A “mudança” de Obama: opção por Wall Street e pelo Pentágono

Presidente do bailout e dos drones, Obama é uma sombra do candidato que movia multidões e está empatado com o especulador abutre Romney

Eleito sob o lema da esperança e da mudança, do “sim, nós pode mos”, Barack Obama chega à Convenção Nacional Democrata que oficializa seu nome à reeleição, como a negação da campanha presidencial que o levou à Casa Branca há quatro anos e que empolgou o povo norte-americano. Não por acaso, na última hora, foi anunciado que o discurso de Obama na convenção, ao invés de ser num estádio de 75 mil lugares como previsto, aliás o estádio do Bank of America, será num espaço menor, a arena Time Warner, porque faltou gente; a desculpa oficial é o “mau tempo”.

Poucas vezes na história um presidente havia granjeado tanto apoio e expectativas, a crise aberta pelo colapso financeiro deixava o caminho aberto para transformações, o país estava cansado das guerras, da tortura e do recalque dos direitos civis de W. Bush, e ele poderia ter tomado a senda de Lincoln e Franklin Roosevelt, mas sua escolha foi outra. Como uma sombra de si mesmo chegou à convenção, no quadro de um empate técnico com o especulador abutre republicano Mitt Romney nas pesquisas, e com as mãos sujas de sangue do Afeganistão, Paquistão, Líbia, Síria e outros lugares. Milhares de ativistas estão em Charlotte, na Carolina do Norte, local da convenção, para manifestarem seu repúdio.

Obama concorre contra ele mesmo, com o desencanto que provocou com sua sina de Anakin-Darth Vader. Na convenção republicana, o grande momento foi o monólogo do cineasta Clint Eastwood com uma cadeira vazia, em que questionou as promessas quebradas de Obama, inclusive Guantánamo. Na convenção, Obama deverá se esmerar em malabarismos verbais para justificar as opções que tomou por Wall Street e pelo Pentágono. Sintomaticamente, ao falar no primeiro dia, terça-feira 4, Michele Obama se declarou a “mamãe-em-chefe”, em contraposição à posição do marido, de “comandante-em-chefe”.

Para tentar justificar as traições de Obama às promessas de quatro anos atrás, quando ele movia multidões, Michele afirmou que “a mudança é dura, a mudança é lenta, e nunca acontece de imediato”. A bem da verdade, a mutação de Obama foi rápida; o que demorou foi a população se aperceber de que, no lugar da mudança, o que havia era um presidente do bailout e dos drones – que na convenção tentará se passar pelo “campeão da classe média”.

NOBEL DA PAZ

Mimado com um “Prêmio Nobel da Paz”, Obama transbordou a guerra do Afeganistão para o Paquistão e triplicou a venda de armas, para US$ 66 bilhões anuais. Com sua secretária de Estado Hillary Clinton, convocou o assassinato do líder líbio Muamar Kadafi, depois de ter enviado mísseis de cruzeiro para destruir o país e apoiar mercenários. Monitorou em tempo real a execução sumária de Bin Laden. A retirada do Iraque não trouxe os rapazes “de volta”: dezenas de milhares estão acantonados no Kuwait e nas bases do Golfo. Está sangrando a Síria com seus “amigos dos EUA” e ameaça o Irã com nova guerra. Tenta completar o cerco contra a Rússia com um escudo antimísseis e à China com seu recém anunciado “pivô do Pacífico”. Apoiou os golpes em Honduras e no Paraguai.

Guantánamo continua aberta e à espera, agora, de Julian Assange, o líder do WikiLeaks, responsável pela divulgação de centenas de milhares de telegramas com operações de ingerência e desestabilização dos EUA, enquanto o soldado Manning segue na solitária. Seu secretário da Justiça, Eric Holder, acaba de acobertar a tortura cometida por W. Bush, declarando que ninguém será punido “por falta de provas”, mesmo havendo cadáveres nas investigações. Ao invés de revogar o Ato (in)Patriótico de W.Bush, o ampliou através da Lei de Autorização de Defesa Nacional (NDAA, na sigla em inglês), que permite prisão por tempo indefinido, em qualquer lugar do globo, sem acusação e sem julgamento, conforme a denúncia da União Americana pelos Direitos Civis, ACLU.

