Política de FHC ressuscitou com Dilma e arrasa o Brasil

Recessão, privatizações, câmbio favorável à invasão de importações, desindustrialização e desemprego

Permita-nos o leitor um pequeno retrato dos tempos atuais.

Há quatro semanas, no 25º Congresso Brasileiro do Aço, em São Paulo, anunciou-se a catástrofe: 2014 será o terceiro ano seguido de queda na produção de aço, que está, no momento, 10% abaixo daquela de 2011. O Brasil, nisso, está na contramão dos outros países: a produção de aço, no ano, aumentou não somente na China, como nos EUA, Japão e até na União Europeia. Na América Latina, aumentou no México, Argentina, Peru, Equador, Trinidad-Tobago, Cuba, Uruguai e Paraguai.

Para o Brasil, a taxa de câmbio que barateia os importados significou uma invasão de aço fabricado em outros países e a queda nas exportações. Porém, a recessão interna acabou com o resultado das vendas, anunciado no início de setembro: comparado com o mesmo mês do ano passado, as vendas de laminados planos, em agosto, caíram -23,4%; as de laminados longos, -17,4%; as de semi-acabados, -37,9%; dentre estes, a venda de blocos e tarugos afundou em -48,5% (cf. "Aço Brasil Informa, setembro/2014" e Instituto Aço Brasil, "Produção Siderúrgica Brasileira, agosto/2014").

AÇO

Nós estamos exportando minério de ferro para a China por US$ 100 a tonelada e importando, do mesmo país, trilhos para ferrovias (este sofisticadíssimo produto) a US$ 864 a tonelada – com alíquota zero de importação estabelecida pelo atual governo. Isso, num país que já foi um dos principais fabricantes de trilhos do mundo.

Qual a diferença entre essa devastação nacional – ou, melhor, antinacional - e a dos tucanos?

O aço, mesmo nos dias de hoje, é algo básico para o crescimento de um país industrial. Certamente existem aqueles malucos, ou reacionários "pós-industriais", que acham superado esse negócio de aço (sobretudo no país dos outros), ou que acham possível uma sociedade baseada num "conhecimento" imaterial, ou aqueles que acham que a nanotecnologia transforma o nada em objetos de uso...

Mas, fora essa espécie de debilóide (aliás, nem eles, que não dirigem carros feitos de fumaça), o aço é tão importante que o país com maior crescimento do mundo – a China – é aquele que tem uma produção de aço maior que a soma da produção de todos os outros países.

Seria fácil mostrar o desastre que é o governo Dilma, simplesmente comparando o último ano de Lula (2010) com o último ano de Dilma (2014). Mas, antes, uma observação sobre o seu adversário.

Aécio Neves tem por padrinho Fernando Henrique - não apenas titular de um dos piores governos que já houve no Brasil, como um desafeto de seu avô, o grande Tancredo Neves.

Nós sempre achamos que Fernando Henrique Cardoso era um acabado (em mais de um sentido) intelectual de salão. Ignorante, reacionário, metido a besta, charlatão do tipo que mistura Weber e algumas citações de Marx no liquidificador e apresenta o caldo como teoria sociológica, incapaz de distinguir capitalismo de escravidão ou submissão nacional de progresso nacional, Fernando Henrique se dedicou, desde cedo, a conspirar contra o pai – um militar nacionalista – e o país. Sua "tese", repetida várias vezes, era que não havia melhor lugar para o Brasil que o pelourinho imperialista. Daí seu ódio a Getúlio Vargas e outros heróis da nacionalidade – ou ao empresariado nacional, que chamava, no melhor dos casos, de "atrasado" (modernos eram os paquidérmicos monopólios e cartéis financeiros transnacionais) e aos trabalhadores brasileiros – talvez a expressão mais nítida desse último rancor seja a sua declaração de que os aposentados brasileiros são "vagabundos".

Esse é o padrinho de Aécio.

