Mídia fabrica “empate técnico” entre José Serra e Russomanno

Milagre aconteceu em menos de uma semana de uma pesquisa para outra

  Os leitores – aliás, os eleitores – sabem que nas eleições municipais de São Paulo há, entre os concorrentes, um cadáver político, quase sepultado nas últimas eleições presidenciais. Antes que o sr. Serra se sinta ofendido, esclarecemos que essa nossa consideração é puramente política – e não seremos nós que ignoraremos os cadáveres só porque eles são cadáveres.

O sr. Serra, certamente, esperava dessas eleições a sua ressurreição. No máximo, está obtendo uma exumação. Mas está difícil. Até antigos e, supostamente, empedernidos serristas demonstram grande rejeição ao seu nome, depois da promessa não cumprida, na campanha de 2004, de, se eleito, ficar na Prefeitura ou devido à sua administração, continuada por seu pupilo, Gilberto Kassab - o prefeito que, finalmente, fez São Paulo parar.

Como sempre, a eleição em São Paulo tem importância nacional – fenômeno que não precisamos explicar. O fato é que, de 12 candidatos, nada menos que sete são da base aliada do governo da presidente Dilma, inclusive o líder nas pesquisas, Celso Russomanno, do PRB.

Logo, para Serra, não é fácil uma eleição em que seu nível de rejeição se aproxima dos 50% - ou até mais – e com sete candidatos da base aliada mirando-lhe o quengo (politicamente falando, é claro), mais uns três que não são da base, mas também são propensos a acertar o fígado serrista (politicamente, como de costume).

Mas, no Brasil, desde a eleição de Collor, de funestas consequências, a campanha da direita é sempre pela mídia imparcial e pelas pesquisas isentas.  Mais ou menos como aquele suposto amor que, segundo Oscar Wilde, não ousava dizer seu nome, a campanha desse lado sombrio da vida política nunca se apresenta como tal – e tira sua eficiência dos incautos que acreditam nessa imparcialidade e isenção.

Assim, na quinta-feira, o órgão mais serrista do país, a “Folha de S. Paulo”, dona do instituto de pesquisas Datafolha, paramentou a sua nova “pesquisa” com reclames sobre a “desidratação abrupta” (sic) de Russomanno, “inédita em intensidade na história eleitoral do município”, “os pontos perdidos se pulverizam entre os outros nomes”, “o quadro ainda mais indefinido” - e garantindo que “leva vantagem quem mais bate no candidato do PRB. Se na semana passada, Fernando Haddad (PT) foi o grande beneficiado. Agora, quem mais cresce é Gabriel Chalita (PMDB)” (sic).

Não é surpreendente que Serra e os serristas tentem colocar uma cunha entre os candidatos da base do governo – nada os alegra mais do que ver os partidos que apoiam a presidente Dilma ocupados num engalfinha-mento estéril e mesquinho. Mas está claro quem eles querem açular.

Mas, o que aconteceu? O que mudou?

Nada, exceto as pesquisas dos próprios serristas. O que não quer dizer que essas pesquisas enganosas não possam influenciar o eleitorado.

Quinze dias antes, segundo o Datafolha, Russomanno estava com 35% das preferências, Serra tinha 21% e o candidato do PT, Fernando Haddad, tinha 15%, na sondagem terminada no dia 19 de setembro.

Apenas cinco dias depois, o Ibope saiu com resultados semelhantes – Russomanno: 34%; Serra: 19%; e Haddad: 18%. A diferença era em relação a Serra e Haddad. Quanto à Russomanno, a posição era a mesma.

Pois, de repente, em duas rodadas de pesquisa, Russomanno caiu 10 pontos no Datafolha e sete pontos no Ibope.

Assim, na pesquisa do Datafolha divulgada na quinta-feira, Russomanno estava com 25%, Serra com 23% e Haddad com 19%.

Em resumo: em 15 dias, segundo o Datafolha, Serra foi do amargo ostracismo - com perspectiva, no máximo, de uma acachapante derrota no segundo turno -  ao “empate técnico” em primeiro lugar (pois a margem de erro da pesquisa é +2 ou -2).

Tudo isso sem sair de onde estava – os dois pontos percentuais ganhos por Serra nesses 15 dias (um aumento de 10%) são, exatamente, a margem de erro da pesquisa.

Portanto, o negócio é derreter Russomano, roubando ele e os outros candidatos nas pesquisas – e martelando esse roubo, até a náusea, na mídia.

Os serristas consideram, com razão, que a única forma (ou, pelo menos, a mais fácil numa eleição que tem tudo de difícil para eles) de emplacar seu candidato é colocá-lo junto com Haddad no segundo turno. O resto, esperam eles, o ministro Joaquim Barbosa fará.

Assim, Serra seria exumado, e estaria pronto para a próxima eleição, com a perspectiva de passar a rasteira em Aécio, numa situação econômica que eles acham que vai favorecê-los (v., por exemplo, o recente calhamaço do autor do programa econômico de Serra nas eleições presidenciais, Samuel Pessoa, onde ele discute planos eleitorais diante do “baixo crescimento” da economia no governo Dilma).

Quanto à rejeição (percentagem dos que não votariam em hipótese alguma em determinado candidato), há 15 dias Serra era o campeão disparado (44% dos entrevistados) e até aumentou essa rejeição agora (45%) - mas isso é apenas 1 ponto percentual contra um aumento de dois pontos (23% para 25%) na rejeição de Hadadd e de sete pontos (19% para 26%) na rejeição de Russomanno. O que este fez, nesse intervalo de tempo, para decepcionar tanta gente? Apesar de não ser o nosso candidato favorito, devemos convir que ele não fez nada que provocasse tal irrupção de antipatia. O negócio é induzir o eleitor a votar em quem ele não quer votar.

CARLOS LOPES

 


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Mídia fabrica “empate técnico” entre José Serra e Russomanno

Barbosa e seu voto na semana das eleições 

Aepet, FUP, FNP dão início à mobilização pela extinção dos leilões de petróleo no país

Por dizer que PSDB é privatizador, Edna Costa teve o seu programa eleitoral de TV censurado no Recife

No último programa eleitoral na TV, candidatos reforçam propostas e exibem suas trajetórias

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Justiça de São Paulo proíbe OSs de realizar terceirização na saúde

Brasil Atual processará Serra por agressão a repórter

Belém tem debate com todos os candidatos à Prefeitura

Ricardo Callado

CARTAS

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Chávez vai à reeleição com país crescendo acima de 5%

Indonésia: greve geral para o país por salários e direitos

Turquia bombardeia e ameaça invadir a Síria

Iraque: dez anos, milhões de vidas e bilhões de dólares mais tarde

Paraguai: golpista Frauderico submete produção de soja a sementes transgênicas da Monsanto

Ministério Público denuncia Kassab por contratar a Controlar ilegalmente

Dilma rebate Aécio: "saí daqui de BH para lutar contra a ditadura, e não para ir à praia"

Ministro Lewandowski vota pela absolvição de Genoino

 

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Sob o arrocho da Troika desemprego atinge 25 milhões em toda a Europa

Mais de 15 mil famílias sofrem despejo a cada mês na Espanha

Portugal: CGTP convoca geral contra o desemprego e assalto aos salários

Favorito de Wall Street debate com especulador abutre o futuro dos EUA

Pacto Merkozy atenta contra a independência da França

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Os escritos e pronunciamentos econômicos de Getúlio Vargas (9)