Inflação estava em queda quando o BC decidiu aumentar os juros

O objetivo de aumentar juros é aumentar os ganhos, sobretudo, dos bancos estrangeiros

Pelo terceiro mês consecutivo, a inflação, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), caiu em julho (0,03% contra 0,26% em junho e 0,37% em maio). Com exceção de uma pequena oscilação em abril, a inflação está caindo desde fevereiro, como mostra o IPCA mês a mês:

1) Janeiro:    0,86%;

2) Fevereiro: 0,60%;

3) Março:      0,47%;

4) Abril:       0,55%;

5) Maio:       0,37%;

6) Junho:     0,26%;

7) Julho:      0,03%

(cf. IBGE, Sistema Nacional de Índices de Preços ao Consumidor).

Por esses números, se vê o que era a “inflação do tomate”, propalada pelos porta-vozes dos monopólios financeiros e por alguns idiotas muito bem remunerados, mas nem por isso menos idiotas, daquele tipo que, para aparecer, até pendura no pescoço um colar de tomates, talvez por falta de uma melancia ou um espanador.

A inflação estava caindo quando o BC, em 18 de abril, voltou a aumentar os juros. Em 30 de maio, quando o BC aumentou a taxa básica de juros pela segunda vez, a variação da inflação já caíra mais 33%, ou seja, mais 1/3 (0,55% para 0,37%). E quando a taxa de juros foi aumentada pela terceira vez, no dia 11 de julho, essa variação tinha caído mais 30% em relação ao mês anterior e  53% em relação a abril, último mês em que houve oscilação para cima.

A que se deve a trajetória de queda da inflação? Principalmente à queda no preço dos transportes, como consequência das manifestações que tomaram o país – como ressaltou a funcionária do IBGE que apresentou os resultados dos índices de inflação, o transporte, por ser uma despesa diária, tem um peso muito grande nesses índices. Assim, a queda (média nacional) de -3,32% em julho no preço da passagem dos ônibus urbanos foi um dos fatores decisivos na queda da inflação nesse mês.

Segundo, por fatores puramente sazonais – ou seja, devidos à época do ano – caíram os preços dos alimentos em -0,33%. Mas a queda nos preços do conjunto dos alimentos é contínua desde fevereiro, sem nenhuma interrupção (cf. IBGE, op. cit., p. 17). Entre os alimentos, o que mais caiu de preço foi, exatamente, o tomate (-27,25%), seguido pela cebola (-10,90%) e pela cenoura (-5,04%).

Qual foi a influência do aumento de juros sobre o preço da cenoura ou da cebola – ou do tomate?Nenhuma, leitor, até porque a queda nos preços dos alimentos começou dois meses antes do primeiro aumento de juros do BC.

O terceiro fator na queda da inflação foram as roupas, cujos preços caíram -0,39% em julho, devido a outra questão sazonal: a proximidade do fim da época mais fria do ano no Sudeste e Sul do país.

Essa trajetória da inflação nada teve a ver, portanto, com os aumentos de juros – aliás, são os próprios membros do Comitê de Política Monetária (Copom) e da diretoria do BC os primeiros a afirmar que aumentos de juros só atuam sobre os preços no “cenário prospectivo” de nove meses...

Como observou Amir Khair, a encenação do tomate - com alguns cavalheiros e senhoritas clamando por aumentos de juros para salvar o Brasil do apocalipse inflacionário – aproveitava, em primeiro lugar, “a sazonalidade característica de maior ritmo inflacionário típico do início de cada ano”. Em suma, no começo do ano sempre “há os reajustes e pagamentos no IPTU, IPVA, despesas escolares e contratos com vencimentos de início de ano, visando recompor a inflação ocorrida no ano anterior”. Assim que se encerra essa fase, em todos os anos, a tendência dos índices de inflação é cair.

Além disso, os aproveitadores usaram a breve consequência de um problema climático – daí a pequena oscilação de abril, quando a inflação já caíra nos dois meses anteriores e continuou caindo nos meses subsequentes.

