Queda de -2,0% na produção industrial em julho sinaliza PIB menor no terceiro trimestre

PIB cresce no 2º trimestre com a agropecuária à frente da indústria

No ano, a indústria cresceu 0,8%, com uma queda de participação da indústria de transformação para 11,8% do PIB – nível menor que no governo Dutra, quando a participação no PIB estava em 18,8%

Nosso assunto hoje, leitores, era o PIB do segundo trimestre. Porém, na manhã de terça-feira, o IBGE publicou a Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física (PIM-PF). Em resumo, a produção industrial sofreu uma queda de -2% em julho, comparada à do mês anterior (por setores: bens de capital = -3,3%; bens intermediários = -0,7%; bens de consumo duráveis = -7,2%; bens de consumo semiduráveis e não duráveis = -1,5%).

Assim, pouco nos restou a dizer sobre o significado real do resultado do Produto Interno Bruto. É verdade que este não se refere à produção física, mas ao valor adicionado pelas várias atividades da economia. Entretanto, é difícil conceber que o valor adicionado na economia aumente, de forma “sustentável”, com a produção física da indústria em queda...

Embora, para alguns, tudo é possível. Em outro lugar desta edição – ver a página 8 – fizemos uma breve anotação sobre as manipulações, de resto muito idiotas, que sucederam ao anúncio do PIB, na sexta-feira, dia 30.

Não nos ocorreu, porém, que o sr. Mantega iria comemorar o resultado como “inferior apenas em relação ao PIB da China”. Tal declaração, naturalmente, transborda o campo econômico – ou político – para entrar no picadeiro circense. Menos mal, pois o país está muito estressado e precisando de algumas gargalhadas. Mas seria bom transferir o autor da declaração para outra área, já que, para enfrentar e superar os problemas – aliás, gravíssimos - da economia, tal enfoque é algo inadequado.

Mantega obteve o PIB chinês do Brasil, simplesmente, multiplicando por quatro o resultado do 2º trimestre/trimestre anterior (1,5%), porque o ano tem quatro trimestres. Assim, conseguiu chegar a 6%. O que esse número tem a ver com o crescimento deste ano? Absolutamente nada. Essa forma de, supostamente, “anualizar” os resultados de um trimestre, é apenas um mau hábito que Mantega adquiriu com os americanos – uma fraude, não um produto estatístico.

No outro modo de “anualizar” os números do PIB – o resultado dos últimos quatro trimestres, forma que sempre foi usada no Brasil – o país cresceu apenas 1,9%.

Mas, disse Mantega, “o fundo do poço foi superado”. Nós nem sabíamos que estávamos no “fundo do poço”. Pelo menos não era isso o que dizia o ministro da Fazenda...

Já que desse mato não sai coelho, não nos resta, então, outra alternativa senão abordar seriamente os problemas.

Quais são os problemas que o PIB do segundo trimestre revelou – ou, melhor, enfatizou?

Deter-nos-emos rapidamente nos mais gerais, isto é, em duas grandes categorias de problemas:

1º) A agropecuária, no ano, cresceu 14,7%, os serviços, 2,1% e a indústria apenas 0,8%.

Pareceria que regredimos ao estágio de país agrícola. Mas não é verdade. A participação da agropecuária no PIB é apenas 6,2%, enquanto a da indústria em geral (transformação + extrativa + construção civil + eletricidade e gás, água, esgoto e limpeza urbana) é 21,7%.

No entanto, a indústria cresceu apenas 0,8%, com uma queda de participação da indústria de transformação para 11,8% do PIB – um nível menor que no governo Dutra, quando a participação da indústria de transformação no PIB estava em 18,8% (cf. Carmem Aparecida Feijó, Paulo G. M de Carvalho e Julio Sergio Gomes de Almeida, “Ocorreu uma desindustrialização no Brasil?”, IEDI, nov. 2005).

Portanto, a desnacionalização, o câmbio como subsídio às importações, os juros altos, e outros descalabros da política econômica, conduziram a uma situação de aguda desindustrialização, que afeta, direta e intensamente, ao crescimento.

Pode parecer evidente, mas quando, na década de 60, o economista húngaro-britânico Nicholas Kaldor formulou as chamadas “três leis de Kaldor”, a primeira delas era: “Existe uma forte correlação positiva entre o crescimento do PIB e o crescimento da produção industrial, ou seja, os países que apresentam maior taxa de crescimento econômico são precisamente aqueles nos quais a produção industrial cresce mais rápida” (cf. R.C.R. Loures, J.L. Oreiro e C.A.K. Passos, “Desindustrialização: a crônica da servidão consentida”, Economia & Tecnologia - Ano 02, Vol. 04 - Jan./Mar. 2006).

Portanto, está clara a relação entre a estagnação - o baixo crescimento atual - e a política econômica, com sua consequente desindustrialização e desnacionalização.

2º) A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), isto é, os investimentos em máquinas, equipamentos e edificações aumentaram apenas 0,2% nos últimos 12 meses e o consumo da população (“consumo das famílias”) aumentou somente 2,9%, enquanto o consumo da administração pública, 2,2%.

Mantega e outros marketeiros preferiram usar, para a FBCF, a comparação com o trimestre anterior (3,6%), ou com o mesmo trimestre do ano anterior (9%) ou a comparação do primeiro semestre com o mesmo semestre do ano passado (6%).

Mas isso não muda a realidade, o fato de que a taxa de investimento (FBCF/PIB) foi, no segundo trimestre, apenas 18,6% do PIB – enquanto a média mundial está em 23,3%. Que economia pode crescer substancialmente (e o Brasil necessita de uma virada qualitativa no crescimento) com uma taxa de investimento tão baixa?

Quanto ao crescimento do consumo das famílias, que estava, na comparação de 12 meses, em 6,9% no último trimestre do governo Lula, está agora em 2,9% - o que é resultado não principalmente das restrições ao crédito ou do endividamento das famílias, mas, sobretudo, da contenção salarial.

E nem precisamos raciocinar muito quanto ao consumo da administração pública – que reúne investimento e custeio públicos – pois o Tesouro acaba de publicar o Relatório Resumido da Execução Orçamentária (RREO) de julho, revelando uma queda de -31,8% nos investimentos públicos federais, em relação ao ano passado. Em sete meses do ano, só foram efetivamente liberados 5,58% dos investimentos previstos no Orçamento (cf. Tesouro Nacional, RREO Sint., julho 2013, p. 2 e p.4).

Enquanto essa política não for corrigida, é impossível esperar outra coisa, senão um crescimento medíocre – quando muito - e fogos de artifício dos marketeiros. 

CARLOS LOPES


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