De janeiro a abril, rombo externo atinge 33,18 bilhões de dólares 

Remessas para o exterior cresceram US$ 6,46 bilhões e o saldo comercial desabou US$ 9,47 bilhões, em relação ao mesmo período de 2012

O resultado de abril das contas externas foi publicado na quarta-feira pelo Banco Central (BC). As reações, de certas autoridades econômicas e da mídia, pareciam vir de outro planeta.

Em quatro meses (janeiro a abril) o déficit na conta de transações correntes (ou “conta corrente” = saldo comercial menos remessas para o exterior) chegou a US$ 33,18 bilhões. Nos quatro primeiros meses de 2012, o déficit foi US$ 17,49 bilhões. Um aumento, portanto, de 89,68%.

A previsão ora predominante, de um déficit para este ano de US$ -72 bilhões, apesar de quase monstruosa, até parece moderada frente a US$ -33,18 bilhões em quatro meses (4,28% do PIB no mesmo período). Se tivéssemos o hábito de Mantega e Tombini de imitar os norte-americanos e suas “anualizações” de resultados econômicos, chegaríamos a US$ 99,54 bilhões até dezembro. Mas, neste caso, eles esqueceram as “anualizações”...

Este resultado, o pior, em magnitude monetária, desde 1947, é consequência de:

a) um aumento de US$ 6,46 bilhões nas remessas para o exterior, sobretudo remessas de lucros, declaradas ou disfarçadas (de janeiro a abril do ano passado, as remessas foram US$ 21,67 bilhões; agora, foram US$ 28,13 bilhões);

b) uma queda de US$ 9,47 bilhões no saldo comercial (que passou de US$ +3,33 bilhões nos quatro primeiros meses de 2012 para US$ -6,15 bilhões no presente ano, devido, sobretudo, ao aumento das importações).

Para que o leitor tenha uma ideia mais precisa do último ponto, acrescentamos que as importações aumentaram US$ 6,29 bilhões (de US$ 71,33 bilhões para US$ 77,62 bilhões), enquanto as exportações decresceram US$ 3,18 bilhões (de US$ 74,65 bilhões para US$ 71,47 bilhões).

Portanto, em valor, o aumento das importações foi o dobro da diminuição das exportações.

O funcionário do BC que anunciou o resultado, disse que ele era uma prova da vitalidade e do dinamismo da economia brasileira (!); um jornal “econômico” saiu com um editorial “econômico”, garantindo que a situação agora é diferente das outras vezes em que houve estouro das contas externas (como se existisse alguma situação igual a outra); outros cretinos disseram que a culpa é dos brasileiros, que viajam demais para outros países (ou, supõe-se, ficam por aqui bebendo muitos vinhos importados).

Mas, segundo o presidente do BC, Alexandre Tombini, em seu depoimento no Congresso, o rombo nas transações correntes não é um problema, mas uma oportunidade de usarmos a “poupança externa”.

Há 28 anos, logo depois de derrubada a ditadura, o economista Antonio Barros de Castro enfatizou que “poupança externa” e déficit nas transações correntes (remessas para fora maiores que o saldo comercial) eram “por definição” a mesma coisa. Em nossas palavras: recorrer sistematicamente ao dinheiro externo para tapar o rombo nas nossas transações com o exterior, equivale a quebrar o país. Principalmente quando temos US$ 378.665.008.237,40 em reservas e só o dinheiro externo aplicado em papéis dentro do país (“investimento estrangeiro em carteira”) ascende a US$ 641.194.154.578,34, quase o dobro (cf. BC, Relatório sobre o setor externo, Quadro XLVI e Quadro LX-A).

Tombini sabe perfeitamente qual é a política dos países centrais (por exemplo, disse ele no Congresso: “O Banco do Japão planeja injetar algo como US$ 700 bilhões por ano na economia”) e não faz nenhum reparo. Eis como ele descreve a situação nos EUA, UE e Japão: “o espaço para utilização de política monetária convencional continua sendo limitado, e os bancos centrais mantiveram, ou mesmo ampliaram, suas ações não convencionais”.

“Não convencional” é derramar ondas de dinheiro para espoliar os demais países. Quanto ao rombo externo daqui, basta abrir o país, sem nenhuma barreira, para essa pororoca monetária dos países centrais: “Os mercados financeiros internacionais registram níveis extraordinariamente elevados de liquidez. Por conseguinte o acesso de empresas brasileiras à poupança externa tem sido relativamente facilitado e a custos historicamente baixos. O Brasil tem se beneficiado dessas condições excepcionais, tendo sido, nos últimos anos, um dos principais receptores de investimento estrangeiro direto no mundo”.

O problema é que o “investimento direto” não existe para financiar as empresas brasileiras, mas para tomá-las dos brasileiros. Uma diferença que não é sutil. Cobrir o déficit com esse dinheiro significa liquidar partes do país, ou seja, vender, desnacionalizar empresas - numa situação em que as multinacionais, de acordo com a Posição Internacional de Investimento (PII) divulgada pelo BC no dia 22, já têm US$ 750,873 bilhões em propriedade dentro do Brasil (“investimento direto estrangeiro”). Por isso as remessas para o exterior, somente nos quatro primeiros meses do ano, elevaram-se a US$ 28,134 bilhões e as importações a um total de US$ 77,619 bilhões. Essa política, portanto, significa aumentar o rombo externo para cobri-lo - até quebrar o país.

Além disso, Tombini sabe que desde outubro o "investimento direto" deixou de cobrir o déficit nas contas externas: o governo recorreu, de novembro para cá, a US$ 18,918 bilhões de dinheiro estrangeiro meramente especulativo para tapar esse rombo. O que deixa as contas externas na corda bamba. Trata-se de uma situação, mais dia menos dia, insustentável.

Como dizia um outro economista, há não muito tempo, trata-se de uma política que leva à “dependência crescente (via déficit externo) dos humores dos investidores estrangeiros. Ante um desequilíbrio comercial cada vez maior, (…) abrir mercados, atrair capitais, oferecer papéis a juros altíssimos, vender empresas estatais e ativos produtivos privados a preços vis. Enfim, dançar conforme a música dos grandes interesses internacionalizantes. A desnacionalização foi rápida, crescente e profunda na indústria e depois em setores de serviços e de infraestrutura. (…) o estoque de investimento direto estrangeiro, em larga medida em setores que não podem exportar ("non tradeables"), mas que gerarão um substancial fluxo futuro de remessas de lucros, dividendos e outras rendas para o exterior, pressionando o balanço de pagamentos do país - hoje estruturalmente debilitado e ponto nodal de fragilização do Estado brasileiro. Mas não é só. O custo de capital brutalmente desfavorável (...) incentivou a alienação de grandes empresas nacionais; esvaziou núcleos próprios, importantes, de desenvolvimento tecnológico; suprimiu dos mercados marcas brasileiras (muitas delas centenárias); aniquilou empresas e projetos inovadores; e subordinou ou transferiu centros relevantes de decisão privada para o exterior. Setores fundamentais para a revolução tecnológica, como o de telecomunicações, foram irresponsavelmente entregues a empresas estrangeiras (neste caso, ademais, sob um modelo empresarial pulverizado e ineficiente)” (Luciano Coutinho, “Crônica de um grande desmonte”, FSP, 30/01/2000).

Como escrevia bem o sr. Luciano Coutinho há 13 anos!

CARLOS LOPES


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