Governo tenta evitar outro apagão importando energia da Argentina

“Deus é brasileiro e vai fazer chover”, roga o ministro Eduardo Braga para que o país não fique no escuro

Um dia depois do apagão que atingiu 11 estados e o Distrito Federal, o governo, que negou veementemente que houvesse problema no fornecimento de energia para o país - alegando uma “falha operacional” meramente acidental - importou 998 megawatt da Argentina, com o objetivo de atender a demanda atual no horário de pico.

Segundo o relatório Informativo Preliminar Diário da Operação (IPDO) do ONS, referente à última terça-feira (20), o país importou uma média de 165 MW ao longo do dia, destinada especificamente ao sistema Sudeste/Centro-Oeste. Essa transferência, no horário de pico, registrado às 14h48, atingiu 998 MW. Para se ter dimensão da quantidade de energia estrangeira importada, segundo a Aneel, 1 MW abastece 500 residências.

Na terça-feira, a geração do Sudeste/Centro-Oeste, no horário de pico, foi de 36.782 MW para uma demanda de 50.976 MW. A diferença entre oferta e demanda foi, portanto, de 14.194 MW.

O gerente de Regulação da Safira Energia, Fábio Cuberos, considera que esse volume importado da Argentina consegue abastecer uma cidade de 600 mil habitantes por mês. “É muita energia, sim. Tradicionalmente, o Brasil exporta energia elétrica para a Argentina”, destacou.

AJUDA

Enquanto a senhora Rousseff encenava o papel costumeiro e “exigia explicações” (como se o problema, no fundo, não fosse o seu próprio “modelo” para o setor elétrico e sua administração desastrosa), o ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, depositava suas esperanças na ajuda divina. “Deus é brasileiro e vai fazer chover e aliviar a situação dos reservatórios de água no Sudeste”, disse o ministro.

Ao que parece, o ministro está insinuando que Deus estava cochilando no momento do apagão. Mas, segundo ele, houve erro humano, ‘atuação indevida’ na proteção de potência da Usina Governador Ney Braga, no Paraná, e um problema técnico num “banco de capacitores” em uma linha de transmissão de Furnas.

Um engenheiro elétrico consultado pelo HP fez o seguinte comentário: “esse ministro não tem a menor ideia do que é um banco de capacitores”.

O diretor do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Hermes Chipps, desmentiu completamente o ministro. Literalmente, disse que não houve falha técnica ou humana.

Conforme afirmou em relatório o ONS, houve um pico de consumo de energia, minutos antes de o apagão ocorrer. O consumo de energia atingiu o recorde de 51.596 megawatts nas regiões Sudeste/Centro-Oeste, às 14h32 de segunda-feira, 20 minutos antes do apagão.

Diante dessa situação, o ONS tentou desviar energia das regiões Norte e Nordeste para a região Sudeste. Diante de um colapso iminente de todo o sistema, o ONS optou pelo desligamento.

O relato do ONS é, aliás, elucidativo dos acontecimentos. Depois do pico e da tentativa de desviar energia do Norte e Nordeste, “na sequência, ocorreu a perda de unidades geradoras nas usinas Angra I, Volta Grande, Amador Aguiar II, Sá Carvalho, Guilman Amorim, Canoas II, Viana e Linhares (Sudeste); Cana Brava e São Salvador (Centro-Oeste); Governador Ney Braga (Sul); totalizando 2.200 MW. Com isso, a frequência elétrica caiu a valores da ordem de 59 Hz, quando o normal é 60 Hz. Visando restabelecer a frequência elétrica às suas condições normais, o ONS adotou medidas operativas em conjunto com os agentes distribuidores das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste”.

Ou seja, o apagão foi decidido depois que 11 usinas geradoras foram “perdidas”, ou seja, “apagaram” em meio à incapacidade do sistema de fornecer a energia requerida pelo momento de pico.

Um especialista, o engenheiro Roberto Pereira D’Araujo, comentou: “A queda de frequência é um aviso do sistema que não consegue manter a rotação dos geradores. É como um automóvel que não consegue subir uma ladeira e vai reduzindo a velocidade até parar”.

