35 mil pessoas homenageiam as vítimas de tragédia em Santa Maria

Incêndio na boate Kiss deixou 231 mortos e mais de 100 feridos permanecem internados. População exige apuração dos responsáveis pelo ocorrido

Mais de 35 mil pessoas foram às ruas do centro de Santa Maria (RS) na noite de segunda-feira (28) homenagear as vítimas da tragédia ocorrida na madrugada de domingo na boate Kiss (27).

Os manifestantes que representaram a solidariedade de todo povo brasileiro com as famílias dos 231 mortos durante o incêndio, foram vestidos de branco e segurando cartazes, balões e faixas de protesto. A Passeata Pela Paz saiu da Praça Saldanha Marinho, no centro da cidade, pouco depois das 22h. Os manifestantes exigiam a apuração e a devida responsabilização dos culpados por um dos incêndios de maior gravidade já ocorridos no Brasil.

Depois toda a multidão percorreu em silêncio, por vezes ao som de violinos e também com aplausos em homenagem às vítimas e a todos que ajudaram a socorrê-los, o mesmo trajeto que os corpos fizeram após a tragédia, passando pela boate e seguindo até o Centro Desportivo Municipal (CDM), onde ocorreu o reconhecimento das vítimas, muitos velórios e que acabou se tornando um centro de apoio aos familiares.

Balões brancos ainda foram soltos no ar e outros foram estourados, ato acompanhado de uma emocionada salva de palmas.

O INCÊNDIO


O incêndio começou por volta das 2h30 de domingo (27) na boate Kiss, localizada no centro de Santa Maria (RS). Ao todo, 231 pessoas morreram e mais de 100 permanecem internadas em hospitais da cidade, de municípios do entorno e da capital gaúcha, Porto Alegre. Ao menos 75 delas em estado grave com risco de morte.

O incêndio começou na espuma de isolamento acústico, no teto da boate, após o vocalista da banda “Gurizada Fandangueira” manipular um sinalizador. Faíscas atingiram o teto e iniciaram as chamas que se espalharam rapidamente. O guitarrista da banda e um segurança tentaram apagar as chamas, porém o extintor de incêndio não funcionou.

A grande maioria das pessoas que estavam na festa, promovida por alunos da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), morreu asfixiada. Muitos foram encontrados amontoados nos banheiros, pois na hora da confusão correram e confusos foram para os banheiros achando ser uma saída da boate. Segundo testemunho dos sobreviventes era difícil ver as sinalizações de saída por conta da fumaça negra, densa e tóxica. Ainda segundo os sobreviventes os seguranças da boate Kiss antes de perceberem que era um incêndio, e não uma briga, teriam impedido os jovens de saírem sem pagar.

No local, havia apenas uma pequena porta, de apenas dois metros de largura, que funcionava como a única passagem de entrada e saída da boate.

Bombeiros e sobreviventes tiveram que quebrar a fachada da casa noturna a marretadas para tentar salvar as pessoas que estavam se dirigiram ao banheiro por não conseguirem se localizar dentro do local.
A boate funcionava sem as devidas autorizações dos órgãos competentes.

LICENÇA

O secretário nacional de Defesa Civil, Humberto Viana, informou que o plano de combate a incêndio da casa está vencido desde agosto de 2012. Já a Polícia Civil afirmou que a casa estava com o alvará de funcionamento vencido também desde agosto do ano passado, mas estava em processo de renovação.

Em depoimento à polícia, um dos donos da boate disse que os bombeiros fizeram uma série de exigências e recomendações para a renovação do Plano de Prevenção e Controle de Incêndios.

O prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB), a documentação com a prefeitura estava em ordem e a “boate estava rigorosamente regular”.

Para o engenheiro Carlos Rosa, do Comitê Brasileiro de Segurança Contra Incêndio da ABNT, existiram ao menos quatro falhas. “Havia mais gente que a capacidade da boate, menos portas de saída, saídas menores do que a capacidade de pessoas e o extintor de incêndio sem funcionamento”.

Em não havendo alvará de licença para funcionamento, as normas técnicas de prevenção deveriam ao menos estar em dia, afirma. “(Deveriam ser vistoriadas) a existência de saídas de emergência, o tamanho delas, a distância até a porta de saída, a necessidade de luz de emergência, sinalização das saídas de emergência, capacidade da casa noturna, equipamentos básicos de incêndio, entre outras normas técnicas”, cita o engenheiro.

APURAÇÃO

As apurações preliminares indicam que foram usados três sinalizadores durante a festa: dois no chão e um no alto, virado em direção ao teto.
A Justiça decretou a prisão preventiva de dois músicos da banda Gurizada Fandangueira, o vocalista Marcelo dos Santos e o produtor Luciano Leão, bem como dos empresários Mauro Hoffman e Elissandro Spohr, apontados como donos da casa noturna.

As prisões foram motivadas por indícios de que eles estariam prejudicando as investigações com o desaparecimento ou com a manipulação de provas. Até o fechamento desta edição, ainda não haviam sido encontradas as fitas gravadas na noite do incêndio e também os equipamentos das gravações feitas pelas câmeras internas e na fachada da Boate Kiss. A informação é da promotora criminal Waleska Flores Agostini, representante do Ministério Público na investigação do caso, que disse que o aparente sumiço de imagens do circuito interno de câmeras da boate caracterizaria obstrução. Os donos da boate afirmaram que as câmeras não estavam funcionando a cerca de dois meses e foram enviadas para o concerto.

Os bens dos donos da boate Kiss também foram bloqueados, a partir da autorização do juiz plantonista do Fórum de Santa Maria (RS), Afif Simões Neto, que deferiu o pedido da Defensoria Pública do Rio Grande do Sul, que também abrange eventuais bens registrados em nome da boate como pessoa jurídica.

MAÍRA CAMPOS


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