Histórias da crise: o ouro alemão sob a seguríssima guarda dos EUA

O artigo de Michel Chossudovsky, publicado há poucos dias em Global Research sob o título "Frenzy in the Gold Market: The Repatriation of Germany’s Post World War II Gold Reserves" (Frenesi no mercado do ouro: a repatriação das reservas alemãs pós-II Guerra) pode ser lido de várias formas.

Uma delas é como uma anedota – embora verdadeira – sobre a bagunça em que se tornou a economia imperialista na atual crise.

Convenhamos que quando um país ocupado – a Alemanha – começa a se preocupar com o que o ocupante fez de suas reservas em ouro, é porque o mundo está quase de cabeça para baixo. Seja como for, por que ninguém consegue ver essas barras de ouro sob guarda dos EUA? Por que os alemães estão preocupados em receberem barras de tungstênio folheado a ouro, no lugar das barras de ouro que depositaram no Federal Reserve?

A outra forma de ler é considerar seriamente essa mesma questão: teriam os EUA malbaratado as reservas em ouro que conservam em seu território, pertencentes a outros países?

Realmente, essa hipótese não está afastada. No meio da atual crise, a guarda do ouro de outros seria (ou é), no mínimo, uma tentação terrível.

Vamos, então, ao texto de Chossudovsky.

C.L.

MICHEL CHOSSUDOVSKY*

A decisão do Bundesbank, da Alemanha, de repatriar parte das suas reservas de ouro, guardadas no New York Federal Reserve Bank, detonou um frenesi no mercado de ouro.

Fontes noticiosas alemãs sugerem que uma grande porção do ouro alemão armazenado nos cofres do Fed de Nova York e do Banque de France será levada de volta para a Alemanha.

Segundo analistas, este movimento poderia potencialmente "disparar uma reação em cadeia, levando outros países a começarem a repatriar o ouro armazenado em Londres, Nova York ou Paris...".

"Se a repatriação de ouro se tornar uma tendência mundial, será óbvio que tanto os EUA como o Reino Unido perderam a sua credibilidade como guardiões do ouro. Para os mercados mundiais de ouro, este movimento assinala uma substituição do ‘ouro financeiro’ pelo ‘ouro físico’, mas o processo está claramente nas suas etapas iniciais.

"A decisão de repatriar o ouro alemão é uma grande vitória para a parte da imprensa alemã que forçou o Bundesbank a admitir que 69% do seu ouro é armazenado fora da Alemanha. Quase com certeza, a imprensa alemã, e pelo menos vários legisladores do país, exigirão uma verificação das barras de ouro retornadas de Nova York, simplesmente para garantir que a Alemanha não recebeu tungstênio folheado a ouro, ao invés de ouro. Parece que os que tomam decisões na Alemanha já não confiam nos seus parceiros americanos" (Voice of Russia, January 15, 2013, grifo nosso).

Se bem que a questão seja debatida ativamente na Alemanha, relatórios financeiros dos EUA têm subestimado o significado desta decisão histórica, aprovada pelo governo alemão em setembro último.

Entretanto, foi lançada uma campanha "Repatriar o nosso ouro" por vários economistas alemães, executivos de negócios e juristas. A iniciativa não se aplica unicamente à Alemanha. Ela conclama países a iniciarem a repatriação de TODOS os haveres em ouro mantidos em bancos centrais estrangeiros.

Se bem que a soberania e custódia nacional sobre ativos em ouro da Alemanha seja parte do debate, vários observadores – incluindo políticos – assumiram a pergunta não formulada: "podemos nós confiar em bancos centrais estrangeiros (nomeadamente dos EUA, Grã-Bretanha e França) que estão mantendo barras de ouro da Alemanha "guardadas em segurança"?

"... Vários políticos alemães exprimiram ... desconforto. Philipp Missfelder, um dos principais legisladores do partido de centro-direita da chanceler Angela Merkel, pediu ao Bundesbank o direito de ver as barras de ouro em Paris e Londres, mas o banco central negou o pedido, mencionando a falta de salas de visitantes naquelas instalações", informou o diário alemão Bild.

