Insistência em política econômica submissa aumenta déficit externo

Em sete meses, rombo já chega a US$ 52,47 bilhões

Há várias maneiras possíveis de abordar o resultado das contas externas de julho, publicado pelo Banco Central na sexta-feira, dia 23. Em todas elas, é inevitável a conclusão de que a política econômica atual está conduzindo o país a uma crise nessas contas. O problema de fundo é a dependência em que essa política econômica nos colocou frente às economias imperialistas falidas – em especial a dos EUA. É a isso que o ministro da Fazenda, na última segunda-feira, chamou de “uma luz no fim do túnel” - uma suposta “recuperação” da economia norte-americana que seria a principal “locomotiva mundial” a “irradiar crescimento” para os outros países.

Mantega é mais otimista sobre a economia dos EUA que o Congresso dos EUA – cuja estimativa é de redução do crescimento este ano, de 2,2% para 1,4% (cf. Congressional Budget Office, “The Budget and Economic Outlook: Fiscal Years 2013 to 2023”, p. 40/41).

Porém, nas suas declarações, existe outro elemento, além do evidente capachismo (as economias dos países centrais cresceram apenas 1,7% em 2011, enquanto as economias dos países “emergentes e em desenvolvimento” cresciam 6,2%; em 2012, as economias imperialistas cresceram minúsculos 1,2%, enquanto a dos países periféricos cresceram 4,9%; e a projeção para este ano é um crescimento de 1,2% nos países centrais e de 5% nos outros países – cf. FMI, “World Economic Outlook Update”, 09/07/2013, p. 2).

Diz Mantega que “na soma dos países emergentes, já houve uma redução de reservas da ordem de US$ 150 bilhões e aqui não saiu um dólar das nossas reservas. (…) Não há dúvida de que estamos crescendo, e mais até do que alguns parceiros”.

A primeira frase esconde que o único país que aumentou os juros no primeiro semestre foi o Brasil. Os países “emergentes”, inclusive o México, reduziram os juros básicos no primeiro semestre para ter melhores condições de enfrentar a manipulação do dólar pelos EUA. Com isso, mandaram às favas uma parte das reservas de fumaça, que somente serviam para sustentar os títulos dos EUA às custas do Tesouro alheio.

Mantega acha uma vantagem manter essas reservas em prol dos EUA – até o dia que os grandes bancos norte-americanos quiserem, pois são eles que mandam nos dólares que trocaram por reais. A rigor, essas reservas são deles – e não do Brasil. Se houve uma redução de US$ 150 bilhões nesse tipo de reserva em outros países, foi muito bom para esses países, pois estão menos pendurados na manipulação monetária dos EUA.

A segunda frase é mentira descarada: enquanto a estimativa da média de crescimento dos países emergentes está em +5%, estamos pelos 2% ou menos – crescendo muito abaixo da média dos países da África subsaariana  (+5,1%).

Os sintomas do fracasso dessa política, contudo, não estão apenas na derrubada do crescimento. As contas externas lançam uma luz incendiária sobre o perigo a que o país está sendo levado pela tentativa de manter essa política – basicamente, a desnacionalização desvairada de empresas e o subsídio cambial às mercadorias importadas.

O déficit em conta corrente (ou déficit nas transações correntes: o comércio exterior menos as remessas de recursos para fora do país) atingiu US$ 9 bilhões em julho. Desde janeiro, esse déficit já está em US$ 52,47 bilhões (equivalente a 3,95% do PIB).

Sinteticamente: em sete meses, o rombo chegou a 96,76% daquele de todo o ano passado. A previsão do BC é que chegue a US$ 75 bilhões no ano, mas a média das projeções está em US$ 79 bilhões (cf. Quadro II e Quadro III do relatório sobre o setor externo do BC).

Se compararmos o período de janeiro a julho, o déficit passou de US$ 28,99 bilhões em 2012 para US$ 52,47 bilhões. A isso corresponde:

a) Um aumento nas remessas totais para o exterior, no período janeiro/julho, de US$ 40,63 bilhões para US$ 49,30 bilhões;

b) Um aumento nas importações, no mesmo período, de US$ 128,29 bilhões (2012) para US$ 140,22 bilhões – e a passagem de um superavit comercial de US$ 9,93 bilhões para um déficit comercial de US$ -5 bilhões (a redução nas exportações – em menos de US$ 3 bilhões - foi pouco significativa para essa queda de US$ -14,93 bilhões no saldo comercial).

