O geólogo Guilherme Estrella,
diretor da Petrobrás que chefiava o setor de exploração quando as jazidas de
petróleo do pré-sal foram descobertas, afirmou que a presidente Dilma Rousseff
deve suspender o leilão do Campo de Libra e abrir o tema para discussão com a
sociedade, "que não foi ouvida neste tema tão estratégico".
"Minha esperança é que a presidente
Dilma Rousseff, uma nacionalista com boa visão em favor do povo brasileiro,
suspenda o leilão de Libra, principalmente agora que a presidente da Petrobrás,
Graça Foster, afirmou no Senado que não agora, mas dentro um ano, ano e meio, a
Petrobrás tem condições de operar 100% o campo de Libra se for contratada para
isto pelo governo", assinalou.
Guilherme Estrella participou, na
quinta-feira (3), do almoço em comemoração aos 60 anos de criação da estatal,
organizado pela Associação dos Engenheiros da Petrobrás (Aepet) no Clube de
Engenharia, no Rio de Janeiro.
O evento, que lotou o salão do 24°
andar do edifício-sede do Clube, com a presença de mais de 400 pessoas – com a
participação de entidades como o Movimento em Defesa da Economia Nacional (Modecon),
Sindipetro-RJ, Central Geral dos Trabalhadores Brasileiros (CGTB), UNE, além de
movimentos sociais, teve como tema a necessidade de garantir a soberania
brasileira sobre o megacampo de Libra. No evento, o brigadeiro Rui Moreira Lima,
que faleceu recentemente aos 94 anos e foi um grande lutador pelo monopólio
estatal da Petrobrás, foi homenageado. A Aepet também comemorou 52 anos de
atividade em defesa da Petrobrás.
"Petróleo é soberania e há pelo
menos 10 bilhões de barris em Libra. Quando descobrimos grandes quantidades de
petróleo no Iraque, o governo de lá argumentou que, mesmo o Brasil sendo uma
nação amiga, o controle daquelas reservas passaria ao Estado iraquiano", lembrou
Estrella, referindo-se ao campo de Majnoon, descoberto pela Braspetro, em 1975,
com cerca de 25 bilhões de barris de petróleo.
Com reservas estimadas de 15
bilhões de barris, Libra fica ao lado de Franco, com 9 bilhões de barris de
petróleo. Na opinião dos geólogos, os dois campos formam um único reservatório,
com reservas de no mínimo 24 bilhões de barris de petróleo. A lei da partilha
prevê que em caso defesa da soberania, em se tratando de reservas estratégicas,
o governo pode optar por contratar a Petrobrás como única operadora.
"Libra é uma formação gigantesca de
petróleo ao lado de Franco. Do ponto de vista geopolítico, não é interessante
para nós, brasileiros, termos sócios na exploração desta jazida mesmo que sejam
estrangeiros amigos. Isto não interessa ao Brasil", frisou.
O professor Ildo Sauer, também
ex-diretor da Petrobrás, ressaltou que a estatal é a mãe da soberania
brasileira, por ser a principal empresa e indutora do desenvolvimento econômico
do país. "Temos que chamar a atenção do governo porque o caminho do leilão do
campo de Libra mostra um papel subalterno nas relações geopolíticas do Brasil
que não podemos aceitar", disse.
O vice-presidente da Aepet e do
Clube de Engenharia, Fernando Siqueira, explicou que pelo artigo 2° da Lei
12.351/10 (lei da partilha) Libra é uma área estratégica e, sendo assim, a
Agencia Nacional de Petróleo (ANP) deveria assinar um contrato de partilha com a
Petrobrás para manter toda esta riqueza no país. Siqueira lembrou que a
Petrobrás "nasceu nos braços do povo, através da campanha do petróleo é nosso e
por seu excelente desempenho em todas as áreas, conseguiu ir além das próprias
expectativas dos brasileiros". Ele citou, como exemplo de capacidade tecnológica
da estatal, o fato da petrolífera anglo-holandesa Shell ter feito um poço em
cima da jazida de Libra, de cerca de 3.990 metros, e o ter abandonado seco.
Siqueira anunciou a criação do
Comitê Nacional pelo Fim dos Leilões do Pré-Sal e em Defesa da Petrobrás que já
tem representantes no RS, SP, BA, ES e na maioria dos estados brasileiros. Um
manifesto do comitê foi divulgado. "A solução para o País no caso do Campo de
Libra é o cumprimento do estabelecido no Art.12º da Lei 12 351/10 do Regime de
Partilha, negociando com a Petrobrás um contrato de partilha para a exploração
dessa riqueza. Não conseguimos entender que esse Campo não seja considerado do
mais alto interesse do País, colocando em leilão o maior campo do mundo atual,
descoberto, testado e com risco zero", diz o documento.
O presidente do Clube de Engenharia, Francis
Bogossian, destacou que o clube "está totalmente alinhado à luta para que
riqueza do pré-sal fique no Brasil". O deputado federal Alessandro Molon (PT-RJ)
defendeu que as reservas de Libra sejam "100% da Petrobrás". O presidente da
CGTB, Ubiraci Dantas de Oliveira (Bira), afirmou que "nesses 60 anos de
Petrobrás, nunca houve tanta unidade do povo brasileiro e de suas entidades em
defesa do petróleo e contra o leilão. As centrais sindicais, intelectuais,
artistas, estudantes, MST, MAB e diversas entidades populares estão firmes nessa
luta".