A campanha do tomate seria apenas uma palhaçada – se não fosse para aumentar os juros, ou seja, tirar recursos dos trabalhadores, dos empresários nacionais, do Estado, do país. O objetivo de aumentar juros é aumentar os ganhos, sobretudo, dos bancos estrangeiros e seus fundos especulativos. Nada tem a ver com a inflação. Esses bancos e fundos queriam voltar ao patamar de juros reais que devastava o país em agosto de 2011, antes que, pressionado pela sociedade, tendo à frente a presidente Dilma, o BC fosse obrigado a baixar as taxas básicas de juros entre 1º de setembro de 2011 e 17 de abril de 2013.

Infelizmente, o governo engoliu – ou, como diz o povo, entubou - a inflação do tomate. Alguém já disse que a pior coisa para um governante é ser tomado pelo pânico. A campanha tinha, precisamente, o objetivo de levar pânico ao governo e à sociedade para que aceitassem que os juros fossem outra vez aumentados. A sociedade em geral até que reagiu bem. Lamentavelmente, não o governo. A própria presidente Dilma, que pregara a baixa dos juros até “os níveis internacionais”, aceitou calada – ou, pior, até apoiou - que essa malta de aproveitadores mandassem em seu governo. Não era uma questão de força – pois a força política da sociedade e do governo haviam conseguido baixar os juros. Aceitar que voltassem a subir é mais uma questão de intimidação do lado que mais tem força por uma minoria – minúscula - que berrava uma retórica francamente terrorista.

 Isso explica porque, no primeiro semestre deste ano, o gasto com juros do setor público voltou a aumentar, depois de uma redução em 2012. As quantias orçamentárias gastas com juros (no primeiro semestre de cada ano) são as seguintes:

a) 2011: R$ 119,75 bilhões;

b) 2012: R$ 111,03 bilhões;

c) 2013: R$ 118,09 bilhões.

Projetado até o fim do ano, isto significaria um gasto tremendo de R$ 236 bilhões com juros até dezembro. Mas esta projeção é errônea, ou seja, subestimada – se a avidez por ganhos financeiros de bancos externos e fundos não tiver algum limite.

Os notórios “top 5” do Boletim Focus (os porta-vozes de bancos que, segundo o BC, mais acertam nas “previsões”) estão “prevendo” que os juros básicos chegarão a escalafobéticos 9,50% até dezembro. O que quer dizer que o objetivo deles é chegar pelo menos aí - se for possível, a 9,75%, que é o pico das “previsões”. O leitor nos perdoe o excesso de aspas, mas é que essas “previsões” são, na verdade, a meta dos antros financeiros para este ano, ou, o que é o mesmo, as ordens que passam ao BC.

Somente para rememorar: a taxa básica de juros (Selic), que é determinada pelo BC, após as reduções impostas pela sociedade desde setembro de 2011, estava em 7,25% no dia 17 de abril; no dia seguinte, foi aumentada para 7,50%; no dia 30 de maio, foi para 8%; no dia 11 de julho foi para 8,50%; e a meta dos bancos e fundos – logo, do BC – é que essa taxa chegue a 9,5% ou 9,75% em dezembro.

E isso com a inflação caindo desde fevereiro, apesar de uma oscilação em abril, e depois caindo consecutivamente desde maio.

O leitor deve estar se perguntando como se pretende “justificar” (mais uma palavra entre aspas) a continuação dos aumentos de juros, com a inflação claramente caindo. Na quinta-feira, o editorial de um jornal dito “econômico” explicou que, agora, o aumento de juros é para “melhorar a confiança” no governo e  “reconquistar a confiança dos agentes econômicos” (cf. Valor Econômico, 08/08/2013).

Depois, na hora em que faltar poste para uso da multidão – ou faltar voto para certos candidatos - não se queixem.

CARLOS LOPES


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