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Até Canadá, aliado dos EUA, espiona o país atraído pela entrega do petróleo do pré-sal

Pois é, leitores, até o Canadá – para não falar da Nova Zelândia – andou espionando o Brasil, segundo outra reportagem do Fantástico, da Rede Globo, no último fim de semana - baseada em novos documentos revelados por Edward Snowden.

Por falar em Canadá, o general De Gaulle, grande defensor do "Quebec livre", nunca disse que o Brasil não era um país sério – dito atribuído a ele pelos entreguistas de sempre. Mas se há algo no Brasil que não é sério são, exatamente, os entreguistas.

Disse o ministro Lobão, titular (logo do quê) das Minas e Energia que não estava preocupado com a espionagem, pois não há segredos em seu Ministério ("todos os dados são públicos e divulgados de forma clara"). Só faltou dizer que, para tornar a espionagem inócua, ele mesmo ia revelar tudo.

Se fôssemos acreditar no Lobão – e não faz bem à saúde ter essa religião – chegaríamos à conclusão que o Estado brasileiro é o único no mundo que não tem segredos, que não tem informações a preservar em prol do interesse nacional. O Brasil deve ser o único país do mundo onde não existem segredos de Estado. Segundo o Lobão, esses segredos não existem, porque ele já revelou todos ou vai revelar.

PALAVRAS

Resta saber por que até os canadenses resolveram espionar o Ministério das Minas e Energia (MME). Provavelmente porque o Lobão não entende nada do que eles querem saber... Assim, os canadenses entraram na rede que liga o MME com a Petrobrás, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) e com a própria presidente.

Disse a presidente Dilma Rousseff que a espionagem ao MME "confirma as razões econômicas e estratégicas por trás de tais atos", que "repudia a guerra cibernética" e que "é urgente que os EUA e seus aliados encerrem suas ações de espionagem de uma vez por todas". Em sua conta no Twiter, ela escreveu: "Tudo indica que os dados da NSA são acessados pelos cinco governos [EUA, Canadá, Inglaterra, Austrália e Nova Zelândia] e pelas milhares de empresas prestadoras de serviços com amplo acesso a eles".

Infelizmente, somos obrigados a repetir o grande Shakespeare, numa das falas de Hamlet: "Palavras, palavras, palavras".

Se a presidente acha que a espionagem dos canadenses "confirma as razões econômicas e estratégicas por trás de tais atos" e que "tudo indica que os dados da NSA são acessados pelos cinco governos e pelas milhares de empresas", deveria suspender o leilão do campo de Libra, o maior do mundo, no pré-sal.

Caso contrário, sua declaração não pode ser levada a sério, pois a razão econômica e estratégica que existe para a espionagem das comunicações do MME com a Petrobrás, a ANP e ela própria só pode ser o petróleo do pré-sal – aliás, ela mesmo já o afirmou. As multinacionais norte-americanas não estão no leilão porque a Shell e a Total, integrantes do mesmo cartel petroleiro, estão. A repartição do mundo entre seus membros – ou seja, dentro dele – é a primeira função de um cartel.

Não estamos dizendo nenhuma novidade que não seja conhecida há uns 100 anos – e nem é preciso ler em inglês: no Brasil, "O Escândalo do Petróleo" (depois ampliado e republicado como "O Escândalo do Petróleo e Ferro") foi publicado por Monteiro Lobato em 1936 e "A Ditadura dos Cartéis", do empresário Kurt Mirow, na década de 70. Aliás, o último autor deixou uma lição exemplar para os que se preocupam com a ética: "A atuação das multinacionais na América Latina e, particularmente, no Brasil, está sempre ligada à corrupção. Na Alemanha, sabe-se que o governo permite que, do montante de cada fatura paga ao exterior, 20% sejam creditados em conta bancária na Suíça, o que ocorre frequentemente" (K. Mirow, Conferência no 4º Seminário de Trabalhadores em Empresas Multinacionais, Praia Grande, SP, agosto/1979).

Disse a presidente Dilma, em sua campanha eleitoral, em debate com José Serra:

"Quem trouxe esse tema da privatização foi o principal assessor energético do candidato Serra, o David Zylbersztejn, que foi presidente da ANP na época do FHC. Agora ele diz que é a favor que haja uma privatização. Não é da Petrobrás, mas do pré-sal. Ele defende que esse pré-sal seja passado para as empresas privadas internacionais. E é interessante, porque isso mostra um quadro que me deixa em dúvida se eles são a favor da privatização do pré-sal ou se eles são a favor da privatização do pré-sal e também da Petrobrás".

E, continuando, afirmou Dilma:

"Eu considero que o pré-sal é uma riqueza do povo brasileiro, para garantir que a gente combata a pobreza e crie educação de qualidade. Eles defendem a privatização do pré-sal, ou seja, que a exploração do pré-sal seja feita por quem? Pelas empresas privadas internacionais. Isso é grave porque o pré-sal é uma das riquezas mais importantes do país. Defender a privatização do pré-sal significa tirar dinheiro do país. Dinheiro que será usado para investir em educação de qualidade, em ciência e tecnologia, em meio ambiente, em cultura, em saúde e fazer uma política em que o Brasil tenha um passaporte para o futuro".

Foi nessa posição – quase diríamos, nessa Dilma – que o povo brasileiro votou.

Não angaria respeito - aquele que já fora conquistado na campanha e na vida de lutas - fazer o oposto do que se afirmou na campanha. Até porque o entreguismo, como toda forma de subserviência, desperta o oposto do respeito. Aí, até a inteligência do Canadá (?!) acha-se à vontade para espionar o governo brasileiro.

OLHOS

Edward Snowden teve acesso às informações sobre mais essa ação de espionagem durante uma reunião do grupo Five Eyes (Cinco Olhos), formado pelas agências de inteligência dos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Austrália e Nova Zelândia.

Os documentos apresentados na reportagem do Fantástico mostram o funcionamento de um programa de espionagem chamado Olympia. Ele rastreou, por exemplo, ligações do embaixador Paulo Cordeiro, que servia no Canadá e hoje trabalha no departamento de Oriente Médio do Ministério das Relações Exteriores. Entre as ligações telefônicas registradas estão contatos com a Organização Latino-Americana de Energia (Olade) e com a embaixada do Brasil no Peru.

No programa de TV do apresentador Ratinho, a presidente disse que quando seu neto vai ao Palácio do Alvorada e mexe em alguma coisa, ela faz questão de alertar que ele tenha cuidado porque tudo ali "pertence ao povo brasileiro". Na mesma entrevista, ela defendeu a entrega de Libra às empresas estrangeiras.

SÉRGIO CRUZ


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