Depois de Libra, Dilma promete leiloar mais campos do pré-sal

Mas PT nem quer falar do assunto, embora a presidente se esforce para explicar por que entregou 40% de Libra a cartel  

Dizem alguns que a presidente Dilma pretende tornar o leilão de Libra, essa vergonhosa privatização, seu cavalo de batalha nas eleições. Não sabemos se é verdade, pois mais parece coisa de maluco, depois do que ela afirmou sobre o assunto na última campanha eleitoral. Mas ela já conseguiu tornar Libra o centro da campanha, pois não consegue falar de outra coisa – e repete que Libra é apenas "o primeiro mega campo do pré-sal a ser licitado".

PT

No entanto, Dilma tenta se livrar do julgamento popular pela original assertiva de que a privatização não foi uma privatização – quando foi tão privatização que, para entregar 40% do consórcio de Libra ao cartel petroleiro externo, isto é, à Shell e à Total, teve que nomear uma diretoria tucana para a Pré-Sal Petróleo S.A (PPSA). Ao apagar das luzes, nomeou para presidente da Pré-Sal Petróleo S.A (PPSA) o sr. Oswaldo Pedrosa, braço direito de David "o petróleo é vosso" Zylbersztajn quando este era diretor da Agência Nacional do Petróleo (ANP), durante o governo de seu ex-sogro, Fernando Henrique Cardoso. E, para diretor de finanças da PPSA, nomeou Antonio Cláudio Pereira da Silva, ex-chefe de gabinete de Henri "Petrobrax" Reichstul, e conhecido lobista das multinacionais do petróleo.

Trata-se, aqui e em tudo, de um desrespeito ao próprio Manifesto de Fundação do PT, que diz:

"O Partido dos Trabalhadores pretende que o povo decida o que fazer da riqueza produzida e dos recursos naturais do país. As riquezas naturais, que até hoje só têm servido aos interesses do grande capital nacional e internacional, deverão ser postas a serviço do bem-estar da coletividade. Para isso é preciso que as decisões sobre a economia se submetam aos interesses populares. (...) Os trabalhadores querem a independência nacional" (Manifesto de 10/02/1980, publicado no D.O.U. de 21/10/1980).

Talvez por isso, o PT preferiu não tocar no assunto em seu recente programa na TV e rádio. Pois Dilma, para privatizar o pré-sal – para que as multinacionais abocanhassem 40% do "consórcio" - submeteu as riquezas nacionais aos mesmos tucanos que o PT, com Lula, havia escorraçado da ANP, da Petrobrás e do poder. Existe súcia mais antipopular e antinacional, portanto, mais antidemocrática, que a súcia tucana? O que essas nomeações têm a ver com o "bem-estar da coletividade", com os "interesses populares" ou com a "independência nacional"?

Elas têm a ver com a entrega de parte de Libra, com o mesmo peso da Petrobrás, à Shell e à Total, ou seja, com sua privatização, portanto, com a tentativa de submeter os interesses populares aos interesses do grande capital internacional.

ENGANAR

Em um de seus comentários à principal obra política de Maquiavel, o já então imperador Napoleão Bonaparte escreveu: "Qui nescit fallere, nescit regnare" - Quem não sabe enganar, não sabe reinar (Maquiavel, "O Príncipe", com. de Napoleão Bonaparte, trad. Márcio Pugliesi, Hemus, 2006, p. 75).

Deve ser por essas e outras que Napoleão morreu solitário em Santa Helena, acossado por um buldogue inglês, remoendo lembranças de tempos que não voltavam mais. Não poderia haver advertência mais eloquente aos simulacros de napoleões que tentarem segui-lo nessa forma de governar – com a diferença de que estes não vão ter um túmulo portentoso em Paris ou outro lugar, pois não ganharam nenhuma batalha, pelo contrário, mentiram para capitular, não para reinar ou vencer alguma guerra.

Não se pode privatizar o petróleo do campo de Libra e dizer que não se está privatizando, quando todo mundo sabe que passar um bem público, como é o petróleo - riqueza natural pertencente à Nação - para corporações privadas estrangeiras é, precisamente, o sumo da privatização.