"Dado o crescente desconforto político acerca da questão e a pressão de auditores, o banco central decidiu no mês passado [setembro] repatriar umas 50 toneladas de ouro em cada um dos três próximos anos, de Nova York para a sua sede em Frankfurt para ‘exames meticulosos’ quanto a peso e qualidade", revelou a reportagem.

"... Várias passagens do relatório dos auditores foram enegrecidas na cópia entregue a legisladores, citando preocupações do Bundesbank de que elas poderiam comprometer segredos envolvendo a armazenagem do ouro de bancos centrais.

"O relatório diz que o ouro acumulado em Londres caiu ‘abaixo das 500 toneladas’ devido a vendas e repatriações recentes, mas não especificou quanto ouro era mantido nos EUA e na França. A mídia alemã informou amplamente que cerca de 1500 toneladas – quase metade das reservas totais – estão armazenadas em Nova York" (Associated Press , Oct 22, 2012, grifos nossos).

Entretanto, uma plena e completa repatriação de ativos em ouro não é cogitada:

"O Bundesbank planeja transferir 300 toneladas de ouro do Federal Reserve de Nova York e a totalidade do seu ouro armazenado no Banque de France, em Paris, 374 toneladas, para Frankfurt, a partir deste ano.

"Em 2020, ele [o Bundesbank] quer guardar metade, das aproximadamente 3.400 toneladas de ouro, avaliadas em quase 138 bilhões de euros – só os Estados Unidos possuem mais – em Frankfurt, onde armazena um terço das suas reservas. O resto é guardado no Federal Reserve, no Banque de France e no Bank of England" (Reuters , January 16, 2012).

O Tribunal Federal de Contas da Alemanha chamou a uma inspeção oficial das reservas de ouro alemãs armazenadas em bancos centrais estrangeiros, "porque elas nunca foram plenamente checadas".

Estarão as barras de ouro das reservas alemãs, guardadas no Federal Reserve, "separadas" ou farão parte do "grande acervo" fungível de ativos em ouro do banco central dos EUA?

Será que o New York Federal Reserve Bank tem "ativos fungíveis de ouro no grau afirmado"? Poderia razoavelmente enfrentar um processo de repatriação de ativos em ouro, iniciado simultaneamente por vários países?

Por que o ouro alemão é mantido fora da Alemanha?

"Por que o nosso ouro está em Paris, Londres e Nova York" e não em Frankfurt?

A explicação oficial – que beira o absurdo – é que a Alemanha Ocidental, no início da Guerra Fria, decidiu armazenar seus ativos em ouro em Londres, Paris e Nova York para "pô-los fora do alcance do império soviético", o qual, supostamente, tinha a intenção de saquear os tesouros auríferos da Alemanha Ocidental.

Segundo a Reuters:

"Quando a Guerra Fria teve início, a Alemanha guardou as suas reservas de ouro, mantendo-as fora do alcance do império soviético. Porém, as autoridades do governo ficaram inquietas acerca da forma de armazenagem e pediram ao Bundesbank para inspecionar as barras.

"O Bundesbank agora também quer mudar a solução, muito embora tenha dito que não vê necessidade de contar as barras, ou verificar o seu próprio conteúdo de ouro, e considere as garantias escritas dos outros bancos centrais como suficiente.

"Com o fim da Guerra Fria já não era mais necessário manter as reservas ouro da Alemanha ‘tão longe quanto possível da Cortina de Ferro’, contou Carl-Ludwing Thiele, membro da administração do Bundesbank, aos repórteres na quarta-feira passada.

"O Bundesbank ganhou mais espaço em seus cofres após a transição do deutschmark para o euro" (Reuters , January 16, 2013).

