Matéria da Veja foi decisiva para a minha exoneração, disse Pagot

Ex-diretor do Dnit declarou na CPMI que sua saída foi um complô para favorecer a Delta

O ex-diretor-geral do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), Luiz Antonio Pagot, afirmou que o bicheiro Carlinhos Cachoeira e o diretor da Delta no Centro-Oeste, Cláudio Abreu, armaram um complô em conluio com a “Veja” com o objetivo de derrubá-lo da direção do órgão, por ele ter contrariado interesses da construtora em obras de vários pontos do país.

Durante depoimento à CPI do Cachoeira (CPI), na terça-feira (28), ele disse ter ficado “extremamente estarrecido com o afastamento e, depois, com a exoneração”. “Passando um período triste, em que eu me sentia verdadeiramente um morto vivo, um fantasma, tenho essa brutal notícia de que um complô liderado por um contraventor e um agente de uma empresa tinham sido os responsáveis pela reportagem que gerou o afastamento e, posteriormente, a exoneração”, assinalou.

Pagot esclareceu que foi seu currículo como tocador de obras que o fez chegar ao Dnit, convidado pelo presidente Lula. “Quando da nomeação, em 3 de outubro de 2007, [Lula] sentenciou: “Não se aflija com as adversidades. Supere a burocracia e faça as obras que o Brasil espera. Apoio você vai ter”. “Muito obrigado, presidente Lula, principalmente pelo apoio que nunca me faltou”.

OBRAS

Pagot explicou que havia irregularidades em algumas obras e a exigência do órgão em corrigir os problemas provocou o descontentamento da Delta. “Acredito que esses fatos todos, se nós agimos no interesse de preservar a qualidade das obras e o cumprimento dos compromissos, provocaram dissabores a Cláudio Abreu, o que o levou, juntamente com Cachoeira, a patrocinar uma matéria jornalística que me tirou do Dnit”, afirmou.

O ex-diretor destacou que o órgão vinha tendo alguns problemas com a empreiteira em relação à execução de obras, irregularidades que foram apontadas em vários processos levantados pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e por levantamentos feitos pela rede de controle que o governo federal tinha colocado em funcionamento.

“Então, nesses levantamentos, nesses processos, nesses inquéritos, muitas vezes, fomos informados – tivemos conhecimento dos autos – de que a empresa Delta estava com problemas. No caso, por exemplo, da BR-116 no Ceará, ela tinha subcontratado uma empreiteira local sem autorização do Dnit. E nós, obviamente, abrimos um procedimento sobre isso”, relatou.

Ele acrescentou que, na BR-104, em Pernambuco, a empresa insistia em um aditivo de preços que não foi concedido. Em outra obra, no Rio de Janeiro, o Dnit tentava retirar a Delta por descumprimento de contrato. “Tínhamos um cronograma e a empresa sempre ficava dando desculpas. O que percebemos é que havia uma postergação da empresa em entrar na obra”, disse Pagot.

O ex-diretor lembrou ainda outro episódio em Mato Grosso, no qual a empreiteira usou placas de concreto fora da especificação e aquém da medida estabelecida no projeto. Segundo Pagot, Cláudio Abreu insistia em deixar a obra como estava.

VEJA

“Veja” tinha conhecimento, desde maio de 2011, ou seja, dois meses antes de iniciar uma campanha contra o então ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, da associação entre Cachoeira e a Delta, porque o contraventor a revelou a seu redator-chefe em Brasília, Policarpo Jr. Cachoeira marcou um encontro de Policarpo Jr. com Cláudio Abreu, e depois disso começou a campanha, pois a empresa queria se livrar da fiscalização, que já tomara várias medidas para sanar as irregularidades.

As referências a Luiz Antonio Pagot aparecem em um telefonema entre Cachoeira e Cláudio Abreu, gravado pela Polícia Federal com autorização da Justiça:

Abreu: (…) Quem chamou?

Cachoeira: Policarpo, pô. (…) você lembra que eu te fiz umas perguntas do Pagot? Enfiei tudo no rabo do Pagot, aquela hora o Policarpo tava na minha frente. (…) o que eu plantei do Pagot aquela hora. Ele anotou tudo, viu. Uma beleza agora, Pagot tá fudido com ele.