Uma privatização é uma privatização, um roubo é um roubo, assim como, segundo Gertrude Stein, a rosa é uma rosa é uma rosa. Exatamente porque é uma privatização – ou seja, a subtração de uma propriedade pública para passá-la a alguns gatunos particulares -, os adeptos dessa privatização até agora não pararam de fazer contas, como se houvesse método matemático para provar que ganhamos alguma coisa ao entregar o que é nosso. A verdadeira questão é: a entrega de 40% da exploração de Libra ao cartel petroleiro é uma perda para o país, pois podíamos ter 100%.

É uma questão simples e tão fácil de perceber que, diante dela, houve um renegado que não conseguiu coisa melhor do que exumar o mote da ala direita da UDN em 1948, quando os udenistas queriam entregar nosso petróleo à Standard Oil: "não adianta ter petróleo debaixo da terra".

Há 65 anos, em 1948, a Petrobrás não existia. Mesmo assim, como demonstraram os patriotas de então, e a história nos anos posteriores, era errado dar o nosso petróleo para o cartel das petroleiras.

Hoje, que a Petrobrás é uma das maiores companhias de petróleo do mundo – e a única que domina a tecnologia de extração no pré-sal - exumar esse mote é ridículo, coisa de bobo da corte ou de poodle que gosta de abanar o rabo para o dono.

Na recente Offshore Technology Conference 2013 (OTC 2013), realizada no Rio de Janeiro de 29 a 31 de outubro, o gerente executivo da Petrobrás para Exploração e Produção no pré-sal, Carlos Tadeu Fraga, relatou: "O Pré-sal já produziu 250 milhões de barris de óleo equivalente, mais do que toda a produção acumulada do campo de Garoupa, primeira descoberta da Petrobras na Bacia de Campos, em 1974, e que produz até hoje".

PETROBRÁS

A produção atual do pré-sal - 329 mil barris dor dia (bpd) - alcançada em setembro de 2013, disse o gerente Fraga, já é oito vezes maior que a produção média do pré-sal no ano de 2010. O volume recuperável de petróleo dos campos de Lula e Sapinhoá, mais o volume contratado da Cessão Onerosa, é cerca de 15,4 bilhões de barris - uma vez e meia o volume recuperável do campo gigante de Kashagan, no Mar Cáspio, e 15 vezes o volume recuperável do campo de Thunder Horse, nos EUA.

Fraga descreveu que, desde a descoberta do pré-sal, em 2006, até dezembro de 2012, foram perfurados 37 poços exploratórios no pré-sal da Bacia de Santos, com índice de sucesso superior a 90%. Considerando toda a província do pré-sal, o índice de sucesso supera 80% e o número de poços, até o ano passado, chegou a 80. Nas palavras do funcionário da Petrobrás: "Esses números são fantásticos".

Por que uma empresa tão extraordinária como a Petrobrás, aplaudida por toda a Offshore Technology Conference, não poderia ser a encarregada da exploração e produção – além da operação, como lhe garante a lei – de todo o campo de Libra, o maior, até agora, do pré-sal e do mundo, campo que ela própria descobriu?

Somente devido à sofreguidão entreguista que acometeu o atual governo.

O que não falta à Petrobrás é como conseguir recursos. Na própria OTC 2013, a presidente da Petrobrás, Graça Foster, declarou que Libra é um campo tão importante, tão excepcional, que "mudará o jogo global" da indústria do petróleo e alterará "a formação de preço do petróleo Brent" (o Brent é o padrão na Europa, e na maioria dos países, para estabelecer preço). O que não falta são bancos querendo financiar uma companhia com tal reserva – ainda mais quando está em outras quase tão gigantescas.

Mas, existe algum outro lugar onde é mais claro o interesse nacional de que a Petrobrás fosse diretamente contratada, tal como está na lei de partilha de produção, do que em Libra?

Exatamente esse campo é que se resolveu leiloar e privatizar em não pequena parte. Assim é o furor entreguista, que sempre quer entregar o que é mais valioso, que sempre dá o que não se deve dar. Caso contrário, o entreguismo não seria tão criminoso e tão l-esivo ao país quanto, efetivamente, é.

CARLOS LOPES


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