de outubro de 2011, durante as investigações da Operação Monte Carlo, traz o seguinte registro: “Verificado todo o arquivo físico do NIP/SR/DPF/GO não foi localizado nenhum relatório, informação ou documentos de lavra do DPF DEUSELINO dando conta de eventual continuidade de seus contatos com pessoas ligadas à exploração de jogos de azar no Estado de Goiás”.

Nas escutas telefônicas feitas com autorização da Justiça, a Polícia Federal apurou também o envolvimento no esquema do ex-procurador Marcelo Siqueira, indicado por Demóstenes e Carlos Alberto Leréia para o cargo de superintende de Loterias da Agência Goiânia de Administração (Aganp).

Conforme a reportagem, o primeiro relatório de Deuselino Valadares, de 7 de abril de 2006, trata da investigação sobre uma empresa que fraudou investidores em Goiás, quando ele conheceu o advogado Ruy Cruvinel, que lhe propôs uma parceria para criar um esquema paralelo ao do bicheiro. Em 26 de abril, Cruvinel foi preso e confessou que, de 200 mil reais que arrecadava por semana com jogos ilegais, 50% iam para Carlinhos Cachoeira e 30% para Demóstenes Torres, que repassava parte a Siqueira.

Em 2008, a Operação Las Vegas, também voltada à repressão de jogo ilegal, flagrou o senador em conversas telefônicas com Carlinhos Cachoeira. O relatório com as gravações e outros graves indícios foi enviado à Procuradoria Geral da República em 2009, mas o chefe da instituição, Roberto Gurgel, não tomou qualquer providência para esclarecer o caso.

Numa das gravações, feitas com autorização judicial, Demóstenes - que é ex-delegado e ex-promotor - pede para Cachoeira “pagar uma despesa dele com táxi-aéreo no valor de R$ 3 mil”. No relatório, os investigadores informam que o senador fez “confidências” a Cachoeira sobre reuniões reservadas que teve no Executivo, no Legislativo e no Judiciário. Outro trecho do documento revela que desde 2009, o senador usava um rádio Nextel habilitado nos EUA para conversas secretas com o bicheiro.

As novas denúncias levaram senadores, que antes tinham se solidarizado com Demóstenes, a cobrar em plenário esclarecimentos sobre seu envolvimento com Carlinhos Cachoeira. “A situação tem se agravado fortemente”, disse Jorge Viana (PT/AC), na sessão da última segunda-feira (26).

“Daqui da tribuna deste plenário, posicionei-me dando um voto de confiança ao senador Demóstenes e venho solicitar que ele volte à tribuna em respeito não à minha pessoa, mas em respeito aos brasileiros que o admiram, em respeito à opinião pública nacional e em respeito a este plenário. Que ele possa, o quanto antes, voltar à tribuna e posicionar-se sobre os novos fatos”, acrescentou.

O senador Pedro Taques (PDT/MT) afirmou que “o caso é grave” e que Demóstenes precisa prestar mais esclarecimentos ao Senado e à sociedade. “Este caso do senador – e eu disse isso a ele com o respeito do conhecimento que tenho do seu trabalho há mais de 16 anos – é grave e merece esclarecimento”, disse. A senadora Ana Amélia (PP/RS) também cobrou explicações e pediu investigações sobre os esquemas do bicheiro.

Na Câmara dos Deputados, o deputado federal e ex-delegado da PF, Protógenes Queiroz (PCdoB/SP), apresentou requerimento pedindo a criação da CPI dos Caça-Níqueis. A Mesa Diretora da Casa analisará a proposta, cujo objetivo é criar uma comissão para investigar as denúncias de envolvimento de parlamentares com Cachoeira.


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