Especialmente Tancredo Neves jamais escondeu – às vezes fazia questão de deixar explícito - seu desprezo por Fernando Henrique, a quem recusou um Ministério, e a quem achava um indecente oportunista (segundo Tancredo, Fernando Henrique era "o maior goela da política brasileira").

Assim é Aécio, que trai o próprio avô, a quem deve tudo na vida, para se juntar a um traidor do país que este avô (aliás, um herói nacional) detestava - e com fundadas razões, como se viu quando esse elemento escalou a Presidência. Se há alguém que não pode alegar que ignora a opinião de Tancredo sobre Fernando Henrique, é Aécio.

Dilma é muito parecida. Ela traiu seu pai político, Lula – ainda que este não tenha percebido – e seu partido, que está levando à ruína. Rigorosamente, seu governo foi a restauração da política tucana, pela eliminação das mudanças realizadas por Lula. Assim, acabou, de fato, com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), paralisou suas obras mais decisivas, substituindo-o pelas privatizações de aeroportos, rodovias e até do campo de petróleo de Libra; implementou o mais selvagem ataque à indústria (ver a destruição do emprego industrial na página dois); bloqueou os investimentos públicos (tanto os orçamentários quanto os das estatais – ver página ao lado); secou o crédito às empresas e ao consumidor; cevou os juros e manteve um câmbio deformado para beneficiar importações contra a indústria nacional; arrochou os salários dos servidores; conteve os aumentos reais – e, como consequência, o país foi atirado num pântano, com o pior e menor crescimento econômico de qualquer mandato presidencial na História da República, pior e menor até que aquele dos tucanos (seu único concorrente nessa taça, Fernando Collor, não chegou a terminar o mandato).

Assim, o crescimento foi derrubado de 7,5% (2010) para 0,3% (2014); a produção industrial foi de 10,5% (2010) para -3,1% (2014); o investimento (FBCF – Formação Bruta de Capital Fixo) desabou de +21,3% (2010) para -6,8% (2014); a taxa de investimento (FBCF/PIB) caiu de 19,5% (2010) para 16,5% (2014); o consumo das famílias caiu de +6,9% (2010) para +1,7% (2014); o emprego industrial caiu de +3,4% (2010) para -2,2% (2014); o rombo nas contas externas foi de US$ 47,5 bilhões (2010) para US$ 83 bilhões (2014). Note-se que usamos, para 2014, as projeções que constam em documentos oficiais. Nada impede que seja pior o resultado até o final de dezembro. Em alguns casos, é até o mais provável.

QUEBROU

Não deixa de ser cômico que Dilma repita, como um disco riscado, que Fernando Henrique "quebrou o Brasil três vezes". Nós nem sabíamos que ele havia consertado o país duas vezes, para que pudesse quebrá-lo três vezes...

Evidentemente, Dilma acha que Fernando Henrique consertou o país – e não que o quebrou. É, aliás, o que está em sua bajulatória carta, quando Fernando Henrique completou 80 anos, agora lembrada por Aécio na TV: "há muitas características do senhor Fernando Henrique Cardoso a homenagear. O acadêmico inovador, o político habilidoso, o ministro-arquiteto de um plano duradouro de saída da hiperinflação e o presidente que contribuiu decisivamente para a consolidação da estabilidade econômica. Mas quero aqui destacar também o democrata. (…) foi essencial para a consolidação da democracia brasileira em seus oito anos de mandato. (…) maior é minha admiração por sua abertura ao confronto franco e respeitoso de ideias. Querido presidente, meus parabéns e um afetuoso abraço!".

Há mesmo uma comparação estapafúrdia entre Fernando Henrique e Juscelino Kubitschek – pela qual Dilma arrisca-se a receber, no Alvorada, a visita da alma furiosa de JK, um homem que só era suave até o limite da honra.

Dilma e Aécio disputam quem vai ser uma versão do carcomido Fernando Henrique no próximo mandato. Os dois, aliás, se merecem. E terão, sem dúvida, o que merecem.

CARLOS LOPES


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