PIB só cresce 0,6% e BC eleva juros em 0,5 ponto percentual

Taxa de investimento do trimestre caiu de 18,7% para 18,4% em relação a do trimestre anterior

O Banco Central (BC) não levou em conta o minguado crescimento do PIB revelado, no mesmo dia, pelo IBGE, e aumentou a taxa básica de juros em 0,5 ponto percentual. Com isso, o país passou a ter a quarta maior taxa básica real – isto é, descontada a inflação – de juros do mundo (2,1%). A rigor, a terceira, pois a taxa de juros real chilena empatou com a do BC. Com exceção de dois países, todos os demais países do mundo têm juros básicos inferiores aos decretados na quarta-feira pelo BC.

Esse aumento de juros acontece numa situação em que o crescimento da economia arrasta-se próxima do chão, ou seja, perto de zero. Com o resultado da variação do Produto Interno Bruto (PIB) anunciada pelo IBGE, a média de crescimento trimestral da economia no governo atual passou a ser 0,36% -  mais de três vezes menor que a do segundo mandato do presidente Lula e mais de duas vezes menor que a dos seus oito anos (2003-2010).

Apesar disso, o sr. Mantega achou espetacular – e o BC achou os 0,6% divulgados pelo IBGE tão tremendos, que aumentou os juros básicos em 0,5 ponto percentual.

Um forte crescimento dos investimentos é o que puxou o crescimento do PIB neste primeiro trimestre, o que significa um crescimento de qualidade na economia. Significa que os estímulos que temos dado têm surtido efeito. O investimento deixou para trás o consumo, que cresceu menos neste primeiro trimestre. Crescemos mais do que boa parte dos países” - disse Mantega.

A única coisa notável nessa declaração é que, nela, nada é verdade – exceto, talvez, uma vírgula na penúltima frase.

Não crescemos mais “do que boa parte dos países” – o sr. Mantega sabe que isso não é verdade, pois, pela sua atual bíblia, a IMF Survey Magazine, isto é, a revista do FMI, sabemos que a previsão de crescimento para o mundo em 2013 é +3,3%; para as “economias emergentes e em desenvolvimento”, o crescimento projetado é +5,3%; e, para os Brics, é, na média, +4,6% - e apenas porque o crescimento previsto para o Brasil está puxando essa média para baixo (cf. na revista o artigo de um funcionário do FMI, Thomas Helbling, intitulado “Policy Actions Improve Prospects for Global Economy”).

O crescimento do Brasil no acumulado de quatro trimestres foi apenas 1,2% - e o próprio Mantega afirma que é preciso rever “e para baixo” sua própria previsão de crescimento para o país (3,5%).

A formação bruta de capital fixo (FBCF), indicador dos investimentos, aumentou 4,6% em relação ao trimestre anterior. Mas isso quer dizer, apenas, que o gasto com máquinas, equipamentos e construções, em relação a uma base fixa (os preços de 1995, considerados = 100), aumentaram 4,6%.

Nada mais além disso. Em valores correntes, o aumento da FBCF foi de apenas R$ 1,3 bilhão (de R$ 203,6 bilhões para R$ 204,9 bilhões – gastos baixíssimos para uma economia do tamanho da nossa, e, mais ridículo ainda, o aumento de R$ 1,3 bilhão entre um trimestre e outro).

Mas o que interessa é a taxa de investimento (FBCF/PIB), ou seja, o investimento em termos da produção total da economia. A taxa de investimento passou de 18,7% do PIB no último trimestre de 2012 para 18,4% no primeiro trimestre de 2013. Portanto,  a taxa de investimento do trimestre caiu em relação a do trimestre anterior (cf. IBGE, Contas Nacionais Trimestrais, Janeiro/Março 2013, p. 19).

Mesmo em relação a um ano como 2011, em que o crescimento foi impenitentemente derrubado, a taxa atual é menor: a daquele ano foi 19,3%.

Além disso, o próprio aumento de 4,6% reflete mais a compra de caminhões – houve um processo de troca no setor de transporte, devido à nova legislação – que de máquinas e equipamentos para a indústria. Logo, esse aumento não é sustentável, pois ninguém troca de caminhões a cada trimestre.

Porém, o mais espantoso (ou o mais desavergonhado) é que Mantega – e seu atual escudeiro, Luciano Coutinho – estão tecendo odes para um resultado onde a indústria caiu em todas as comparações. Caiu -0,3% na comparação com o trimestre anterior, caiu -1,4% na comparação com o mesmo período do ano anterior e caiu -1,2% no acumulado em quatro trimestres em relação aos quatro trimestres anteriores (aliás, nessa última comparação, também a FBCF caiu: -2,8%).

Já entraremos na questão do consumo. Diz Mantega que a presidente Dilma ficou “muito satisfeita” com o resultado – em especial, do investimento. Nós não acreditamos. Temos um conceito muito mais alto da nossa presidente do que esse, a de vítima fácil da enrolação de um ministro que nem mesmo neste lastimável ofício é competente.

O sr. Luciano Coutinho, atualmente presidente do BNDES, saudou o “excelente desempenho da formação bruta de capital fixo”. Como o sr. Coutinho não é um ignorante, a coisa aqui é grave. Tanto assim que ele fez um vaticínio muito científico: “devagarinho, as coisas vão melhorando”. Ele sabe que não é verdade. O problema é que elas estão piorando, e não é devagarinho. Nada poderia ser mais ilustrativo dessa piora do que o consumo.

Segundo o IBGE, o consumo das famílias aumentou apenas 0,1% no primeiro trimestre do ano e o consumo do governo variou em 0 (zero).

Entre 2004 e 2010, o consumo das famílias aumentou a uma média anual de 5,2%, o consumo do governo a uma média de 3,5% e a formação bruta de capital fixo, isto é, o investimento, a uma média de 9,2%.

Diante desses números, desaba toda a falsificação – requentada há poucos dias pelo “Financial Times” - de que Lula teria implantado um modelo apenas baseado no consumo. Pelo contrário, o investimento cresceu mais que o consumo.

Já em 2011 e 2012, o consumo das famílias aumentou à média de 3,6%; o consumo do governo cresceu a uma média de 2,5%; e o investimento, à média anual de 0,4%.

Essa queda verdadeiramente estúpida do investimento – inclusive em termos do PIB, isto é, enquanto taxa de investimento – foi resultado do manietamento do investimento público desde janeiro de 2011, seguindo a incrível teoria (na verdade, um carbono neoliberal) de que era necessário diminuir o investimento e os gastos públicos para que crescesse o investimento privado. Naturalmente, o que ocorreu foi o estancamento do investimento privado – pois, como há muito é sabido, é o investimento público, na época atual, que abre espaço e impulsiona o investimento privado.

Agora, depois de meses de conversa sobre um suposto esgotamento do consumo – num país em que parte da população não tem nem sapatos – como motor do crescimento, e a necessidade de basear o crescimento no investimento, conseguiu-se um prodígio: nem consumo, nem investimento.

Segundo os próceres do governo, como o sr. Coutinho, o investimento e o crescimento virão das concessões ao capital estrangeiro – isto é, das privatizações, incluindo a do petróleo do pré-sal.

Como se sabe, o que não faltou foi crescimento na época em que Fernando Henrique liquidou, na bacia das almas, as telecomunicações, a Vale do Rio Doce, boa parte do setor elétrico e o escambau. As cidades ficaram até mais iluminadas...

CARLOS LOPES


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