Depoimento gravado em vídeo e divulgado pelo Instituto Lula

Lula: “O mundo precisa de homens como Chávez” 

"A morte do companheiro Chávez é uma perda irreparável para a política da América do Sul e para a América Latina, e eu diria até para o mundo. O Chávez era um homem que era 80% coração e 20% razão. Como eu acho que devem ser todos os grandes homens do mundo. Chávez pensava muito, mas muito mesmo, no seu povo, sobretudo no povo mais pobre.

Eu tive o prazer de conviver com Chávez muito tempo. Eu o conheci ainda no tempo do Fórum São Paulo. Depois eu tive a oportunidade de voltar a vê-lo já presidente da República e eu eleito, mas não empossado. Era para atender um pedido de gasolina da Venezuela por ocasião da greve dos trabalhadores da PDVSA. E a partir da minha posse nós estabelecemos uma relação muito forte, porque tínhamos muitas afinidades. Se tínhamos divergências ideológicas, tínhamos muitas afinidades políticas, tínhamos boa afinidade ideológica e uma afinidade sobre o papel da relação estratégica Brasil-Venezuela. Tínhamos afinidade sobre a relação estratégica dos países da América do Sul e da América Latina.

E uma compreensão única sobre o papel dos países pobres, sobretudo dos países do sul no enfrentamento político com os países do norte, sobretudo na questão comercial, na questão política. E isso fez com que a gente passasse a ter uma relação, eu diria até mais do que de dois presidentes, de dois companheiros.

Eu, para evitar que houvesse qualquer problema na relação Brasil-Venezuela, instituí com Chávez que fizéssemos três ou quatro reuniões por ano entre Brasil e Venezuela. Uma reunião no Brasil, uma na Venezuela, para que pudéssemos aparar todas as arestas, para que pudéssemos convencer os empresários brasileiros a fazer investimentos na Venezuela. Para tentar construir uma parceria que equilibrasse o comércio Brasil-Venezuela. Daí porque surgiu a idéia da refinaria Abreu e Lima.

Muita gente diz que o Chávez era uma pessoa polêmica. E era. E era bom que ele fosse assim, porque ele permitia que as reuniões que nós participávamos na Unasul fossem sempre muito vivas, sempre muito debatidas, uma coisa muito forte. Ele não permitia que as pessoas cochilassem numa reunião, tal era a participação dele nas reuniões, com temas polêmicos ou não, não importa, o que é importante é que ele estava ali, presente, vivo, discutindo os interesses da Venezuela, da América do Sul, da América Latina e, sobretudo, discutindo os interesses do povo mais pobre.

Não é todo século que a gente consegue produzir um homem da qualidade do Chávez. Não é todo o dia que a gente consegue ver um país eleger uma pessoa que tem compromisso de sangue com o seu povo. O Chávez sabia, e sabia com muita força, que a razão para ele estar no governo era fazer com que o povo pobre da Venezuela se sentisse orgulhoso, que passasse a ter direitos, que passasse a ter emprego, que passasse a ter salário, a ter saúde, a ter possibilidade de estudar.

Obviamente ele enfrentou uma oposição muito ferrenha, como todos nós enfrentamos na América do Sul e na América Latina. Todos os governos progressistas enfrentam muitas adversidades. A passagem do companheiro Chávez pelo governo da Venezuela valeu a pena. Não apenas pelas conquistas, valeu a pena pelo simbolismo com que ele fez a defesa daquele país. Recuperar a auto-estima do povo; recuperar a crença e fazer com que o povo passasse a acreditar que a Venezuela era muito maior do que até então a elite imaginava que fosse a Venezuela.

O povo da Venezuela nesse momento e todos nós aqui no Brasil e no mundo inteiro, aqueles que gostavam e que não gostavam de Chávez, precisamos ter em mente o seguinte: os homens morrem, a carne se vai, mas uma coisa fica: as idéias. E eu penso que as idéias do Chávez, da mesma forma que as idéias de [Simon] Bolívar perduraram tanto tempo, vão perdurar por muitos séculos, porque a América do Sul vive um momento excepcional e o Chávez tem muito a ver com isso. A criação da Unasul. A criação da Celac, a criação do Conselho de Defesa da Unasul, a criação do Banco do Sul, e tantas outras coisas, tantas idéias que a gente colocava no papel, que debatia, e que vão se concretizando aos poucos.

E eu espero que o povo da Venezuela nesse momento tenha a compreensão de que é preciso muita paz, muita maturidade, muita tranqüilidade, muita unidade, porque a Venezuela não pode retroceder. O povo da Venezuela aprendeu a confiar no governo, o povo da Venezuela aprendeu a ter orgulho do seu país e isso é um valor inestimável que não pode ser perdido. Eu acho que as divergências políticas vão continuar existindo, mas elas devem ser menores do que a necessidade da relação dos partidos políticos, da relação das forças políticas para construir um clima de paz e de muita tranqüilidade, porque a Venezuela precisa continuar crescendo, gerando emprego, gerando riqueza e melhorando a vida do seu povo.

Que Deus cuide do Chávez como ele merece. Eu tive o prazer de conviver com ele oito anos e tenho orgulho de ter sido parceiro dele na construção de tantas coisas produtivas. E também a tristeza de não termos feito mais. Mas, de qualquer forma, valeu a pena. Eu acho, companheiro Chávez, que se você não existisse, você deveria voltar a nascer porque eu acho que o mundo precisa de gente como você. Que Deus o tenha".


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