Além do Pentágono, acedeu em tudo a Wall Street. Com a bênção de Obama, bancos foram socorridos com US$ 13 trilhões e salvos da bancarrota, à custa da explosão da dívida pública. Nenhum banqueiro foi para a cadeia pelas fraudes com hipotecas e derivativos. Graças à superemissão de dólares, e sem a recuperação decolar, os lucros das corporações voltaram às alturas e as bolsas bombaram, enquanto os trabalhadores amargavam desemprego recorde e milhões eram despejados e tinham suas casas tomadas pelos bancos.

PESADELO

Não é à toa que um dos maiores pesadelos da convenção democrata é com os números do desemprego que serão divulgados no dia seguinte ao seu término. Há nos EUA 23,5 milhões de desempregados e o governo Obama não criou qualquer programa federal de geração maciça de empregos, com obras de infra-estrutura, como fez Roosevelt. Os empregos que vêm sendo criados sequer atendem ao contingente de 100 mil jovens que todos os meses se incorporam ao mercado de trabalho. Dos que conseguiram seus empregos de volta, 58% tiveram de aceitar baixos salários, segundo pesquisa recente.

Na questão da reforma da saúde, Obama capitulou diante das seguradoras de saúde, do complexo hospitalar e da indústria farmacêutica, abandonando a proposta de um plano público de saúde, e obrigando em lei todos os cidadãos do país a adquirirem um plano privado, pano de fundo da revolta que permitiu a gestação do reacionário Tea Party. Posteriormente, aceitou cortes massivos no Medicare e nos programas sociais como parte do “combate ao déficit” e mais está previsto com o “Despenhadeiro Fiscal”. Obama ostenta outro triste recorde, o de ser o presidente que mais imigrantes deportou, mais que W. Bush: 1,2 milhão em três anos.

Para Obama se reeleger, é preciso que boa parte do eleitorado releve suas escolhas, ou considere Romney um mal maior. De acordo com a imprensa dos EUA, a estratégia eleitoral de Obama prevê chegar à vitória com a maioria dos votos das mulheres, dos jovens, dos hispânicos, dos negros e dos gays. A Convenção foi concebida como um grande show, entrando em todos os lares na cobertura das tevês, e onde são abafadas as questões sobre as quais a América tem de se decidir. De olho nos votos dos hispânicos, tiveram grande destaque os prefeitos Antonio Villarraigosa, de Los Angeles, e Julián Castro, de San Antonio. Bill Clinton também fez uma aparição triunfal, onde convenientemente se esqueceu de que foi ele que derrubou a lei de Roosevelt que separava bancos comerciais da especulação com títulos, o que abriu caminho para o desastre de 2008-2009. Houve ainda uma homenagem ao senador Ted Kennedy.

Assim, nessas eleições, a população dos EUA estará diante do que o escritor Gore Vidal chamou de “partido único com duas alas direitas”, entre a cruz e a caldeirinha, com Obama e Romney. Este já tem a salvação para o país: cortar os impostos dos ricos e o déficit, e meter o machado no Medicare, na Previdência Social, no seguro-desemprego e em tudo que é programa social. Ele jura que se devastar tudo como promete, a riqueza vai “escorrer” dos ricaços para os pobres e gerar “12 milhões de empregos”. Se depender do seu vice, Paul Ryan, nem a Previdência se salva.

 

                                                                             


ANTONIO PIMENTA

 


 

 

 

 

 
                                                                                         

                                                                                            
                                                                                                
                                                                                         

                                                                                         






                                                                                             






 



 


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