Segundo o coro da mídia ocidental, as ameaças do "império do mal" no decorrer da era da Guerra Fria haviam, por assim dizer, levado a "cuidar" e "manter resguardados" os bilhões de dólares em barras de ouro alemãs nos cofres fortes dos bancos centrais da França, Inglaterra e EUA. Isto foi uma iniciativa "responsável" empreendida por esses três países – "amigos da Alemanha Ocidental" – tendo em vista apoiar o Bundesbank, localizado em Frankfurt am Main, contra um ataque iminente do Exército Vermelho.

Mas, agora, catorze anos após o fim oficial da Guerra Fria, o Bundesbank "planeja trazer para casa uma parte das suas reservas em ouro armazenadas nos bancos centrais dos Estados Unidos e da França, inclinando-se à pressão do governo para desfazer uma trama da era da Guerra Fria que garantiu o tesouro nacional".

Qual era o objetivo dos EUA, depois da II Guerra Mundial, ao pressionar países para depositar suas barras de ouro sob a custódia do US Federal Reserve?

Historicamente, a acumulação de barras de ouro nos cofres do US Federal Reserve (por conta de países estrangeiros) serviu iniludivelmente para fortalecer o sistema global do dólar, tanto durante o período do "gold exchange standard" do pós guerra (Bretton Woods, 1946-1971) como posteriormente (de 1971 até o presente).

HISTÓRIA: NA SEQUÊNCIA DA II GUERRA MUNDIAL

Este arranjo para estocar barras de ouro nada teve a ver com a ameaça soviética mencionada nas declarações oficiais.

Ele tem muito a ver com a história da II Guerra Mundial e suas consequências imediatas.

O mais antigo arranjo, no pós guerra, dos bancos centrais foi ditado pelos vitoriosos da II Guerra Mundial, nomeadamente os Estados Unidos, a França e a Grã-Bretanha.

A ocupação militar dos governos desses três países controlou diretamente as reformas monetárias do pós guerra na Alemanha Ocidental, a partir de 1945.

A Alemanha Ocidental fora dividida em três zonas, sob a jurisdição respectiva dos EUA, Grã-Bretanha e França. De 1945 a 1947, o Reichmark continuou a circular com novo papel moeda impresso nos EUA.

Em 1947, as zonas de ocupação dos EUA e Grã-Bretanha fundiram-se numa "bizona" anglo-americana. Em 1948, sob a chamada "Primeira Lei sobre Reforma da Moeda", o governo militar de ocupação estabeleceu o Bank deutscher Länder (Banco dos Estados Alemães) em ligação com o Federal Reserve, dos EUA, e o Banco da Inglaterra. As reformas da moeda foram implementadas em paralelo com o Plano Marshall, lançado em Junho de 1947.

O Bank deutscher Länder (BdL) destinou-se a administrar o sistema monetário dos Länder (o equivalente a estados numa estrutura federal) na Bizona, sob a jurisdição do governo militar estado-unidense-britânico, levando ao estabelecimento do Deutsch Mark em Junho de 1948, o qual substituiu o Reichsmark.

Ludwig Erhard – que se tornou ministro das Finanças do governo da RFA de Conrad Adenauer e a seguir chanceler alemão (1963-1966) – desempenhou um papel central no processo de reforma monetária. Ele começou a sua carreira política como consultor econômico do governo militar dos EUA (USMG, na sigla em inglês). Em 1947, foi nomeado presidente da comissão de reforma da moeda. De janeiro de 1947 a maio de 1949, o governador militar da zona norte-americana (USMG) que supervisionava a aplicação da nova moeda era o general Lucius D. Clay, alcunhado "Der Kaiser".

A iniciativa do Deutsche Mark foi então estendida à zona de ocupação controlada pela França, em Novembro de 1948 ("Trizona"), com a inclusão e participação do Banque de France.

Se bem que a República Federal da Alemanha (RFA) (Bundesrepublik Deutschland) tenha sido criada em maio de 1949, o Bundesbank só veio a existir oito anos depois, em 1957.

