Denúncias feitas “distorceram” espionagem dos EUA, diz Obama

Em vez de explicar porquê bisbilhotou a presidente e a Petrobrás, EUA culpa reportagens e fala generalidades

Para quem tinha alguma expectativa com a resposta que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, daria à presidenta Dilma Rousseff - que havia cobrado explicações sobre a escandalosa espionagem da NSA (Agência Nacional de Segurança) contra a Petrobrás e contra ela própria - a nota de Susan Rice, conselheira de segurança nacional do presidente dos Estados Unidos, foi uma ducha de água fria. No comunicado, divulgado pela Casa Branca na quarta-feira (11), a porta-voz de Susan Rice, Caitlin Hayden, apresentou a versão do governo americano de que algumas reportagens "distorceram" as atividades da NSA. E acrescentou que outras [reportagens] "provocaram questões legítimas" que criaram "tensões na muito próxima" relação com o Brasil.

A resposta não fala absolutamente nada sobre as motivações da espionagem à Petrobrás, terceira maior petroleira do mundo. Dilma havia dito, após encontro com o presidente dos EUA, Barack Obama, na Rússia, que não queria ficar sabendo das coisas pela imprensa e cobrou que queria saber de tudo. "Eu quero saber o que há. Se tem ou não tem, eu quero saber. Tem ou não tem? Além do que foi publicado pela imprensa, eu quero saber tudo que há em relação ao Brasil. Tudo. A palavra tudo é muito sintética. Ela abrange tudo. Tudinho. Em inglês, everything", disse Dilma, em entrevista à imprensa na sexta-feira (6).

E essas declarações tinham sido feitas sobre a primeira denúncia, antes portanto, das denúncias sobre a bisbilhotagem à petroleira brasileira. "Sem dúvida, a Petrobrás não representa ameaça à segurança de qualquer país. Representa, sim, um dos maiores ativos de petróleo do mundo e um patrimônio do povo brasileiro", reagiu Dilma, em nota divulgada após as revelações feitas pela Rede Globo, no último domingo, sobre a invasão da estatal pelos espiões da NSA. O governo dos EUA não explicou o que estava espionando na Petrobrás e afirma apenas que a preocupação do Brasil com espionagem é "legítima". Sim, é claro que é legítima, mas o que a NSA estava fazendo dentro da rede privada de computadores da Petrobrás? É isso o que o Brasil quer saber.

As "explicações", que teriam sido formuladas por Obama, e que não acrescentam nada sobre as graves denúncias de invasão aos dados da Petrobrás às vésperas do leilão do Campo de Libra, foram comunicadas ao ministro das Relações Exteriores do Brasil, Luiz Alberto Figueiredo, que foi para os Estados Unidos em busca dessas explicações. A falta de uma resposta convincente sobre a espionagem contra a Petrobrás reforça o movimento surgido no país pelo cancelamento imediato do leilão do Campo de Libra, previsto para ser realizado em outubro. De acordo com o Itamaraty, o tema da reunião foram mesmo as denúncias divulgadas pelo Fantástico de que a presidente Dilma Rousseff, assessores próximos e a Petrobrás foram alvo das ações de espionagem dos EUA.

A presidenta Dilma afirmou ter dito a Obama que a questão não era de "desculpas", mas de uma solução rápida. "O presidente declarou para mim que assumia a responsabilidade direta e pessoal pelo integral esclarecimento dos fatos e que proporia, para exame do Brasil, medidas para sanar o problema", disse a presidenta. Mas, a resposta apresentada por Obama não contém nem um nem outro. Não houve pedido de desculpas e também nenhuma solução foi apresentada, apenas frases vazias como "trabalhar juntos em uma agenda comum de iniciativas bilaterais" e outras conversas que fizeram alguns articulistas no Brasil se lembrarem do tradicional personagem de humor, "Rolando Lero", que "falava, falava, mas não dizia nada" que o também famoso professor Raimundo (Chico Anísio) cobrava dele em sua "escolinha".

Sindicalistas e parlamentares que já vinham se pronunciando pelo cancelamento dos leilões do pré-sal, intensificaram seus trabalhos nesta quarta-feira, depois da inepta resposta de Obama. O senador Pedro Simon, que havia recomendado ao governo na segunda-feira suspender o processo do leilão do campo de Libra, publicou texto em que argumenta sobre os riscos de realizar o leilão diante de fatos tão graves. O Senador gaúcho tinha usado espaço na tribuna na segunda-feira para cobrar a suspensão do leilão. "Isso que está acontecendo é realmente dramático. O que está parecendo é que a espionagem do governo dos Estados Unidos é usada como pirataria", definiu o senador. Ele convocou uma audiência pública para os próximos dias para debater a suspensão do leilão. Esses fatos certamente farão com que o repúdio ao leilão do pré-sal, que já era grande, se espalhe por todo o país.

SÉRGIO CRUZ


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