A verdade ainda que tardia: a descoberta dos arquivos do terror na Guatemala - II

LEONARDO WEXELL SEVERO

Concluído em 2011, o informe “Do silêncio à memória: revelações do Arquivo Histórico da Polícia Nacional” contou com o apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e pôde avançar, explicitando alguns pormenores da participação estadunidense. Entre eles, a atuação do governo dos EUA para assegurar a coordenação entre as diversas - e dispersas – forças da repressão guatemaltecas: as polícias Nacional, Judicial, Militar e o Exército. “Tal coordenação surgiu com a assessoria da Oficina para a Segurança Pública (OPS) da USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento), estabelecida pelo governo norte-americano como mecanismo para supervisionar o treinamento das forças policiais a nível internacional”, assinala o documento.

Como revelou a jornalista e escritora argentina Stella Caloni, “a USAID foi utilizada durante o governo Reagan para dar uma fachada de legalidade às ações encobertas da CIA, que transformou a Guatemala em laboratório do terrorismo direitista”.

O informe mensal de Segurança Pública de março de 1966, desclassificado (um documento secreto, tornado público) pelo Departamento de Estado dos EUA, mostra que a parceria policial-militar foi iniciada muito antes e descreve os “vários tipos de formação policial dada pela OPS para o controle de multidões, uso de gás lacrimogêneo e emprego de armas antimotins”.

Outro documento desclassificado na mesma data, confirma o envolvimento da CIA na “Operação Limpeza” contra expoentes da oposição ao regime. Entre outros, revela o texto, “os seguintes comunistas e terroristas guatemaltecos foram executados secretamente pelas autoridades guatemaltecas na noite de 6 de março de 1966: Víctor Manuel Gutiérrez Garbin, líder do grupo PGT que vivia no exílio no México; Francisco ‘Paco’ Amado Granados, líder do Movimento Revolucionário 13 de Novembro (MR-13) e Carlos Barillas Sosa, meio-irmão de Yon Sosa, dirigente do MR-13”.

MEMÓRIA, ESPAÇO DE LUTA POLÍTICA

Frisando que “a memória é um espaço de luta política”, o advogado e intelectual paraguaio Martín Almada recorda que as ditaduras da região agiram como “gestoras da instalação das multinacionais, que criaram as condições para a entrada do modelo neoliberal”. Por isso, avalia, “foram capatazes dos Estados Unidos, mordomos dos terroristas”. Com o mesmo intuito das atrocidades na América Central, esclarece Almada, “tivemos no Cone Sul a Operação Condor, por meio da qual as ditaduras estabeleceram um sistema de controle, espionagem e prisões ilegais que levou à tortura e ao assassinato de centenas de milhares de civis”. Foi ele quem descobriu os “Arquivos do Terror” paraguaios, no dia 22 de dezembro de 1992, em um departamento da Polícia nas imediações de Assunção. Mais de 700 mil documentos comprovando o “pacto criminoso”. “Encontramos documentação da CIA desde seu primeiro dia em 1956 até 1992”, relatou. Prêmio Nobel Alternativo da Paz, Almada acredita que o momento é de ação para “superar um modelo que gera riqueza e distribui pobreza, e é isso o que eles temem”. “Nossos sonhos de liberdade seguem sendo seu maior pesadelo”, enfatiza.

No caso da Operação Condor, recorda o advogado, os EUA colocaram seus especialistas em “serviços técnicos” da CIA para subministrar “equipamentos de tortura elétrica, com assessoramento até mesmo sobre o grau de choques que o corpo humano poderia resistir”. Afinal, conforme advertiam os professores dos torturadores, “o ser vivo pode dar informação e um cadáver não”.

Representante do Ministério Público da Guatemala na acusação movida contra Ríos Montt, o promotor Orlando López teve a responsabilidade de apresentar as provas que condenaram o fiel aliado de Washington.

Superando os traumas e enfrentando as ameaças de morte, mulheres indígenas sobreviventes foram até o júri dar o seu testemunho dos massacres ocorridos contra a população maia.

Inúmeros fuzilamentos ocorridos nas suas aldeias, documentados pelo próprio Exército, que os mantinha como troféus de guerra, já comprovavam. “Abriram fogo contra os adultos e jogaram bebês no rio para que se afogassem, acusando a todos de guerrilheiros”, relatou uma. “Fui estuprada por cerca de 20 soldados, até que perdi a consciência”, declarou outra. E outra mais acrescentou que num destacamento militar em Visan, Nebaj, presenciou “os soldados tirarem a cabeça de uma anciã e brincarem com ela”. “Isso jamais poderei tirar da minha mente”, sublinhou.

Sobre a responsabilidade de Ríos Montt nos crimes, lembra o promotor, “além de ser presidente da República e comandante geral do Exército, ele conservou o cargo de ministro da Defesa”.

