Com PIB baixo, Copom promove escalada de aumentos dos juros

Objetivo é dobrar o juro real até o final do ano

A presidente Dilma, na entrevista concedida no último dia 25, disse que “eu não falo sobre juros”.

A reunião do Copom - com o presidente do BC anunciando, há semanas, que os juros básicos vão aumentar - será no dia 29. No mesmo dia, o IBGE divulgará o PIB do primeiro trimestre do ano.

Longe de nós a ideia de dizer à presidente que deve falar sobre isso ou sobre aquilo - ou o que deve fazer; mas a questão é que a conquista de seu governo, a redução dos juros - e, além disso, o país - está sob ameaça. Se um assunto como a escalada de juros, projetada pelo BC sob pressão dos bancos e da mídia, não merece que os brasileiros ouçam a palavra da presidente que nós elegemos, quando ouviremos a sua palavra sobre um assunto realmente importante?

Sobretudo quando se fala tanto na “competitividade” da economia – e, especialmente, da indústria – brasileira. O aumento de juros é a forma mais direta, mais grosseira e mais violenta de acabar com a “competitividade” de qualquer economia ou indústria nacional. Diante de aumentos de juros (e o presidente do BC falou em “um ciclo” de aumentos de juros) a retórica da competitividade é vazia, mais oca do que os homens do poema de T. S. Eliot.

Do ponto de vista do setor público, não foi pouco o que foi transferido ao setor financeiro nos últimos dois anos e três meses. Em 2011, o setor público transferiu R$ 236,67 bilhões (5,72% do PIB) em juros. Em 2012, os juros drenaram R$ 213,86 bilhões (4,85% do PIB). Nos três primeiros meses de 2013, a quantia perdida em juros já está em 5,51% do PIB acumulado no ano – R$ 62,26 bilhões (cf. BC, “Relatório de Política Fiscal”, janeiro/2012, janeiro/2013 e abril/2013).

Somente o desvio das receitas retirou, nesse mesmo período, R$ 291,48 bilhões das verbas para educação, saúde e demais despesas não-financeiras. Mencionaremos apenas de passagem que, como esse desvio, apesar de monstruoso, foi incapaz de cobrir toda a drenagem via juros, uma parte transformou-se em aumento da dívida pública. A alquimia da “dívida líquida/PIB”, relação que sempre parece cair, amancebou-se com um aumento da dívida total: os títulos federais (dívida mobiliária) aumentaram 22,37% entre dezembro de 2010 e dezembro de 2012 (de R$ 2.307.142.997.108,08 para R$ 2.823.336.278.341,86 – se o leitor tiver alguma, aliás muito natural, dificuldade em ler esses números, eis uma versão simplificada: de R$ 2,3 trilhões para R$ 2,8 trilhões).

Enquanto isso, o país suporta níveis de investimento cadentes e, especialmente, níveis de investimento público muito baixos: todo o investimento orçamentário federal efetivo (ou seja, realmente liberado) em 2011 foi R$ 17 bilhões (mais precisamente: R$ 17.071.402.000) para uma dotação orçamentária de R$ 67,5 bilhões (R$ 67.558.037.000) – ou seja, liberou-se 25% da já relativamente baixa dotação aprovada pelo Congresso.

Em 2012, o investimento orçamentário federal subiu para R$ 22 bilhões (R$ 22.083.690.000), mas a dotação orçamentária era R$ 114,5 bilhões (R$ 114.518.305.000) – ou seja, percentualmente, liberou-se menos ainda que no ano anterior: 19% da dotação orçamentária. Todos esses dados estão no Balanço Orçamentário publicado pelo Tesouro Nacional no Relatório Resumido da Execução Orçamentária.

Quanto às estatais, a rigor o que conta são as empresas do grupo Petrobrás. O outro grupo importante de estatais – o sistema Eletrobrás – tem um orçamento de investimento muito baixo para a sua importância (cerca de R$ 10 bilhões este ano).

Assim, não há crescimento que aguente (ou que se levante): aumentos de juros, investimento público ridículo, política industrial que se resume a aumentar as margens de lucro dos monopólios (sobretudo os multinacionais) via “desonerações”, ou seja, isenções parciais ou totais de impostos, e tendo como único projeto para o futuro a entrega da infraestrutura e da logística – incluindo o petróleo do pré-sal – a empresas estrangeiras, política que fracassou já na República Velha, com aquelas figuras lastimáveis, estilo Campos Sales e Joaquim Murtinho. Como crescer desse jeito?

