Corte para aumentar sangria dos juros pode chegar a R$ 80 bilhões

De janeiro a abril, a Saúde já sofreu um corte de 36,42% e a Educação de 30% nos investimentos

Depois de reunião dos ministros com a presidente Dilma, o sr. Joaquim Levy anunciou o resultado: o novo corte no Orçamento “vai estar na faixa de R$ 70 bilhões a R$ 80 bilhões”.

O que significa cortar 1/4 do Orçamento – isto é, 1/4 daquela parte do Orçamento em que o governo pode mexer, as “despesas discricionárias” (as despesas que não são obrigatórias por lei).

Como, mesmo antes desse corte – o maior que qualquer governo fez em qualquer época da história republicana, tanto em termos absolutos quanto proporcionais – a administração pública encontra-se paralisada (mais exatamente, em processo de destruição) e a economia em pleno caos, é interessante rememorar o que foi feito até agora, antes desse corte monstruoso, até porque todos os cortes só têm um objetivo: aumentar a transferência de recursos públicos para o setor financeiro, sobretudo sob a forma de juros, o que só é possível tirando-os do povo, dos trabalhadores aos empresários nacionais.

Nos três primeiros meses do ano, até a folha de pagamento – que não é uma despesa “discricionária”, mas obrigatória – sofreu um corte real (descontada a inflação) de R$ 1,074 bilhão, em relação ao mesmo período do ano passado. Os investimentos totais caíram -31,3% e a verba orçamentária do PAC (ou seja, das obras que o governo mal vinha tocando) caiu -37,3%.

Como sabem os leitores que nos acompanham mais frequentemente, os investimentos no governo Dilma sempre estiveram à beira do ridículo. Agora, com o sr. Levy, eles se tornaram uma ficção.

Vejamos os dados do quadrimestre (janeiro-abril) – e aqui estamos somando o que pertence ao Orçamento do ano de 2015 com os “restos a pagar” (atrasados dos Orçamentos de outros anos, que só agora foram pagos).

Em relação ao mesmo período de 2014, quando os investimentos efetivamente liberados (ou seja, pagos) não foram brilhantes (para dizer o mínimo), houve, em 2015, no Ministério da Saúde, um corte de -36,42%; no Ministério da Educação, -30,35%. No Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome, que tem como função o Bolsa-família, o corte foi de -83,72% (deve ser por isso que Dilma acusava os outros, na campanha, de querer acabar com o Bolsa-família).

Mais terrível foi o corte no Ministério do Desenvolvimento Agrário, aquele que cuida, ou devia cuidar, da reforma agrária: -93,85% (não é à toa que o pessoal do agronegócio acha que Dilma é a sua fada encantada – provavelmente, deve ser a presidente que mais cortou dinheiro da reforma agrária).

Entretanto, o corte no Ministério da Defesa não ficou muito atrás, -64,03% (para que o país precisa de Defesa Nacional, se a política do governo é a genuflexão diante da casta financeira e bélica norte-americana?).

Só para completar o quadro: o corte no Ministério dos Transportes foi de -36,93%; no Ministério da Agricultura, -55,99%; no Ministério de Minas e Energia, -17,41%; no Ministério da Previdência Social, -44,48%; no Ministério do Meio Ambiente, -32,35%; e no Ministério da Cultura, -48,82%. E paramos por aqui, pois já é suficiente para se ter uma ideia do caos. De resto, como observou o vice-presidente da FIESP, Benjamim Steinbruch, “até 4 de maio, sete ministérios não haviam movimentado nenhum centavo na conta de investimentos”.

Mas, não é verdade que o governo está cortando “apenas” investimentos. Se fosse assim, não se explicaria a situação das universidades federais (v. página 5) ou dos hospitais públicos. O governo está cortando também no custeio, ou seja, na verba para manutenção e funcionamento do que já existe, do que foi construído por outros governos.

Os cortes até aqui já foram suficientes para lançar a economia do país na pior crise desde o tresloucado Collor – um governo com o qual, a cada dia, o governo Dilma se parece mais.

O leitor pode imaginar – ou sentir – o que significa, além dessas realizações, o corte de mais R$ 80 ou R$ 70 bilhões.

Evidentemente, não há como desviar essa tonelagem de dinheiro das necessidades da população para os cofres dos bancos, sobretudo externos, sem causar uma convulsão social.

No ano de 2014, o governo Dilma forçou o setor público a transferir R$ 311 bilhões ao setor financeiro – a maior transferência de dinheiro público, sob a forma de juros, já ocorrida no país.

Este ano, somente nos três primeiros meses do ano, essa drenagem já está em R$ 143 bilhões.

Apenas de janeiro a março, portanto, o governo deu aos rentistas externos quase metade do que se deu no ano passado. Por esse ritmo, chegar-se-ia a R$ 572 bilhões até o fim do ano.

Isso não é uma projeção ociosa: na verdade, a Lei Orçamentária Anual, aprovada em abril, sob projeto do governo, destina a encargos financeiros da União a colossal quantia de R$ 537.700.035.721 (537 bilhões, 700 milhões, 35 mil e 721 reais).

