Tesoureiro do PT admite ter ido ao escritório do operador da propina  

Na CPI, João Vaccari Neto reconheceu que o PT recebeu R$ 201 milhões, em 3 anos, do Cartel do Bilhão que roubou a Petrobrás  

 

Na quinta-feira, o sr. João Vaccari, tesoureiro do PT, iniciou seu depoimento na CPI da propina com uma exposição de seus deveres, segundo o artigo 179 do estatuto de seu partido. Depois, repetiu: "meu chefe é o Diretório Nacional do PT" ou "eu presto contas, sempre faço isso, ao Diretório Nacional".

Portanto, segundo Vaccari, ele não fez nada além cumprir o seu dever ou seguir ordens. Faz lembrar um pouco aqueles elementos que, nas palavras de Graham Greene, "nós enforcamos, lá em Nuremberg, porque cumpriam ordens".

Mas, disse ele, "todas as doações que nós recebemos são escrituradas, feitas via transações bancárias e são prestadas contas ao TSE".

Como se a acusação não fosse, precisamente, a de que havia uma lavagem do dinheiro da propina que recebiam os que assaltavam a Petrobrás, via doações legais ao PT, escrituradas, via transações bancárias e com prestação de contas ao TSE. Assim, Vaccari levanta como argumento de inocência, exatamente a acusação contra a qual tem de se defender. Trata-se de um mágico.

VISITAS

Mas, disse ele sobre essa arrecadação, "é usual que o secretário de finanças do PT faça visitas institucionais à empresas na busca de recursos".

Nem perguntaremos em troca de quê Vaccari obtinha esses recursos. Mais interessante seria perguntar se o escritório do doleiro Alberto Youssef era o modelo de tais empresas.

Pois Vaccari, em sete horas de depoimento, não explicou o que fazia, no dia 11 de fevereiro de 2014, na GFD Investimentos, empresa de fachada do doleiro Alberto Youssef, que emitia notas fiscais frias em troca do dinheiro das empreiteiras – as mesmas do Clube do Bilhão, que assaltou a Petrobrás.

Essa estada de Vaccari nas cavernas de Youssef foi registrada pela PF, que vigiava o doleiro havia meses – ele seria preso no mês seguinte.

Disse Vaccari: "Estive uma única vez [na fachada de Youssef], na qual ele convidou. Fui e ele não estava e fui embora". Depois: "Youssef mandou um recado para que fosse ao escritório dele. Não marcou data. Lá compareci, ele não estava e fui embora". Ou, ainda: "Foi um encontro sem agenda porque ele havia me convidado para ir lá."

Depois de não esclarecer por várias vezes o que foi fazer lá, respondeu a um deputado que disse ter dúvidas sobre o que o tesoureiro do PT fazia lá: "Essa dúvida eu também tenho".

Portanto, segundo Vaccari, ele não sabia, e não sabe, por que foi a uma "empresa" do mais conhecido - pelo menos há 16 anos, desde 1998, quando estourou o escândalo do Banestado - lavador de dinheiro corrupto do país.

Se Vaccari foi "convidado" por Youssef – e aceitou o convite - pode-se concluir que a intimidade entre os dois era razoável. Ou será que o tesoureiro do PT aceita qualquer convite, e de qualquer um?

Mas, Youssef, desde 1998, é conhecido por seus negócios escusos. E Vaccari – que, além do mais, também é paranaense, como Youssef - não pode dizer que ignorava que o convite vinha de um marginal com especialidade em lidar com dinheiro público roubado.

Evidentemente, a GDF Investimentos, no opulento bairro paulistano do Itaim-Bibi, não era um ponto turístico. Ninguém ia lá para ver o panorama. A única atração que havia lá, era dinheiro roubado? Diz Vaccari que foi embora porque Youssef não estava lá. E se estivesse? O que iria discutir com o doleiro, além da lavagem de dinheiro roubado? A obra de Machado ou de Graciliano Ramos?

Porém, o mais suspeito é, exatamente, que Youssef não estava lá e Vaccari levou quatro minutos entre a entrada e a saída, segundo o relatório da PF. Se Vaccari quisesse encontrar com Youssef, marcaria por telefone, como todo mundo faz. Mas não era Yousseff que Vaccari queria encontrar. O pouco tempo que permaneceu na "GDF Investimentos" mostra que o que ele queria já estava pronto para entrega.

A função da GDF foi descrita à PF por Meire Poza, contadora de Youssef: "A GDF recebia recursos de construtoras em contrapartida à emissão de notas fiscais, sem a respectiva prestação de serviços". A contadora confeccionava as notas frias. Com essa empresa, Youssef arrecadava a propina e, depois – por uma comissão – distribuía aos seus, digamos, beneficiários. Era só isso o que fazia a GFD Investimentos.

A PF apreendeu um e-mail do "diretor financeiro" da GDF Investimentos, relacionando Vaccari com algo – que pode ser tudo menos algo honesto – na Petros, fundo de previdência da Petrobrás.

E, anotemos, de passagem, que Youssef, em depoimento no último dia 31, relatou que "foram dois valores de quatrocentos e poucos mil reais que foram entregues a mando da Toshiba para o tesoureiro do PT, o Vaccari". Metade "foi entregue na porta do diretório do PT nacional, pelo meu funcionário, Rafael Ângulo, para o funcionário da Toshiba, para que ele pudesse entregar esse valor para o Vaccari".

Na CPI, Vaccari, ao ser perguntado se jantara no hotel Windsor Copacabana com Renato Duque, então diretor da Petrobrás, e com o gerente Pedro Barusco, respondeu: "eu não me recordo".

À guisa de defesa, Vaccari usou – inclusive os gráficos - um artigo do jornal "O Estado de S. Paulo", segundo o qual, num período de sete anos, 40% da arrecadação do PT, PSDB e PMDB vieram das empresas sob investigação na Operação Lava Jato, sem contar as campanhas eleitorais. Logo, presume-se, se os outros roubam, por que o PT não pode roubar?

Existem pelo menos seis depoimentos implicando Vaccari nas propinas da Lava Jato, inclusive os de Eduardo Leite, vice-presidente da Camargo Corrêa, Augusto Mendonça e Júlio Camargo, executivos da Toyo Setal. A denúncia contra Vaccari (e outros) é um documento de 220 páginas de solidez indiscutível. Somente um fariseu (ou marcianos, como o líder do PT, Sibá Machado) para negar as evidências e provas.

DOAÇÕES

Vaccari tentou uma prestidigitação, com esse artigo de jornal sobre o período 2007-2013. Com os mesmos dados, mas nos atendo ao governo Dilma, o resultado é inteiramente diferente. As doações das empresas implicadas na Lava Jato, no período 2011-2013, distribuem-se do seguinte modo:

PT: R$ 207,1 milhões (66,19%);

PSDB: R$ 59,2 milhões (18,92%);

PMDB: R$ 46,6 milhões (14,89%).

Quanto a 2014, podemos ter uma ideia pelas contas dos candidatos. As contribuições das empresas implicadas na Lava Jato foram:

Dilma: R$ 72.752.599 (20,76%);

Aécio: R$ 33.187.068 (14,63%).

O fato de, em ano eleitoral, a contribuição para o PT, que estava em 66,19% nos três anos anteriores, na arrecadação de Dilma cair para 20,76%, só demonstra que essa "contribuição" das empresas implicadas na Lava Jato não era meramente "eleitoral". É propina mesmo.

CARLOS LOPES


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