Votação da MP de Dilma que arrocha desempregado é adiada   

Governo bate em retirada ao ver que a MP 665 estava prestes a ser derrubada pelos senadores 

Às 22 h e 28 minutos da quarta-feira, quando o Senado encerrou a sessão, o governo estava derrotado. Tão derrotado que a suspensão da votação da MP nº 665 foi pedida pelo líder do governo no Senado, Delcídio Amaral (PT-MS), e pelo líder do governo no Congresso, José Pimentel (PT-CE). E quase desesperadamente, com o senador Amaral insistindo várias vezes com o presidente da Mesa, de que havia um requerimento, solicitando o adiamento da votação para terça-feira próxima.

Na verdade, dos oradores, o mais notável defensor do corte nos direitos trabalhistas (seguro-desemprego, abono salarial e seguro-defeso dos pescadores) foi o senador Humberto Costa (PT-PE), que passou de ultra-esquerdista, nos velhos tempos, para ultra-direitista, nos tempos atuais, sem jamais se fixar numa posição justa, e sem que se preocupasse em explicar o fenômeno (dizia um pensador do início do século XX que o que há de comum entre o ultra-esquerdista e o ultra-direitista é o oportunismo, mas esse não deve ser, claro, o caso do senador).

Disse o senador Costa que o pacote neoliberal é para garantir os "avanços", o "crescimento econômico", a "geração de mais empregos, de renda", a "inclusão social e a distribuição do fruto do trabalho". Para o senador, melhor que o "ajuste" da Dilma e do Levy, só sorvete de graviola.

O fato de que esse pacote já desempregou milhares de trabalhadores (e as demissões estão apenas no começo), já derrubou a folha de pagamento real, já avacalhou com a distribuição de renda (conseguiu piorar a péssima que existia antes dele), e somente aumentou os bilhões que os bancos recebem do Tesouro, como juros, não parece ter comovido o senador petista. A julgar por sua lógica, a melhor forma de garantir o emprego é desempregar as pessoas...

Houve também um outro senador petista, especialmente soporífero, parece que de Tocantins, e a senadora Gleisi Hoffman (para dizer a verdade, leitor, não notamos o que ela disse – e nem ninguém). Outro, Lindbergh Farias (ver matéria sobre o manifesto contra o ajuste nesta página), declarou que votaria contra o governo.

Ah, sim, houve também a senadora Vanessa Grazziotin (PcdoB–AM), que fez uma profunda reflexão filosófica, Segundo ela, "existem determinados momentos na vida em que precisamos mostrar o lado em que estamos. E, hoje, não tenho dúvidas nenhuma. O problema não é o conteúdo da Medida Provisória (...). Quantas vezes, para que possamos avançar, dar passos seguros à frente, não necessitamos dar um passo atrás?".

Em suma, é recuando que se avança... Já que, como diz a "ídala" (Deus meu!) da senadora, a srª Rousseff, a Terra é curva, é possível que, de tanto recuar, se chegue ao mesmo lugar.

BOB

O problema, evidentemente, não é mostrar de que lado estamos, mas se estamos do lado do povo e da Nação ou do lado de um governo antinacional, antipopular – por consequência, antidemocrático até os cueiros. Que diferença há entre a política do governo Dilma e a do primeiro governo da ditadura, isto é, a política de Bob Fields, Bulhões e Castello Branco? A única é que o governo Castello Branco não era tão entreguista ou tão antipopular.

Por isso é que o problema é, precisamente, o conteúdo da Medida Provisória. Como disse o senador Capiberibe (PSB-AP):

"Eu não voto contra aqueles que me elegeram. Não vou trair a confiança daqueles que me mandaram pra cá. Eu fui eleito, como V. Exªs sabem, pelos cidadãos e cidadãs mais humildes do meu Estado: os pescadores, os ribeirinhos, os assalariados. Em geral foram eles que me mandaram pra cá. Como é que eu vou explicar que, em nome de um ajuste fiscal – porque eu não provoquei o desajuste, porque eles não contribuíram para que se desajustassem as finanças públicas –, nós tenhamos que os castigar? Mas, neste País, o pau canta no lombo dos mais fracos. (…) Como é que se vai tirar de 14 a 16 milhões de um segmento que está entre os mais pobres do País?".

Dilma – e certos próceres do PT – não têm esse problema moral (incrível é que eles acham que isso é um problema) para trair os eleitores. Aliás, acham que o estelionato é a regra em política. Mas não é.

O governo tentou, desde a semana passada, chantagear o Congresso para que votasse o pacote neoliberal até quarta-feira – em função do que fosse aprovado, o corte no Orçamento, que agora será anunciado às 15 h de sexta-feira, poderia ser maior ou menor. Essa chantagem foi repelida no Senado – e até na Câmara, onde a votação do projeto de lei que reverte as desonerações passou para junho.

NEOLIBERAL

Seria fácil – e inteiramente superficial – dizer que certos discursos que se opuseram a essa tentativa de escalpelar os mais fracos, os mais necessitados, os mais vulneráveis, por exemplo, os do PSDB e do DEM, foram apenas falsidades para, como disse uma senadora, "desestabilizar" o governo Dilma. E não apenas porque o governo Dilma não precisa de "desestabilizadores" - ele próprio faz esse trabalho.

Ninguém neste país pode se gabar de ter sido mais oposição ao governo do PSDB, apoiado pelo PFL ou DEM, do que nós.

Entretanto, o fato de alguém ser conservador ou mesmo reacionário não conduz, automaticamente, à conclusão de que possa fazer qualquer coisa – ou tudo – contra o povo, em especial suas camadas mais empobrecidas. Para restringir o seguro-desemprego no momento em que o desemprego aumenta para a casa de centenas de milhares e, se continuar desse jeito, breve chegará à casa dos milhões; para espremer o abono-salarial no momento em que o salário real está em queda; para expulsar pescadores do direito ao seguro-defeso no momento de maior necessidade, é preciso um estômago impudico – uma insensibilidade além da média, até mesmo, dos reacionários.

Agravado o problema pelo destino que se quer dar aos recursos que se cortam dos desempregados, dos que ganham até dois salários-mínimos (são os que têm direito ao abono salarial) e dos pescadores que mal sobrevivem em nosso litoral: simplesmente, querem descarregar esses recursos nos bancos, fundos e bolsos de outros rentistas. Querem aumentar a transferência de recursos do povo para a camada mais rica, mais ociosa, mais improdutiva – alguns de seus membros (aliás, os que se locupletam mais) nem no Brasil moram.

Resta lembrar que o governo tem maioria no Senado. Mesmo assim, o que se viu na quarta-feira é que, por ser governista, nem por isso o cidadão aceita qualquer coisa que o governo quer obrigá-lo a fazer. Somente Dilma acha que, por ser da base do seu governo, um parlamentar não tem o direito de ter opinião própria. Mas apenas porque ela não tem a menor, ou quase nenhuma, independência mental. Assim como sói acontecer aos neoliberais.

CARLOS LOPES


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Errata

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Álvaro Vieira Pinto: ideologia e desenvolvimento nacional