Isso não se refere, bem entendido, ao refinanciamento da dívida – a sua rolagem - que é prevista em outro item (total: R$ 863.588.799.202), mas a juros e outros encargos financeiros (cf. Anexo II  da Lei nº 13.115/2015).

Não é um acaso que o “Financial Times” tenha agora descoberto que Dilma é uma grande presidente e que a corrupção não é um problema do PT, mas “dos brasileiros”.

Que brasileiros?

Aqueles e aquelas que não têm ou vão ficar sem escola; aqueles e aquelas que vão morrer – sem medicamento e sem atendimento; aqueles e aquelas que vão morar debaixo das pontes – se houver lugar; aqueles e aquelas que vão ficar sem emprego; aqueles e aquelas que vão enlouquecer - por não ter o que dar de comer aos seus filhos; aqueles e aquelas que vão tentar dormir depois de um dia inteiro – ou mais – de vácua e horrorosa fome, se essa ignominiosa política passar.

Devem ser esses, segundo o “Financial Times”, os culpados pela corrupção, jamais os seus bancos, que desviam centenas de bilhões do Orçamento ou o círculo dilmista, que está muito bem de vida, usufruindo o roubo da Petrobrás e de qualquer lugar na máquina pública, depois de romper e atirar no esgoto os seus últimos laços com a Nação (se eles não percebem isso, é apenas porque o esgoto tornou-se o seu meio habitual, por assim dizer, o seu habitat).

Assim, o governo Dilma só tem um programa: dar o que é público, o que é propriedade do povo. A começar pelo dinheiro público até o pré-sal, tudo deve ser dado, privatizado, pois o que interessa são os “investidores internacionais” - qualquer picareta estrangeiro que queira açambarcar o que é nosso, pagando algumas propinas e subornos.

A corrupção, aliás, é inerente à privatização, pois esta não passa, exatamente, de um conluio de ladrões com variados coturnos.

Mas, já dizia Dom Hélder Câmara que “quanto mais escura é a noite, mais carrega em si a madrugada”.

Nesse caso, nem vai ficar muito escura a noite antes de chegar a alvorada. Aliás, já está chegando.

CARLOS LOPES


 


Capa
Página 2
Página 3

Aluguel de sondas: o golpe da Sete Brasil contra a Petrobrás

Sem Foster para atrapalhar, estatal tem lucro de R$ 5,33 bilhões no primeiro trimestre

Errata

MPF bloqueia na Justiça quase R$ 1 bilhão de 4 empreiteiras que roubaram a Petrobrás

Operação Lava Jato: André Vargas e mais três ex-deputados tornam-se réus na Justiça Federal

Cerveró diz a juiz que morar 2 anos em apê de R$ 7,5 mi sem pagar aluguel foi “compensação”

Líder do PT no Senado defende MPs do arrocho

PSB e PPS defendem fusão e denunciam “mazelas e ação predatória” do governo Dilma

PDT decide votar contra o arrocho de Dilma e Levy

Página 4 Página 5

Universidades federais aprovam greve: “educação está à míngua”

UFRJ: Reitor recomendou paralisação de todas as unidades devido a caos

Mercedes-Benz demite 500 e deixa 7,5 mil à beira do desemprego em São Bernardo (SP)

GM suspende contratos de mais 900 metalúrgicos

Centrais vão ao Senado contra MP de Dilma que corta seguro-desemprego, auxílio-doença e seguro-defeso

Em audiência, senadores criticam PL 4330: “Liberar a terceirização na atividade-fim é retornar à escravidão”

PR: Beto Richa impõe reajuste abaixo da inflação a servidores

Operários da construção pesada do Rio cruzam os braços por aumento

CARTAS

Página 6

Atos em repúdio à Nakba se estendem por toda Palestina

Estudantes chilenos sublevados contra a ‘reforma’ privatista de Michele Bachelet na educação

Papa recebe presidente palestino e o qualifica como “anjo da paz”

Músicos norte-americanos pagaram a fiança de manifestantes detidos em Baltimore e Ferguson

Guatemaltecos tomam as ruas e exigem a renúncia de Molina

Exército da Ucrânia retoma o bombardeio a bairro residencial

 

 

Página 7

Ministro ‘executado’ pela mídia aparece na TV com Kim Jong Un

Agricultores peruanos ampliam mobilização contra exploração de cobre em terra agrícola

Multidão protesta em Okinawa contra base dos EUA

Júri federal condenou à morte Dzhokhar Tsarnaev, acusado de ajudar no ataque à Maratona de Boston

Comitê da Verdade sobre a Dívida Grega apresentará o 1º relatório em 15 de junho

   Catar prende jornalistas que descobriram abusos contra operários de obras da Copa

Página 8

Viva o vibrafone de Ricardo Valverde

Teclas no Choro – uma nova vereda na trajetória do vibrafone em nosso país

Errata

 

 

 

 

 

 

 

FV-  '\Q2 DC ZVBNM