Uma história contada pela metade

ROBERTO PEREIRA D’ARAUJO*

Se o apagão de 19 de janeiro foi fruto de uma simples falha técnica, por que se desligaram cargas essenciais como hospitais, transporte público, bombeamento e outras atividades importantes? Será que o que aconteceu seria um evento tão raro ou improvável que seria desnecessário que um corte de carga programado precisasse ser planejado?

Esse desejado plano, que deveria buscar um mínimo de prejuízos para a vida de uma cidade não foi adotado e, se houver uma repetição dessas condições, não será adotado outra vez.

A razão é simples. O governo não quer admitir que o sistema apresenta problemas estruturais. Prefere sempre classificar os danos como advindos de conjunturas passageiras. Omite que problemas estruturais produzem acidentes que, vistos isoladamente, parecem conjunturais.

O que ocorreu é um evento comum. Uma falha no capacitor de uma linha de transmissão não é o que se possa classificar como um evento raro. Muito ao contrário! Então por que esse evento gerou tantos prejuízos?

Na realidade, a história está contada pela metade. Nesse momento, a transmissão da energia da região norte era essencial porque as usinas hidráulicas da região sudeste estão fragilizadas. Turbinas hidráulicas funcionam com a ação da pressão da água sobre as suas pás. Se os reservatórios estão vazios, a altura da coluna de água sobre as turbinas está muito reduzida. Quando isso ocorre, um sistema turbina-gerador de 100 MW pode gerar apenas 90MW. Assim, apesar do manual do gerador dizer que ele gera certa potencia, é preciso ler as instruções mais um pouco e verificar que as condições para que essa performance ocorra inclui uma altura de referência. Se não estivéssemos com os reservatórios quase esgotados, esse evento comum de uma linha de transmissão não seria nem notado. As usinas hidroelétricas assumiriam a diferença de potência e nada ocorreria.

Portanto, a pergunta crucial que os consumidores deveriam fazer ao governo é: por que estamos com os reservatórios tão vazios?

Se a resposta apontar o dedo acusador para São Pedro, não se deixe enganar. O ano de 2014 foi seco, mas no histórico de afluências dos rios brasileiros há pelo menos seis anos piores. E mais! Alguns anos secos foram consecutivos!

Para deixar as autoridades ainda mais constrangidas, saiba que o ano de 2013 foi médio, 2012, apenas 87% da média e 2011, 117% da média. Na realidade, São Pedro não tem culpa, até porque, se há sinais de decréscimo da energia natural dos rios, como é o caso do Rio S. Francisco, ela já se mostra há mais de 10 anos. Nada é surpreendente.

Na realidade há um evento muito mal explicado no sistema e que, dada a nossa singularidade, os reservatórios não esqueceram. Durante o ano de 2012, sob hidrologia baixa, as térmicas permaneceram atendendo cerca de 9% da carga até uma misteriosa ocorrência no dia 11 de setembro. Nessa data foi anunciada a redução tarifária à custa das usinas e linhas da Eletrobrás, que foi obrigada a aceitar valores irrisórios como tarifa por usina para tentar compensar inutilmente os crescentes custos do setor. Misteriosamente, logo após essa redução intervencionista, as térmicas passaram a responder por mais de 20% da carga.

Por que as térmicas mais baratas não foram usadas preventivamente durante os anos 2011 e 2012? Essa energia térmica não gerada foi substituída por kWh hidráulicos que saíram dos reservatórios. Se o parque térmico preventivo fosse usado, um significativo volume de água estaria disponível sob forma de água nos reservatórios que talvez não estivessem com níveis tão comprometedores ao desempenho das usinas.

Portanto, não se deixem enganar. Lembrem que reservatórios não se esvaziam apenas por conta de falta de chuva. Excesso de uso, otimismo injustificado ou mesmo adiamento do uso de térmicas até que se anunciasse a redução tarifária podem ser motivos para estarmos nessa absurda situação.

*Roberto Pereira D’Araujo é diretor do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico.


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