Voltemos aos juros. O setor especulativo, parasitário, hoje também é principalmente estrangeiro (daí os US$ 641 bilhões, que, segundo o BC, é o dinheiro estrangeiro aplicado em papéis dentro do país – mas nessa quantia está contabilizado apenas o dinheiro de fora que atravessou as nossas fronteiras; existe ainda o que as filiais de bancos estrangeiros e multinacionais aplicaram aqui no país). Fora esses, existem, também, alguns especuladores, em geral bancos, daqui mesmo.

É fácil perceber que eles tudo fariam para aumentar a taxa básica de juros (Selic), que é o piso dos juros praticados no país, porque essa, como na história do escorpião, é a natureza deles.

Não que estejam recebendo pouco: os 1,6% reais (ou seja, descontada a inflação projetada para o ano) são superiores ao que receberiam em quase todos os países do mundo (só existem quatro países nos quais a taxa real básica é maior que a nossa; em todos os outros a taxa real básica é inferior).

Mas, eles sabem que o BC não resiste a uma pressão (ou não resiste até sem pressão). Portanto, a única forma de contrabalançar esse jogo é através do povo, da sociedade – o que inclui, antes de tudo, o governo que o povo, que a sociedade, elegeu.

Tanto isso é verdade que a redução acontecida a partir do segundo semestre de 2011, apesar de lenta em relação às necessidades do país, somente foi possível pela ação da presidente Dilma. Com justiça, ela foi a principal responsável pela redução dos juros básicos. Se dependesse do BC, estaríamos vendo os juros através do Hubble, telescópio na órbita terrestre que detecta coisas incríveis no espaço sideral.

O plano dos especuladores é claro: dobrar o juro real até o fim do ano. Esse é o significado dos frequentes artigos que apontam para uma taxa nominal de “9% ou 8,75%” até dezembro.

No Boletim Focus de 24/05 a mediana das previsões dos “economistas de banco” para os juros básicos estava em 8,25% - o que quer dizer que 50% desses porta-vozes da especulação querem (ou “estão prevendo”) taxas acima disso.

Um juro nominal de 9% com uma inflação anual de 5,81% (mediana do Focus para o IPCA) significa 3% de juro real – o dobro, na prática, dos 1,6% atuais.

Nada disso, evidentemente, tem a ver com a inflação, menos ainda, com combate à inflação. Não é somente o fato de que não existe surto inflacionário algum. O objetivo do aumento de juros – repetimos – é dobrar o juro real até o final do ano. Não é combater a inflação.

O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, está certo ao dizer (cf. matéria nesta página) que aumentos de juros são aumentos de custos – como tais, eles diminuem a competitividade das empresas. Nós acrescentaríamos: diminui barbaramente a competitividade das empresas nacionais, não monopolistas, em relação às empresas monopolistas, que, no Brasil, são sobretudo as empresas multinacionais, os monopólios externos.

Miguel de Unamuno, depois que se desencantou do fascismo espanhol, disse algo sobre o significado de calar nas horas em que é preciso falar. Mas, na situação atual, não se trata apenas de um dilema moral, o que já seria muito: trata-se de que um dos maiores e mais ricos países do mundo encontra-se paralisado e, exceto se cada um aceitar a responsabilidade que lhe cabe, ameaçado por vorazes chacais financeiros.

CARLOS LOPES


Capa
Página 2
Página 3

ANP anuncia entrega da maior área do pré-sal para as múltis

Deputados prestam serviço contra a Petrobrás com proposta de CPI

Dívidas asfixiam Estados, mas Mantega declara que proposta para reduzi-las não é negociável

STF e Gurgel perseguem delegado Protógenes que investigou os crimes de Daniel Dantas

Brasil cancela e renegocia dívida de 12 países africanos

Requião: “não há mal que sempre dure nem Civita que nunca acabe”

A destruição da capacidade de investimento do Estado (José Carlos de Assis)

Página 4 Página 5 Página 6

Argentina celebra década ganha em meio a crise de países centrais

Desemprego caiu do descalabro de 66% para 6,9% e salário multiplicou

“Marcha Contra Monsanto” em 436 cidades de 52 países repudia veneno disseminado pelo monopólio

Para mídia da Guatemala, negar o genocídio é “liberdade de expressão”

China recebe representante da RPDC e reafirma relações e esforços conjuntos pela paz

Correa: "Podem contar com o governo do Equador pois já não somos quintal de ninguém"

Página 7 Página 8

O STF e a desmoralização da Corte Suprema nas eleições da Flórida

FV-  '\Q2 DC ZVBNM