Pode ser que esses números causem dificuldade para alguns leitores – o que é natural. Vejamos, então, a trajetória do resultado global do Balanço de Pagamentos, ou seja, o resultado de todas as transações do país com o exterior, tanto as comerciais quanto as financeiras, tanto as de curto quanto as de longo prazo, no período de janeiro a julho: I) 2011:  US$ +50,30 bilhões; II) 2012:  US$ +22,39 bilhões; III) 2013: US$ +6,75 bilhões.

A queda de -69,85% em 2013 quando comparado a 2012, depois de uma queda de -55,49% em 2012, em relação a 2011, nos parece elucidativa.

O problema é que o governo tem feito o que pode e, sobretudo, o que não pode, para manter inalterada a situação de dependência. Segundo o sr. Mantega, o Brasil está tranquilo porque aqui não existem controles sobre a entrada e a saída de dólares (“aqui não falta dólar. No mercado à vista, está sobrando, o mercado está líquido”).

Realmente, ele acabou com os poucos que existiam:

Em dezembro de 2012, o Ministério da Fazenda aumentou o prazo mínimo das operações de pagamento antecipado de exportações de 1 para 5 anos e reduziu de 2 anos para 1 ano o prazo mínimo das captações externas sujeitas ao IOF de 6% (que beneficiou tanto as emissões de títulos e empréstimos bancários, como os empréstimos intercompanhias com prazo superior a 1 ano). (…) No início de junho, (...) foi eliminado o IOF de 6% sobre aplicações de investidores não residentes em renda fixa reduzida” (Carta IEDI nº 586 – “Os Fluxos de Capitais para o Brasil no Primeiro Semestre de 2013”, 23/08/2013).

O outro corolário dessa política é o aumento de juros e a manutenção dos juros reais em níveis orbitais para “atrair” os dólares que nos saqueiam. Como diz o IEDI, o governo optou pela “ampliação do diferencial entre os juros internos e externos – caminho contrário ao seguido por várias economias emergentes (como México, Coreia do Sul e Turquia), que reduziram seus respectivos juros básicos no segundo trimestre de 2013”.

Desde novembro, o governo, para fechar as contas, lançou mão de US$ 22 bilhões de dinheiro meramente especulativo – o resto do rombo (US$ 45 bilhões no período) foi coberto com dólares da desnacionalização de empresas brasileiras dentro do país (cf. Quadro XXV do relatório sobre o setor externo do BC).

É óbvio que isso deixa a economia do país estagnada (os dólares que entram sempre causam uma hemorragia de recursos que saem) e à mercê da chantagem dos bancos norte-americanos. O peculiar é que o ministro da Fazenda acha que as coisas devem ser assim: “[o câmbio] depende do Fed. Cabe a ele fazer os movimentos que vão acalmar o mercado”. Logo, segundo o ministro, quem manda (e deve mandar) na economia do Brasil é o banco central dos EUA, o Fed, que é uma junta dos maiores bancos privados norte-americanos.

CARLOS LOPES


Capa
Página 2
Página 3

Dilma remove Patriota após seu subordinado ofender a Bolívia

Câmara Municipal de São Borja faz ato para celebrar o papel revolucionário de Getúlio

Eternamente Getúlio (Paulo Paim)

ANP quer burlar lei para tirar a Petrobrás dos gasodutos

ANP não sabe se a OGX pagou ou não o bônus de assinatura da 11ª rodada

Aécio finge querer prévias para tentar passar a perna em Serra

Página 4 Página 5 Página 6

Marcha homenageia Luther King e repudia a política de Obama

Para o nasserista Sabahi, "não houve golpe e sim está em curso uma revolução popular no Egito"

Colômbia: governo foge das negociações e greve nacional passa de uma semana

Enquanto EUA e Europa estagnam, Argentina apresenta aceleração da atividade industrial

Quanto mais infame é a política exterior dos EUA, mais se apoia na cumplicidade da mídia (I)

Página 7 Página 8

“Cada gota do meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência”

FV-  '\Q2 DC ZVBNM