Em setembro, produção da indústria paulista cai 2,1%

Mês encerra o terceiro trimestre com queda de -2,6% em relação ao segundo trimestre do ano (-0,2%). Trata-se da queda de uma queda

As reações diante dos resultados regionais da Pesquisa Industrial Mensal - Produção Física, do IBGE, variaram, desde sexta-feira, de um tom depressivo, às vezes desalentado - usado, compreensivelmente, por alguns dirigentes empresariais – até a perplexidade asinina de certos elementos da mídia. A causa primeira desse espectro de amplas emoções, ou falta delas, é a queda da produção industrial no Estado de São Paulo. Certamente, as empresas localizadas nesse Estado são responsáveis por quase 40% das vendas industriais - e da criação de valor na indústria do país. É principalmente em São Paulo que está o setor decisivo para o crescimento: a indústria de transformação.

Diante disso, raciocínios geniais para “manter o otimismo” parecem – e são – coisa de boboca. Sobretudo quando, na terça-feira, o IBGE divulgou que em setembro houve mais uma queda no emprego industrial, a 24º queda consecutiva na comparação com o mesmo mês do ano anterior. Quanto ao terceiro trimestre, relata o IBGE, “observa-se que o emprego industrial, ao recuar 1,2%, apontou o oitavo trimestre consecutivo de resultados negativos, aumentando a intensidade no ritmo de queda frente ao índice do segundo trimestre do ano”.

Mas, voltemos à produção da indústria instalada em São Paulo. Não é apenas o resultado de setembro/agosto (queda na produção industrial de -2,1%) que constitui o problema. Setembro encerra o terceiro trimestre, no qual a produção industrial de São Paulo caiu -2,6% em relação ao segundo trimestre do ano. Porém, neste, a produção caíra -0,2%. Portanto, trata-se da queda de uma queda.

O mesmo quadro negativo na indústria, em São Paulo, pode ser visto também na comparação de setembro passado com setembro de 2012 (queda de -0,9%) ou na comparação do terceiro trimestre com o mesmo período do ano passado (queda de -0,3%).

Frisemos outra vez que sai de São Paulo mais de 40% da produção da indústria de transformação do país, que lá estão 35% dos trabalhadores da indústria e 31% das empresas industriais, segundo a última Pesquisa Industrial Anual (PIA), também do IBGE.

Passemos agora para os outros Estados: na comparação de setembro com agosto, caiu a produção industrial em Pernambuco (-8,2%), Paraná (-2,4%), Ceará (-2,2%), Amazonas (-1,9%) e no conjunto do Nordeste (-1,4%). Em outros Estados o aumento da produção apenas (ou mal) compensou o resultado negativo de agosto: por exemplo, Bahia, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

A situação da indústria, que, no último ano do governo Lula, aumentou sua produção em 10,5%, é muito difícil. Especialmente, se considerarmos que as dificuldades atuais sucedem (ou continuam) os resultados de 2011 (0,4%) e 2012 (-2,7%). Daí, a conclusão do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI):

Não se espera que esse terceiro trimestre muito adverso para a indústria brasileira – seja em termos da produção regional ou setorial – se repita no quarto trimestre deste ano. Isso não quer dizer que os últimos três meses de 2013 serão de resultados mais expressivos e consistentes. A indústria caminhará até o final do ano a passos modestos e, provavelmente, entrará em 2014 no mesmo ritmo, talvez com uma evolução de sua produção menos oscilante, o que poderá ser considerado – nesse contexto – um bom sinal”.

Enquanto isso o Banco Central (BC) promete mais um aumento de juros para a próxima reunião do Copom e o governo quer desnacionalizar mais o país – com a consequência de inviabilizar cada vez mais a indústria nacional, e, por consequência, o crescimento do país, pela substituição acelerada da produção do país por importações e espoliação de recursos através das remessas para o exterior.