Essa conversa ocorreu no dia 10 de maio. Numa conversa posterior, no dia 11 de julho, o Dadá, apontado como araponga do bicheiro, diz a Cachoeira: “Tem mais de um ano que o tal do Pagot tá no grampo”. O objetivo, claramente, era derrubar a cúpula dos Transportes para favorecer a Delta.

Foi exatamente o que “Veja” fez: no dia 2 de julho, ela colocou em sua versão online uma suposta denúncia de que no Ministério cobrava-se uma propina das empreiteiras de 4% do valor das obras e 5% das empresas de consultoria. Na edição impressa de 6 de julho, falava-se num suposto “mensalão do PR”, que seria recolhido pelo deputado Valdemar Costa Neto.

Em consequência da cruzada movida por “Veja”, toda a cúpula do Ministério dos Transportes foi exonerada, fato comemorado pelos integrantes da organização criminosa, como mostra outro grampo feito pela Polícia Federal, no dia 7 de julho de 2011, que revela o seguinte diálogo entre Cláudio e Carlos Cachoeira:

Cláudio: Ô Carlinhos, que saudade de receber um chamado seu, amigo!

Cachoeira: Aí, caiu Pagot, caiu Juquinha, caiu todo mundo.

Cláudio (risos): Falei que seu amigo é mais forte que Alden 40, uai.

Perguntado pelo relator da CPI, deputado Odair Cunha (PT/MG), por que os membros da quadrilha comemoraram sua demissão do cargo, Pagot respondeu que não dava “vida boa” a empresas com contrato com o Dnit. “Acredito que era pela atuação que vinha tendo no Dnit. Não dava vida boa a nenhuma empresa, empreiteira, nenhum prestador de serviço”, disse.

REPORTAGEM

O ex-diretor ressaltou ainda que não renegava sua gestão e poderia prestar esclarecimentos, inclusive, em uma eventual CPI do Dnit. “Tinha esperança de haver uma CPI do Dnit para passar a limpo a autarquia, principalmente a gestão de que participei. O momento de minha saída, sem qualquer possibilidade de defesa, sobre o prisma de absoluto isolamento, minha presença à frente do Dnit não era necessária, deixei a autarquia sem ter medo do passado e sem negar a minha gestão.”

O deputado Glauber Braga (PSB/RJ) indagou se ele achava que o fato determinante para sua saída do ministério tinha sido a articulação entre o Cláudio Abreu e Cachoeira, disse: “O fato determinante foi a reportagem. Articularam, sai a reportagem; e pela reportagem, posteriormente, é tomada a decisão da exoneração. Então, o fato determinante foi a reportagem articulada por eles”.

O deputado Ronaldo Fonseca, do PR do Distrito Federal, defendeu a convocação do diretor da sucursal da revista Veja no DF, Policarpo Jr. “Está chegando a hora de nós votarmos o requerimento da vinda do senhor jornalista Policarpo aqui”, disse. O deputado afirmou na sua intervenção estar clarou que “o Sr. [Antonio] Pagot foi vítima de uma quadrilha, que o Ministro Alfredo Nascimento foi vitima de uma quadrilha, sim, senhores. E isso, para uma democracia, é um perigo. É um perigo isso”.

Na quarta-feira (29), foi a vez da CPMI ouvir o depoimento do ex-diretor da empresa rodoviária do governo de São Paulo (Dersa) Paulo Vieira de Souza, conhecido como “Paulo Preto”. Ele disse que a empreiteira Delta era responsável pelo lote 2 da Marginal Tietê, em depoimento na CPMI do Cachoeira, na quarta-feira (29). Ao ser perguntado sobre as irregularidades da Dersa em sua gestão, ele afirmou que “quem determina as diretrizes da estatal é o governador”, referindo-se ao ex-governador José Serra. Ele disse que houve dois aditamentos, de 24,9% cada um, nas obras de revitalização da Marginal Tietê. A obra continha quatro lotes na Marginal Tietê, e a Dersa licitou dois, uma delas ganha pela empreiteira Delta. De acordo com Paulo Souza, o contrato inicial da Delta era de R$ 172 milhões e foi para R$ 215 milhões com o aditivo. A Sobrenco, empresa que participava do mesmo consórcio, subiu o contrato de R$ 114 milhões para R$ 143 milhões.


Capa
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Expediente

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CARTAS

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