As reservas de ouro da Alemanha estavam sob a jurisdição do Bank deutscher Laender (e, posteriormente, do Bundesbank). Mas o BdL foi uma iniciativa da ocupação militar EUA-Reino Unido-França.

A questão importante é o seguinte:

Será que os procedimentos e acordos determinados pelos governos de ocupação militar em 1947-48 contemplavam uma estrutura pela qual parte das barras de ouro da Alemanha Ocidental devia ser mantida nos bancos centrais dos vitoriosos, nomeadamente o Banco da Inglaterra, o Federal Reserve, dos EUA, e o Banco de França?

RESERVAS EM OURO DO TERCEIRO REICH

A questão das reservas em ouro do Terceiro Reich é um assunto em si próprio, para além do âmbito deste artigo.

Duas observações: a partir de 1945, grandes quantidades de ouro do Terceiro Reich foram transferidas para a custódia dos governos militares. Parte deste ouro foi utilizada para financiar reparações de guerra.

Em setembro de 1945, os Estados Unidos, Grã-Bretanha e França estabeleceram a Comissão Tripartite para a Restituição de Ouro Monetário (TGC, na sigla em inglês). A comissão tem as suas raízes na Parte III do Acordo de Paris sobre Reparação, assinado em 14 de Janeiro de 1946, a respeito das reparações de guerra alemãs. Sob o Acordo de Paris de 1946, os três Aliados foram encarregados de recuperar o ouro monetário saqueado pela Alemanha nazi dos bancos na Europa ocupada e de colocá-lo num "gold pool".

Reivindicações legais ao "gold pool", e a subsequente redistribuição do ouro aos países reclamantes, eram para ser adjudicadas e executadas pelos três Aliados (para mais pormenores, ver US State Department, Tripartie Gold Commission , February 24, 1997).

Um Foreign Exchange Depositary (FED) foi estabelecido no Reichbank em Frankfurt. Considerado como o Fort Knox da Alemanha, um processo de coleta foi estabelecido pelo FED por conta do Conselho de Ocupação Aliado.

O ouro era coletado pelo FED, tanto em forma monetária como não monetária. Em outubro de 1947 – coincidindo com o estabelecimento do Bank deutscher Laender – the FED havia acumulado 260 milhões de dólares em ouro monetário (ao preço do ouro de 1947, isto representava uma quantidade de barras monumental).

Uma grande parte desse ouro foi restituída a diferentes países que o reclamavam, organizações e indivíduos. Em 1950, os ativos remanescentes do FED – os quais eram mínimos, segundo o Departamento de Estado dos EUA – foram transferidos para o Bank deutscher Laender. (William Z. Slany, "US Efforts to Restore Gold and Other Assets Stolen or Hidden by Germany During World War II", US State Department, Washington, 1997, p. 150-59).

Nota:

As 3.400 toneladas de reservas ouro da Alemanha não pertencem ao ouro da era pré-1945. Além disso, se bem que os procedimentos da reforma monetária da Alemanha Ocidental sob a ocupação militar aliada (1947-48) tenham sido instrumentais para estabelecer o fundamentos do banco central alemão na era do pós guerra, as quantidades iniciais de barras de ouro depositadas no princípio do Bank Deutscher Laender foram mínimas e de pouco significado.

Entende-se que fora do domínio do banco central e da reforma monetária, as forças aliadas da II Guerra Mundial, incluindo os EUA, Grã-Bretanha, França e URSS, apropriaram-se de parte do ouro do Terceiro Reich. Isto é uma questão totalmente separada e complexa, a qual está para além do âmbito deste artigo.

* Professor emérito de economia da Universidade de Ottawa, Canadá; fundador e diretor do Centre for Research on Globalization (CRG), Montreal, Canadá; editor do site The Globalresearch. Autor de "The Globalization of Poverty and The New World Order" (2003), de "America’s War on Terrorism" (2005) e de "Towards a World War III Scenario: The Dangers of Nuclear War" (2011).


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