Às vezes nos parece estranho que tenhamos de afirmar algo tão óbvio quanto que altas taxas de juros são uma camisa-de-força para o investimento – e, portanto, para o crescimento. A essa altura dos acontecimentos, somente um cruzamento de subserviência aos bancos com uma crassa estupidez pode explicar que alguma autoridade não tenha ainda entendido o que nem ao menos necessita ser explicado: com juros no espaço, os recursos são sugados pela especulação e desviados do investimento na produção.

No dia 26 de junho, a United Nations Conference on Trade and Development (UNCTAD), órgão da ONU, publicou seu relatório anual, com os dados sobre fluxo e estoque de “investimento direto estrangeiro” (IDE) no mundo (v. UNCTAD, “World Investment Report 2013”).

Ao final de 2012, o estoque de IDE (dinheiro que se apropriou de empresas brasileiras) dentro do Brasil estava em US$ 702.208.215.604,04 (702 bilhões, 208 milhões, 215 mil, 604 dólares e 4 cents – cf. UNCTAD, WIR 2013, “FDI inward stock, by region and economy, 1990-2012”).

Trata-se do oitavo maior estoque de propriedade estrangeira do mundo. Ressaltemos que na China existem, em IDE, US$ 832,882 bilhões, ou seja, um pouco mais de 100 bilhões que no Brasil (cf. idem).

Há uma diferença no tamanho da economia: o estoque de IDE da China é apenas 10,3% do PIB chinês, enquanto o do Brasil é 31,2% do PIB brasileiro. Em termos de PIB, a China vem, há 13 anos, diminuindo o peso do IDE na sua economia, enquanto no Brasil ele vem aumentando.

[UMA NOTA: o IDE/PIB é uma medida útil apenas para se ter uma ideia, ainda que bastante imprecisa, do peso do IDE numa economia, pois o PIB é a soma de valores adicionados durante um ano, enquanto o estoque de IDE significa estoque de propriedade estrangeira – mesmo assim, ao saber, por exemplo, que o IDE na Irlanda é 142,1% do PIB ou que na Libéria ele é 558,3% do PIB, temos alguma ideia da desnacionalização, ou não, de certas economias.]

Há outra diferença, mais essencial: o IDE que entrou na China foi investimento real – entrou para construir fábricas, pois esta foi a condição estabelecida pelo governo chinês para que esse dinheiro externo entrasse no país. No Brasil, desde que os tucanos escancararam o país para qualquer negocista forâneo, o IDE entrou – e entra - para se apropriar de investimentos já realizados, para tomar empresas que já foram construídas pelos brasileiros, e torná-las filiais de multinacionais - ou, como é cada vez mais frequente, torrá-las na especulação. Ao invés de aumentar a taxa de investimento, como fez na China, no Brasil o IDE puxa o investimento para baixo, pois sua função é, quase que exclusivamente, a de arrancar recursos do país para remetê-los ao exterior.

Desde 2009, o estoque de IDE no Brasil aumentou 75,20% (de US$ 400,808 bilhões para US$ 702,208 bilhões). Mas talvez a conta mais justa seja fazê-la desde que o paladino do IDE, o atual ministro da Fazenda, sentou-se no assento da sua pasta. Nesse caso, o IDE dentro do país aumentou 218,29% (de US$ 220,621 bilhões para US$ 702,208 bilhões), com o resultado que se sabe: o país somente não afundou inapelavelmente porque o presidente Lula mudou a política econômica no seu segundo mandato, colocando o investimento público como motor do crescimento. Enquanto isso, esse IDE parasitário serviu para que gastássemos dinheiro com ele – desonerações, empréstimos do BNDES, etc.

Porém, bastou Lula sair da Presidência que outra vez as ilusões – ou, talvez, alguns ganhos muito concretos – sobre o IDE reapareceram, assim como quase marginalizaram-se os investimentos e gastos públicos. Daí esse atoleiro, bem expresso pela estagnação, e, agora, débàcle da produção industrial.

CARLOS LOPES

 

 

 

 

 


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