Dilma põe gestão privada da Vale à frente do Conselho da Petrobrás

Para ela, só o chefão de uma empresa que foi pivatizada por FHC para dar eficiência à estatal 

Dilma nomeou como presidente do Conselho de Administração da Petrobrás o sr. Murilo Ferreira, presidente da Vale, que tomará posse na assembleia-geral de 29 de abril – onde o governo, segundo o ministro Eduardo Braga, pretende promover “uma repactuação da empresa com o mercado”.

Murilo Ferreira é um executivo que já esteve, além da Vale, em algumas outras empresas, inclusive a Albrás – sociedade da norueguesa Norsk Hydro com a japonesa Mitsui (através da sua controlada Nippon Amazon Aluminium). Fundamentalmente é, como se diz na Vale, um “financista”, um desses sujeitos para quem o ganho especulativo e monopolista se sobrepõe a qualquer coisa, a começar pelo país. Seu grande feito, ainda como diretor, foi fazer a Vale ingressar no cartel do minério de ferro.

CÍRCULOS

A principal qualidade que Dilma e o governo veem nele para ser presidente do Conselho da Petrobrás é, exatamente, a de ser um suposto esteio do que não é público – não somente do que é privado, mas do que é privatizado. Sua passagem por uma multinacional, então, segundo a ideologia corrente (e sonante) em círculos governistas, seria a garantia de sua “capacidade”.

Leitores mais teimosos – sempre os há, graças aos céus – poderão, ainda, insistir na pergunta: que mérito tem o sr. Ferreira, que credencial, para que o governo, representando a União, principal acionista da Petrobrás, o escolha para presidir o Conselho da nossa mais importante empresa?

Fora o fato de que se trata de um executivo nomeado para a presidência da Vale pelo Bradesco, Mitsui, Daniel Dantas (Opportunity) e outros açambarcadores do patrimônio público, com a sustentação do governo (através da Previ), nenhum. Seu cartão de visitas é, exatamente, o de ser presidente de uma empresa privatizada, de uma empresa que, nesse aspecto, é o oposto da Petrobrás, que é uma empresa pública, controlada pela maioria de ações ordinárias que possui o Estado brasileiro.

Não estamos arguindo, aqui, a incompetência do sr. Ferreira. Longe de nós tal ideia. No entanto, o que existe de especialmente competente em esburacar, e sufocar em poeira, o Pará e outros Estados, para vender, a preço cada vez menor, as nossas reservas de minério de ferro à China e outros países?

Se esse é o modelo do governo para o petróleo, os fluminenses e demais habitantes dos Estados marítimos petrolíferos que se cuidem – e o Brasil, todo ele, que esteja muito alerta.

Entretanto, o sr. Murilo Ferreira substitui, no cargo de presidente do Conselho da Petrobrás, à própria Dilma Rousseff, e, depois, Guido Mantega.

Em suma, Dilma deve ter concluído – como faz em quase tudo – que não tem capacidade para coisas complicadas como ser presidente do Conselho de Administração da Petrobrás. Projetando nos outros os problemas que são seus, concluiu que, na administração pública ou na própria Petrobrás, não existe quem tenha capacidade para ser presidente do Conselho da Petrobrás. Prefere, portanto, entregar a outrem – sempre um neoliberalóide – o cargo; é mais fácil do que estudar, dominar a própria ignorância e/ou descobrir quem tenha capacidade para tal, dentro do que é público.

Um dos melhores presidentes da Petrobrás foi Francisco Mangabeira, que era funcionário da Caixa Econômica. Mas o presidente que o nomeou foi o grande João Goulart.

Assim, o sr. Murilo Ferreira é, para Dilma, uma espécie de sucedâneo setorial do sr. Joaquim Levy (que agora pode até falar que a presidente é uma incompetente para os americanos da Universidade de Chicago - e contar com a defesa incondicional da própria incompetente).

