Para Dilma, ‘respeito’ só se dono da UTC escondesse a corrupção

Irritação da presidente com Ricardo Pessoa é porque
ele confessou o desvio na Petrobrás, deu nomes e valores

A confissão do empresário, dono da UTC, Ricardo Pessoa, feita após acordo de colaboração com a Justiça, de que passou R$ 7,5 milhões surrupiados da Petrobrás para a campanha de reeleição de Dilma, deixou o Planalto em polvorosa. Dois ministros tiveram que cancelar a viagem aos EUA para arranjar explicações sobre os fatos relatados. Questionada, durante entrevista coletiva em Nova Yorque, a presidente disse, muito nervosa, que não admite e não aceita que afirmem que esse dinheiro era fruto de propinas. Mas, apesar da ênfase, ela não desmentiu que recebeu os R$ 7,5 milhões do dono da UTC. "A minha campanha recebeu dinheiro legal, registrado, de sete milhões e meio", confessou.

COLABORADOR

O empresário foi taxado por ela de "delator". "Eu não respeito delator", vociferou Dilma. "Até porque, eu fui presa na época da ditadura e eles queriam nos transformar em delatores", acrescentou. Só que Ricardo Pessoa não está delatando. Ele está confessando que participou de uma ação criminosa e está colaborando com a Justiça. Confessou que desviou muito dinheiro da Petrobrás. Inclusive assinou um compromisso com a Justiça de devolver R$ 55 milhões roubados da estatal através de superfaturamentos praticados pelo cartel, do qual ele participava. Superfaturamentos esses obtidos mediante gordas propinas passadas para os partidos da base governista que comandavam a empresa. Ele está admitindo que pagou propina para roubar e está dando os nomes de quem recebeu. Uma delas foi nada menos do que o tesoureiro da campanha de Dilma e atual ministro de Comunicação Social, Edinho Silva.

Não adianta, portanto, esbravejar, dizer que foi presa, que não admite isso e aquilo. Tem que explicar os fatos. Ricardo Pessoa, que assinou um compromisso de colaborar com a Justiça para desvendar quem foram os responsáveis pelo desvio bilionário dos cofres da estatal - o balanço oficial da Petrobrás fala em prejuízo de R$ 6,1 bilhões causados pelos roubo - confessou a parte dele e apontou quem foram os beneficiados das propinas. Tanto Edinho como Dilma repetem que os R$ 7,5 milhões injetados na campanha pelo dono da UTC foram legais. Mas, Pessoa desmonta essa tese ao relatar o seguinte diálogo com Edinho, então tesoureiro da campanha presidencial: "O Edinho me disse: ‘você tem obras na Petrobrás e tem aditivos. Quer continuar tendo? Então não pode só contribuir com isso [2 milhões]. Tem que contribuir com mais. Estou precisando de R$ 10 milhões’", contou Pessoa.

Como já mostramos na edição anterior, a partir dessa conversa, Ricardo Pessoa providenciou o repasse de R$10 milhões, que foram, segundo ele, entregues ao servidor do Palácio do Planalto, Manoel de Araújo Sobrinho. Pelas planilhas entregues por ele à PGR (Procuradoria Geral da República), foram feitas duas entregas de R$ 2,5 milhões, em 5 e 30 de agosto de 2014. Depois desses depósitos, o funcionário do Planalto acertou outro repasse de R$ 5 milhões para o caixa eleitoral de Dilma. Metade desse valor foi entregue, e a outra parte seria paga depois da eleição, mas Ricardo Pessoa foi preso antes. Edinho confirmou, em entrevista após reunião de emergência com Dilma, que a UTC realmente doou R$ 7,5 milhões à petista na eleição do ano passado.

O próprio empresário explicou que boa parte dos recursos repassados e declarados oficialmente teve origem nos desvios sobre os contratos com a Petrobrás. O superfaturamento das obras era de 20% e os aditivos eram maiores ainda. Portanto, não adianta a presidente e seu ministro ficarem repetindo que os recursos eram legais, que foram registrados, etc. Que não houve recurso irregular na campanha. O que o dono da UTC está dizendo com todas as letras é que o dinheiro roubado entrou na campanha de forma oficial. Ele está confessando que roubou a Petrobrás junto com o cartel e que a propina paga aos "operadores políticos" do PT, PMDB e PP garantia as obras superfaturadas. A Petrobrás reconhece que teve um prejuízo bilionário e o coordenador do "clube do bilhão" diz que tem R$ 55 milhões roubados para devolver. Portanto, diante disso não dá para Dilma e Edinho se esquivarem de dar explicações convincentes sobre todos esses fatos.