Para López, embora o cumprimento da sentença esteja sendo postergado devido às articulações mantidas pela extrema direita na Corte de Constitucionalidade, o impacto na sociedade guatemalteca foi “muito positivo”. “Tanto a impunidade como a corrupção são dois flagelos que estão enraizados e que caminham de mãos dadas”. Mas agora, a partir deste julgamento, acredita o promotor, “se envia uma mensagem de não à impunidade, de que se podemos julgar fatos que ocorreram há trinta anos, também se deveriam julgar ou esclarecer acontecimentos ocorridos recentemente”.

Diante do risco de que a Justiça, enfim, prevaleça, a mídia guatemalteca ligou sua metralhadora giratória, fazendo abundar factóides contra o promotor e a Promotoria, na tentativa de que a sua massificação possa desqualificar o julgamento e fazer o processo retroceder.

Diferente dos “equipamentos” utilizados para dobrar com sangue e dor a resistência dos povos, assinala Stella Caloni, o bombardeio midiático tem se revelado mais sofisticado e sistemático, pois se multiplica via jornais e revistas, emissoras de rádio e televisão e portais de internet que elevam à enésima potência a propaganda do inimigo como verdade absoluta.

Mas, felizmente, Goebbels e os nazistas estavam completamente errados e uma mentira, apesar de contada mil vezes, jamais se tornará verdade.

O fato, frisa a jornalista argentina, “é que os grandes conglomerados de comunicação são hoje instrumentos do governo de Washington para apagar a memória, desvirtuar a cultura e estimular a submissão à lógica neoliberal, de privatização e desmonte do Estado”. Daí a importância de ampliarmos a denúncia da ação dos monopólios midiáticos e de fortalecermos a mobilização pela regulação e democratização dos meios de comunicação. Porque, mais do que nunca, enfatiza Caloni, “a desinformação é uma arma de guerra do Pentágono”.

Este artigo integra o livro A CIA contra a Guatemala, Movimentos sociais, mídia e desinformação (Editora Papiro, 160 páginas, selo Barão de Itararé)
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Capa
Página 2
Página 3

MP dilmista corta salário e aprofunda recessão no país

Emissário da campanha de Dilma me pediu para trazer R$ 20 milhões de volta ao Brasil, diz doleiro

Pessoa, da UTC, entregou à Justiça tabela de doações à campanha da reeleição dilmista

PPL: “Dilma declarou guerra ao país”

Segundo aliados, Cid e Ciro estão próximos de filiar-se ao PDT

Para engenheiro, plano de Dilma e Bendine para desinvestir Petrobrás não tem diferença do PL de Serra

Musa da mandioca obedece aos EUA e vota contra a Síria

Página 4 Página 5

ABC: metalúrgicos da Mercedes dizem ‘Não!’ à redução salarial

RJ: trabalhadores protestam contra demissões e fechamento do estaleiro Mauá, em Niterói

Comemoração ao 2 de julho reúne milhares na Bahia e professores realizam ato contra cortes do governo

Alckmin deve pagar salários dos docentes grevistas, determina STF

Abimaq-MG: Setor de máquinas e equipamentos pode demitir mais de 9 mil até o final do ano

Fiat: Mais 1200 trabalhadores em férias coletivas em Taubaté

ESPORTES

Página 6

Assange: “TISA é instrumento de monopólios contra democracia”

Odessa: governador indicado pela junta de Kiev terá os salários pagos pelos Estados Unidos

Wikileaks denuncia que Dilma foi grampeada por EUA até a bordo do avião presidencial

Arrocho para pagar banca mergulha Porto Rico no caos e na recessão. FMI recomenda mais cortes

Chile: greve de professores contra ensino privatizado passa de 30 dias

A verdade ainda que tardia: a descoberta dos arquivos do terror na Guatemala - II

Página 7

Grécia enfrenta chantagem de Merkel e dá rotundo ‘Não’ à Troika
 

 
  Milhares foram às ruas em apoio à Grécia nas principais cidades da União Europeia

   Piketty: ’Alemanha nunca pagou suas contas e não pode dar lições a ninguém’

   Diretora do FMI: “os idosos vivem demais e são um perigo”

 
  Honduras: 100 mil nas ruas de Tegucigalpa exigem renúncia do presidente Juan Orlando

Fidel a Tsipras: “Foi uma brilhante vitória política”


   Raúl: “Valente política do governo grego conta com apoio majoritário”

 

Cristina Kirchner: “referendo da Grécia marca a vitória da democracia e da dignidade”

Evo Morales saúda ‘o início da libertação do povo grego da política imperial do FMI’

 

Página 8

Governo anuncia mais aumentos para as tarifas de energia elétrica