Cúpulas da Câmara e do Senado às voltas com Operação Lava Jato

Renan Calheiros e Eduardo Cunha dizem que não sabem o que é jorrar petróleo

Disse o humorista cearense Renato Aragão que "é tanta lavagem de dinheiro que até água está faltando no Brasil".

Não é exatamente por isso que está faltando água, mas não deixa de ser bem dito, como expressão do sentimento geral. Há muito – se é que já aconteceu algo comparável – não se via tanta esculhambação no país.

Quando fechamos esta edição ainda não fora divulgada a lista de políticos implicados no roubo à Petrobrás, encaminhada ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, na terça-feira. O procurador pediu ao ministro-relator dos processos da Lava Jato no STF, Teori Zavascki, que levantasse o sigilo, mas a decisão não fora tomada ainda.

Janot optou por não pedir ainda a abertura de ação penal contra os acusados, mas o início de outra investigação – na verdade, 28 inquéritos – sobre 54 pessoas, específicas sobre aqueles envolvidos com direito a forum privilegiado (para o qual inventou-se o pomposo nome de "foro especial por prerrogativa de função", que em nada altera a sua indecência e inconstitucionalidade de resquício medieval, sobretudo depois de sua extensão pela Lei nº 10.628, de dezembro de 2002, aprovada depois da eleição do presidente Lula e sancionada por seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso).

Porém, bastou o pedido de investigação de Janot para que o Congresso se transformasse, infelizmente, num palco para evasivas, diversionismos – ou, simplesmente, bandeirosa burrice.

Na quarta-feira, havia até senador garantindo que se ficasse provado que recebeu dinheiro do roubo à Petrobrás, "renunciaria ao mandato", esquecendo que é pouco provável que escape da cadeia, pois, nesse caso, a renúncia, mera e simples, seria uma fuga – ou um prêmio.

Já o líder do governo, senador Humberto Costa, recomendava "cautela", como se alguém, até agora, tivesse cometido uma imprudência, numa investigação que começou em 2008, portanto, há sete anos – bem antes, até, da deflagração oficial da Operação Lava Jato em julho de 2013, que hoje está em sua nona fase, com as outras Operações correlatas ("Bidone", "Dolce Vita" e "Casa Blanca").

Segundo o procurador-geral, à medida que as investigações da PF prosseguirem, outros nomes poderão ser acrescentados à lista que enviou ao STF (e à que ainda vai enviar ao STJ, foro privilegiado para autoridades estaduais).

Mas já se sabe que, nessa primeira lista, estão o presidente da Câmara e o presidente do Senado. Em suma, além do Executivo, a cúpula do Poder Legislativo, pela primeira vez em 125 anos de História da República, está implicada num escândalo de corrupção por tonelada e ataque ao maior patrimônio já construído pelo povo brasileiro em toda a sua trajetória – a Petrobrás.

O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, contratou o ex-procurador da República Antonio Fernando de Souza para defendê-lo das acusações de que teria recebido dinheiro oriundo do roubo da Petrobrás.

Segundo disse, sua escolha por Souza, que acusou os réus do mal chamado "mensalão", como advogado de defesa, é "porque ele tem toda a autoridade". Pelo jeito, Cunha acha que Souza deve ser um bom defensor contra ações como as que ele mesmo empreendeu no passado. Mas há uma dificuldade.

O caso atual nada tem a ver com a acusação que Souza fez na Ação Penal 470. A diferença é que, naquela, ele não teve que provar nada – bastou a mídia.

Agora, como resultado das investigações da PF e do Ministério Público, há uma vasta prova documental (há 80 mil documentos relacionados na ação) e testemunhal (já existem 87 réus sem foro privilegiado, 494 investigações sobre suspeitos e 14 colaborações premiadas, inclusive, agora, a do presidente e do vice-presidente da Camargo Corrêa).

"Estou absolutamente tranquilo", declarou o deputado Cunha.

Nota-se.

Já o presidente do Senado, Renan Calheiros, também na lista da Operação Lava Jato, disse que não tem "nada, absolutamente nada" com o roubo da Petrobrás e que "qualquer eventual citação, se houver contra mim, ela será de terceiros".

Não se sabe exatamente o que isso quer dizer, pois é mais ou menos óbvio – se é que o óbvio pode ser mais ou menos - que não se espera que ele confesse que recebeu dinheiro roubado da Petrobrás. É claro que as citações somente podem vir "de terceiros".

Renan ignorou o relato de Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobrás, sobre a sua principal indicação no governo – o ex-senador Sérgio Machado, que até novembro era presidente da Transpetro. Segundo Costa, o então presidente da Transpetro pagava a ele para que direcionasse as licitações para a compra de navios. Machado, por indicação de Renan, foi presidente da Transpetro durante 11 anos.

Não se sabe ainda quais as outras denúncias que existem contra o presidente do Senado, mas, disse o senador que "eu terei resposta para qualquer questionamento". Um caso raro entre os humanos, capaz de garantir por antecipação que pode responder a qualquer questionamento.

O difícil – e, no futuro, talvez seja cômico ou ridículo – é ver tantos anjos que não sabem de nada. O que estavam fazendo eles quando a Petrobrás era assaltada? Provavelmente, rezando na igreja, católica ou evangélica. Por isso é que estão sendo implicados na Lava Jato.

Por falar no assunto, na quarta-feira foi revelado que um dos apanhados pela Operação Lava Jato, Carlos Alberto Pereira da Costa, declarou que o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, recebeu um empréstimo-fantasma de R$ 400 mil. Segundo Costa, um dos laranjas do doleiro Alberto Yousseff, o empréstimo, feito à empresa Centro de Reproduções das Américas (CRA), administrada por ele, foi forjado para servir de cobertura e "legalizar", ou seja, lavar, dinheiro de propina – em suma, tanto a saída de dinheiro do caixa da empresa, quanto a devolução, foram fictícias. A Polícia Federal (PF) chegou a essa operação devido ao depoimento do próprio Yousseff.

Vaccari, em nota, respondeu que precisava comprar uma casa nova, tomou o dinheiro emprestado à CRA porque é velho amigo do dono da empresa, Cláudio Mente (não é brincadeira, leitor, o nome é esse), e que pagou o empréstimo, depois de vender sua antiga casa. O tesoureiro estranhou o interesse da polícia em uma operação "perfeitamente legal" (sic) – mas esse argumento é improcedente: a PF está investigando, exatamente, uma lavagem, isto é, a passagem de dinheiro ilegal para a condição de "perfeitamente legal".

CARLOS LOPES


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Cúpulas da Câmara e do Senado às voltas com Operação Lava Jato

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