"Veja" se banhou em Cachoeira e não quer ouvir falar de CPMI

Para ela, é jornalístico atuar ao lado e utilizar serviços de mafioso, como Carlos Cachoeira 

 Após semanas dedicada a assuntos muito atuais - como, por exemplo, a autenticidade do “Santo Sudário” - sem explicar as 200 ligações flagradas pela Polícia Federal entre seu diretor de redação, Policarpo Jr, e o mafioso Carlos Cachoeira, a revista “Veja” decidiu defender, na última edição, a sua associação ao crime organizado.

Segundo ela, “qualquer repórter iniciante sabe que maus cidadãos podem ser portadores de boas informações”. Outro baluarte da ética e da moralidade, Gilberto Dimenstein, da Folha de S. Paulo, aprofundou esse profundo conceito: “muitas vezes - quase sempre - somos obrigados a descer na lama para obter segredos”.

Pode-se imaginar que segredos se obtém com o ouvido cheio de lama. Por que será que esse pessoal não deixa de arrodeio e confessa logo que gosta de uma lama? Ah, sim, é claro, seria honesto demais para quem tem esse gosto suíno.

TELEFONEMAS

Foram 200 telefonemas para a “Veja”. Duzentos. Não foi um nem foram dois. Foram duzentos. Isso nem é mais descer na lama, mas habitar um chiqueiro. Segundo o Cachoeira – e ninguém até agora o desmentiu com fatos – todos os “furos” (isto é, armações, mentiras e difamações) da “Veja”, foi a sua quadrilha que proporcionou à revista da família Civita.

Isso, durante mais de oito anos, sem que a “Veja” tenha denunciado o bandido em momento algum. Pelo contrário, acobertou a sua atuação criminosa durante todo esse tempo; promoveu um empregado de Cachoeira (pois, pelas gravações, ele nunca foi mais do que isso), o quase ex-senador Demóstenes Torres, a D’Artagnan do Congresso – sim, nada menos do que a D’Artagnan, o quarto e principal dos três mosqueteiros, que a alma do grande Alexandre Dumas apareça na casa do Civita com uma espada na mão; deu publicidade a todas as armações cachoeirísticas, inclusive a mais famosa, a do “mensalão”; deu cobertura aos seus negócios com a americana Gtech, que Lula impediu que tomasse o setor de jogos da Caixa Econômica Federal; em suma, agiu como órgão da quadrilha do empresário Carlinhos Ramos, em sua pororoca de malfeitos.

Não que a “Veja” fizesse parte da quadrilha de Cachoeira, que era bem menos pretensiosa – como o próprio contraventor esclarece ao seu lugar-tenente em uma das gravações, a “Veja” é outra quadrilha. Em suma, tratava-se de um acordo mutuamente vantajoso entre duas quadrilhas – a do jogo e a do golpe.

Tão vantajoso que, como bem disse o presidente da Câmara, deputado Marco Maia (ver matéria nesta página), ainda agora resiste a denunciar Cachoeira, Demóstenes e toda a gang.

Um ex-integrante do grupo de Cachoeira – um homem, que, portanto, saiu da lama, ao invés de descer nela -, o ex-prefeito de Anápolis, Ernani de Paula, descreveu, em entrevista à TV, como Cachoeira e Demóstenes foram os responsáveis pelas gravações contra o governo Lula, que, “reveladas” por Policarpo e “Veja”, redundaram na farsa do “mensalão”.

Lula nada tinha a ver com o assunto – mas foi para uma tentativa de golpe contra o presidente eleito que essas confecções cachoeirenses foram usadas pela “Veja”.

A gangue de Cachoeira foi responsável pelo vídeo em que Maurício Marinho aparecia recebendo uma propina de R$ 3 mil dentro dos Correios. A matéria, não por coincidência, foi assinada por Policarpo Júnior – e foi a origem da mais torpe tentativa de golpe desde à ditadura.

Segundo Ernani, era uma vingança contra José Dirceu, que barrou a nomeação de Demóstenes para um cargo no Ministério da Justiça. “Foi o próprio Cachoeira que me contou que fez essas fitas”, disse o ex-prefeito. “Foi uma represália. Porque eles estavam muito contentes com a desenvoltura do Demóstenes, que iria pegar um cargo no Ministério da Justiça”. O resto, a “Veja” fez.

Agora, surge também que a gravação do Hotel Nahoum – que virou capa da “Veja”, com o título “o poderoso chefão José Dirceu” – fora feita também a mando de Cachoeira. A gravação nada tem de mais, é apenas uma filmagem de correligionários do PT que foram conversar com Dirceu no hotel – mas desde quando a “Veja” precisou de fatos? Bastavam as gravações do Cachoeira.

Policarpo Jr., membro da cúpula da “Veja”, foi visto várias vezes, inclusive pelo ex-prefeito de Anápolis, em reuniões com Cachoeira dentro de suas empresas em Goiás. Nas gravações da PF, a intimidade dos criminosos era tanta que Cachoeira teve que alertar um de seus capangas, Jairo Martins: “você não trabalha para o Policarpo. Trabalha para mim, pô”. “Eu conheço o Policarpo, você conhece também. O Policarpo é o seguinte, ele pensa que todo mundo é malandro. E o seguinte, ele pensa que você e o Dadá trabalham pra ele, rapaz. Você sabe disso. Eu já cansei de falar isso pro Policarpo: ‘Policarpo, põe um negócio na sua cabeça, o Jairo e o Dadá não trabalham pra você. A gente trabalha no grupo. Então se tiver algum problema, você tem que falar comigo’. Já discuti com ele, você sabe disso, já presenciou eu falando com ele”, diz Cachoeira.

A intimidade entre quadrilhas tem desses problemas, sobretudo quando aparece um elemento folgado, tão folgado e tão íntimo que queria mandar na quadrilha alheia.

Ninguém precisa chafurdar na lama para ter fontes – exceto se não são informações, mas lama, o que pretende obter. E foi o que a “Veja” obteve de Cachoeira, com o gáudio e estímulo, até hoje, do sr. Bob Civita.

CORTINA

Agora, a revista de escândalos expõe a perspicaz tese (desculpem, acadêmicos, mas é que se não fosse essa palavra ia sair um palavrão) de que a exposição de seus vínculos com Cachoeira, fartamente documentados pela Polícia Federal, é uma “cortina de fumaça” para impedir que tenham efeito as suas difamações em associação com Cachoeira.

Em resumo, cortina de fumaça é a exposição da verdade sobre a sua podridão. E esses elementos nem percebem que acabaram de confessar o crime: que querem lançar uma cortina de fumaça sobre os seus próprios delitos, abertamente querendo impedir uma CPI – segundo a “Veja”, uma CPI que investiga e mostra a verdade é um instrumento anti-democrático. Como é que pode todo o Brasil saber dessas coisas, e às claras, sem ninguém precisar chafurdar na lama (Deus nos livre e guarde)? Assim, não tem golpismo que dê certo.

Mas não tem fumaça que resolva esse problema. Cedo ou tarde, o longo braço da lei e da Justiça cai pesado sobre o crime e os criminosos. O crime não compensa.

SÉRGIO CRUZ


Capa
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Expediente

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