Nas ruas de Caracas, um brado só: “Chávez vive, a luta segue!”

 Sem esconder a comoção e as lágrimas, o povo nas ruas reafirmou sua determinação em manter e aprofundar a revolução que Chávez iniciou, e garantir a unidade e a soberania, como ele conclamou

Uma gigantesca e emocionada multidão, marcada pela corvermelha e pelas bandeiras venezuelanas, percorreu na quarta-feira (6) as principais ruas de Caracas para acompanhar o féretro do presidente Hugo Chavez até a Academia Militar, onde está sendo velado. “Chávez vive, a luta segue”, “Yo soy Chávez” e “Juntos Simon/Chávez ao Panteão”, bradou o povo venezuelano em homenagem ao líder da revolução bolivariana e herdeiro do patriarca da independência, Bolívar.

Coubera ao presidente em exercício Nicolás Maduro, indicado por Chávez seu continuador, anunciar na véspera a morte do líder venezuelano, após dura luta por sua vida. Maduro esteve à frente do cortejo, acompanhado por autoridades venezuelanas e pelo presidente Evo Morales. O percurso, de nove quilômetros, demorou sete horas. Carreatas se formavam espontaneamente e saudavam Chávez com buzinaços. Mais gente chegava a cada momento.

ÚLTIMA BATALHA

Sem esconder a comoção e as lágrimas, o povo nas ruas reafirmava sua determinação em manter e aprofundar a revolução que Chávez iniciou, e garantir a unidade e a soberania, como ele conclamou. Os presidentes Cristina Kirchner e Jose Mujica já haviam chegado a Caracas. A multidão cantou ainda “Pátria, pátria, pátria querida”, que Chávez entoou em seu último discurso à nação, no dia 8 de dezembro, antes de partir para Havana para a derradeira batalha contra o câncer.

Como manda a constituição, serão convocadas eleições para presidente dentro de 30 dias. A Venezuela é um país profundamente transformado pela revolução que Chávez comandou, e sua ação teve uma enorme repercussão no mundo inteiro e em especial na América Latina. Assim como Cuba a partir de Fidel, o país recuperou sua auto-estima e respeito no mundo inteiro.

Quando Chávez liderou em 1992 o levante cívico-militar contra o apodrecido regime de Carlos Andrés Pérez, que matara milhares na repressão ao Caracazzo, o mundo estava vivendo o momento mais negro da ofensiva neoliberal, após a queda do socialismo na Europa e ascensão do neoliberalismo selvagem. Falavam até no “fim da história”. O levante de Chávez foi a primeira cornetada contra a nova ordem mundial, o primeiro grande ato de resistência. Foi saudado aqui no HP com manchete de capa.

Tornou-se o líder que o povo buscava ao anunciar, por rádio e TV, que “Por hora”, não havia vitória, e antecipando a virada à frente. No ano seguinte, o carniceiro Pérez acabaria sob impeachment, por corrupção. Dois anos depois Chávez foi anistiado e constituiu o MRB-200 (Movimento Revolucionário Bolivariano-200, em referência aos duzentos anos da morte de Bolívar). Abalada mortalmente pelo levante, a fachada de democracia que subsistia desde 1958, em que dois partidos se alternavam no poder e mantinham o povo alijado da receita do petróleo e na miséria, ruiu finalmente; Chávez venceu as eleições de 1998. Os dois partidos pratica-mente faliram.

Com Chávez, a Venezuela conheceu um gigantesco alargamento da democracia, com a inclusão do povo nos assuntos de Estado, e massiva participação nas decisões. Foi convocada uma Assembléia Constituinte e elaborada nova constituição. A reação cansou de chamar Chávez de “ditador”, mas desde 1998, ele ganhou todas as eleições que disputou (com exceção de um referendo), em eleições que seriam reconhecidas por Jimmy Carter como “o melhor pleito do mundo”. Ganhou até mesmo um plebiscito sobre a revogação de seu mandato, que só existe na constituição que ele aprovou.

Insuflada pelo governo de W. Bush, a reação interna fez de tudo para derrubar Chávez, inclusive um golpe de estado em 2002, prontamente reconhecido por Washington, e no qual o presidente da Fedecá-maras, Pedro Carmona, se auto intitulou presidente, fechou o parlamento e declarou nula a constituição, para ser varrido do palácio, pelo povo apoiado por tropas legalistas, em dois dias. Chávez, que havia sido seqüestrado, voltou nos braços do povo.

Depois do golpe armado, a tentativa de derrubar o governo através da asfixia econômica, paralisando a estatal de petróleo PDVSA – também derrotada. Essa batalha definiu que a PDVSA, ao invés de continuar sendo uma caixa escura, que garantia ganhos a uma minoria e petróleo barato para os EUA, passasse a ser uma empresa encabeçando o processo de conquista da soberania econômica pelo país e de colocação da renda do petróleo à disposição da maioria da população e da industrialização. Os críticos também costumam dizer que Chávez se aproveitou do “boom do preço do petróleo”, tentando ignorar que foi seu governo que negociou com a Arábia Saudita, para tirar o petróleo do miserável patamar de oito dólares o barril em que vinha sendo mantido desde a primeira guerra contra o Iraque.

A colocação da renda do petróleo em benefício do povo permitiu rápidos avanços nos indicadores sociais. Foram criados os programas sociais “missões”, levou-se a saúde pública e a educação às favelas e ao interior e a ONU declarou a Venezuela território livre de analfabetismo. Um em cada dois venezuelanos era pobre quando Chávez assumiu, agora é um em cada quatro. A pobreza extrema, que era um em cada quatro, se reduziu a um em cada sete. A expectativa média de vida subiu de 74,5 anos para 79,5 anos.

JORNADA

Quando Chávez iniciou sua marcha, a América Latina era um continente submetido ao neoliberalismo; sua vitória antecipou a entrada em cena de governos voltados para o povo, como o de Kirchner, o de Lula, de Evo Morales, o de Mujica e outros. Ele trabalhou incessantemente pela integração dos países latino-americanos, e foi um dos principais esteios da derrota da proposta da Alca.

Chávez colocou a riqueza do petróleo venezuelano também a serviço dos povos irmãos, através da concessão de condições especiais e descontos. Impulsionou a criação da Unasul e aproximou a Venezuela do Mercosul e particularmente do Brasil. Nesse processo, também buscou transformar a economia venezuelana, através da nacionalização de setores estratégicos e do estímulo à agricultura. Fez com que as reservas de petróleo do país ultrapassassem as da Arábia Saudita, até então a número 1.

E, aonde quer que o imperialismo agredisse um povo irmão, jamais a voz do grande Chávez se calou ou titubeou, granjeando a simpatia dos povos do mundo inteiro e o ódio da reação. Um impressionante legado, à disposição do povo venezuelano e da sua revolução.


 

ANTONIO PIMENTA


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