Ricardo Pessoa deu ainda mais detalhes sobre a ação criminosa dentro da Petrobrás. Ele descreveu como eram as entregas de propinas aos integrantes do PT. Segundo ele, o então diretor da estatal, Renato Duque, avisava João Vaccari - tesoureiro do partido - sempre que a empresa fechava um contrato com a UTC. O tesoureiro então procurava o empreiteiro para cobrar a propina de 1% que seria destinada ao PT. O empresário explicou que eles combinavam de que forma, e em quantas parcelas, esse pagamento seria feito. Pessoa disse que na maior parte das vezes optou por fazer doações oficiais ao PT ou a candidatos do partido. Às vezes, explicou, Vaccari pedia que o pagamento fosse feito por fora. Segundo Pessoa, nesses casos o dinheiro era passado em espécie ao partido.

O empresário também detalhou em um de seus depoimentos a maneira como foi negociada uma contribuição feita à campanha do petista Aloizio Mercadante ao governo do Estado de São Paulo, em 2010. Segundo a prestação de contas apresentada à Justiça Eleitoral, Mercadante recebeu uma doação de R$ 250 mil da UTC em 2010. Ele também suspendeu a viagem aos EUA por conta dessas denúncias.

FAXINA

Ao invés de explicar os fatos, Dilma disse que não demite funcionários ou ministros, baseada em notícias da imprensa. "Eu nunca demiti ministro ou aceitei ministro nomeados pela imprensa ou demitidos pela imprensa. Assim sendo, vou aguardar toda a divulgação dos fatos para avaliar a situação". Só que não foi bem assim que ela se comportou em outras ocasiões. É só lembrar que, em julho de 2011, no auge da chamada "faxina" dilmista, ela mandou a ministra Ideli Salvati informar a Luiz Antônio Pagot, então diretor do DNIT (principal órgão do Ministério dos Transportes), que estava de férias, que ele estava demitido. A demissão foi baseada numa matéria da revista Veja, que depois, inclusive, mostrou-se inverídica.

A saída de Orlando Silva, então ministro dos Esportes, também foi outro resultado de denúncia da imprensa em outubro do mesmo ano. De que ele teria participação em um esquema de desvio de dinheiro público do Segundo Tempo, um programa do federal destinado a promover o esporte em comunidades carentes. Portanto, não é verdade que "nunca houve demissões" causadas por denúncias na imprensa, em seu governo. Também não é verdade que esteja havendo "vazamentos seletivos", como reclamou a presidente. A confissão de Ricardo Pessoa, revela a participação de várias pessoas, de petistas, petebistas, peemedebistas, de integrante do PSDB, do PSB e do PP. Portanto, não há nada de seletivo nas denúncias do empresário. O que o país espera são explicações convincentes da presidente e de seus ministros. Afinal, por muito menos, Collor de Mello foi varrido do Planalto por um impeachment. E notem que, no momento do impeachment, Collor estava com 12% de aprovação popular. Hoje Dilma tem apenas 9%.

 

SÉRGIO CRUZ

 


Capa
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Para Dilma, ‘respeito’ só se dono da UTC escondesse a corrupção

Dilma e Albright

Ferraço dá roupagem dilmista ao PL serrista

Segundo CNI-Ibope, 91% rejeitam Dilma

Delator ou colaborador? (Vieira da Cunha)

Paes de Andrade (Campanella)

Ciro: “olho para 2018 com muito carinho”

Página 4 Página 5

Trabalhadores federais bloqueiam reitorias contra arrocho de Dilma

Governo federal prepara derrubada da lei que concede reajuste a servidores do Judiciário

Deputado rechaça decisão de Cunha contra projeto em defesa da Petrobrás

Em nota, Força Sindical condena plano de dividir o pagamento do Abono Salarial em duas partes

Volks afasta mais 2,3 mil funcionários da fábrica de São Bernardo do Campo

ESPORTES

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EUA: racistas incendeiam sete igrejas de congregações negras

Lei da Mordaça, que barra manifestações contra governo de arrocho, passa a vigorar na Espanha

Venezuela: PSUV apresenta candidatos após primárias com seis vezes mais participantes que a oposição

Sistema lançado pela empresa Google identifica casal de negros como ‘gorilas’

Líder sindical retira apoio a Hillary afirmando que ela e Obama ameaçam direitos trabalhistas

A verdade ainda que tardia: a descoberta dos arquivos do terror na Guatemala - I

Página 7

Tsipras: ‘Não!’ para barrar o FMI e reestruturar a dívida

 
  Aepet: “Vice dos EUA veio conversar com Dilma em 2013 e ela entregou 60% do maior campo de petróleo do mundo”

   Argentina: “Ajustes do FMI causaram crise grega”

   Cuba: relações diplomáticas reatadas, agora falta a EUA levantar o bloqueio


 
   Papa Francisco apoia povo grego que decide destino do país em referendo

Soldados do exército francês são acusados de estupro de meninas em Burkina Faso

Cuba é o primeiro país a eliminar a transmissão de HIV entre mãe e filho
  

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A espoliação da Grécia pelos bárbaros, isto é, os bancos europeus e dos EUA