Em suma, a soberba filosofia que impera no atual governo, emanada diretamente de sua chefe, é a seguinte: quem entende de administrar o que é público são os privatistas, assim como são os entreguistas que entendem de administrar o que é nacional.

Porém, os problemas enfrentados pela Petrobrás nada têm a ver com o caráter público da empresa – e, por isso, nenhum brasileiro decente admitiria vê-la privatizada.

Pelo contrário, os problemas enfrentados pela Petrobrás têm a ver com o assalto ao que é público e nacional por uma quadrilha privada, um cartel, mais uns poucos funcionários corruptos, e mais a cúpula daqueles partidos políticos que acham (a cúpula, não necessariamente os partidos) muito normal, em política, roubar o que é público, seja na ilusão de eternizar-se no poder, seja para mero enriquecimento.

Ainda agora, continuam acobertando e protegendo os ladrões.

Além da farsa do “pacote anticorrupção” (ver matéria na página 2), o ministro das Minas e Energia, depois de anunciar a suposta “repactuação da Petrobrás com o mercado”, disse que “na democracia é preciso punir culpados mas reconhecer que as empresas precisam sobreviver para que os empregos, os investimentos e a dinâmica da economia brasileira não seja afetada”.

Essa história de que é preciso tornar impunes os ladrões para “preservar empregos, etc.” equivale a ignorar que, no Brasil, existem centenas de empresas privadas que podem substituir o cartel que agora as estão sufocando, e, inclusive, mais: equivale a ignorar que os engenheiros da Petrobrás são capazes de intervir (v. matéria na página 2) para impedir que se consumem essas previsões apocalípticas que servem para preservar, não os empregos ou os investimentos, mas o roubo.

Mas é quase original a concepção de democracia exposta pelo ministro.

O privilégio é incompatível com a democracia, apontava Montesquieu há 267 anos. Na democracia, supõe-se que todos são iguais perante a lei. Tanto indivíduos quanto empresas, porque estas são associações e organizações de indivíduos. Por que a fábrica de confetes do Zé dos Anzóis Carapuça pode ser punida (e até fechada), mas não a Odebrecht ou qualquer outra do Clube do Bilhão, que cometeram crimes contra o patrimônio da coletividade que a primeira jamais cometeria, porque é impossível ao seu dono até sonhar em perpetrar esses crimes?

LAVAGEM

Esse é o conceito de democracia que impera no governo Dilma: alguns monopólios privilegiados que podem, inclusive, transgredir a lei, sem que nada aconteça, além de encenações de punição. O exemplo, aliás, começa pela presidente, que não se sente obrigada a aplicar leis aprovadas pelo Congresso, leis que ela própria assinou (no caso da renegociação da dívida de Estados e municípios – ver matéria nesta página - até o projeto original é do próprio governo).

Pior que isso: depois de um dia de reunião da sua Executiva Nacional com os diretórios estaduais, na segunda-feira, o presidente do PT, Rui Falcão, anunciou que o afastamento do sr. João Vaccari da tesouraria do partido, não fora discutida porque “quem é acusado não é culpado”.

Como se o PT não estivesse obrigado – depois de tantos indícios, e, inclusive, provas, até mesmo um testemunho de encontros em hotéis para dividir o roubo – a investigar seu tesoureiro e ter uma avaliação pública de sua conduta.

Falcão ainda perguntou: “Por que para os outros partidos é doação e para o PT é propina?”.

Porque a acusação é, exatamente, a de que a lavagem da propina era feita através de doações legais – ou seja, o caixa do partido era uma lavanderia.

O presidente do PT pode não ter percebido o lapso, mas sua pergunta soa como outra forma de dizer algo que, aliás, ouviu-se bastante nas últimas semanas: “se os outros podem roubar, por que nós não podemos?”. E outros comentários sobre a nomeação do sr. Murilo Ferreira são dispensáveis.

CARLOS LOPES


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