O apelo à nacionalidade de Deus, pelo ministro, se deu porque Braga está tentando jogar a culpa do problema no clima. Sobre isso, é perspicaz a observação de Roberto Pereira D’Araujo:

Claro que tem a ver com o clima. Quando chove muito também tem a ver com o clima. Estamos todos a bordo do planeta e o clima é parte da realidade. (…) é interessante como esse tipo de impressão é transmitido sem mostrar qualquer evidência que sustente essa teoria. Como já apontamos muitas vezes, os dados não sustentam essa tese. (…) a situação atual parece que não admite a ocorrência de anos secos” (sobre isso, v. artigo de D’Araujo nesta página).

De acordo com Célio Bermann, professor do Instituto de Energia e Ambiente da USP (Universidade de São Paulo), “o sistema elétrico brasileiro chegou ao limite da sua capacidade de produção de energia para satisfazer a demanda. O que o ONS fez foi antecipar aquilo que nós vimos em 2001, na época do apagão”. Bermann diz que a decisão do ONS “indica que temos problemas seríssimos na segurança energética do país”.

Obras para expandir o setor estão quatro anos atrasadas

 A expansão da capacidade de geração e transmissão da energia elétrica no país tem sofrido com atrasos de até quatro anos. A usina nuclear de Angra 3, que em 2014 já deveria estar operando, tem agora previsão para 2018, devido, fundamentalmente, a problemas da empreiteira Andrade Gutierrez, responsável pela construção.

A entrada em operação, com todas as turbinas, da Usina de Santo Antônio, no Rio Madeira, está atrasada um ano – e não conseguimos saber qual é o novo prazo previsto, pois, em 2015, somente está prevista a entrada em funcionamento de mais duas unidades. Ainda há 18 turbinas com instalação atrasada.

A Usina de Jirau, também no Madeira, deveria estar concluída há dois anos.

A hidrelétrica de Belo Monte está com três anos de atraso. Agora, a conclusão da obra foi adiada para 2019.

Hidrelétricas como Pai Querê (292 MW), Tijuco Alto (144 MW) e Cachoeirinha (45 MW), sequer têm previsão para início de operação. Dos mais de 40 mil MW já outorgados, 35% não tiveram as obras iniciadas ou estavam com obras paralisadas em outubro, conforme o último boletim de expansão da oferta, da Aneel.

Quanto à transmissão, o chamado linhão de Tucuruí não está operando com capacidade máxima devido aos atrasos nas demais linhas – faltam quatro no Amapá e uma no Amazonas, além de uma subestação.

A Usina do Rio Teles Pires, em Mato Grosso, ainda não ficou pronta. Mas, se ficar, não haverá linhas de transmissão para a energia que gerar, pois estão mais atrasadas que a usina. 

Modelo de Dilma não supre demanda, mas aumenta lucro das distribuidoras

 A presidente Dilma, enquanto ministra das Minas e Energia (2003-2005), criou um “novo” modelo do setor elétrico. Tratava-se de um remendo para tentar manter o falido modelo de Fernando Henrique, passando inteiramente por cima do programa para o setor elétrico apresentado, em sua campanha eleitoral, pelo presidente Lula.

Agora, como presidente, Dilma e seu ministro Levy repassaram o custo do aporte do Tesouro à Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) para os consumidores. Segundo a Aneel, isso, somado aos outros aumentos, provocará uma elevação média de +40% nas tarifas para indústria e residência.

O “novíssimo modelo” Dilma é, portanto, jogar as tarifas ao espaço, para, à custa do povo, desviar mais dinheiro para os bancos, sob a forma de juros.

Além do aumento anual - há anos sempre extorsivo -, da cobertura do rombo causado pelo corte de subsídio do governo e do pagamento dos empréstimos bancários que as distribuidoras tomaram em 2014 – tendo por garantia um papel em que o governo se comprometia a deixar as empresas descarregarem essa dívida na conta do consumidor - a população ainda arcará com o aumento provocado pela “bandeira tarifária”.

Devido ao maior uso da geração por termelétricas – devido à irresponsabilidade do próprio governo (ver o artigo de Roberto Pereira D’Araujo) – todo o país foi colocado sob bandeira vermelha pela ANEEL - o que significa +R$ 3,00 a cada 100 kWh consumidos.

 
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