Grécia enfrenta chantagem de Merkel e dá rotundo ‘Não’ à Troika
 

Após uma semana de chantagem que incluiu fechar bancos pelo BCE e boatos da Troika de que o país ia quebrar, mais de 60% dos gregos disseram “NÃO” ao arrocho e ao regime de servidão ao FMI/BCE

  Hoje a democracia venceu o medo”, afirmou o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, após a contundente vitória do NÃO ao arrocho do FMI e de Merkel no referendo de domingo (5), por 61% a 39%, com multidões comemorando nas ruas de Atenas e por todas as cidades do país até altas horas, depois de uma semana de chantagem brutal que incluiu o fechamento de bancos pelo BCE e saques reduzidos a 60 euros; declarações do presidente do Parlamento europeu, um alemão, de que a Grécia ia quebrar e não ia ter como pagar salários, aposentadorias e sequer comida ou remédios; ingerência direta de governos estrangeiros; divulgação de pesquisas falsas sobre ‘empate’ entre o Não e o sim; e a mentira de que a escolha era entre o “euro” e o Não.

  O grito de “OXI” (não, em grego) tomou conta do país e se espalhou pela Europa inteira. O povo pode mais, os especuladores, o FMI e os sátrapas de Washington não podem tudo. O governo de Alexis Tsipras não traiu o mandato que lhe foi dado pelo povo grego, encarou a Troika e a banca estrangeira e conquistou o respeito e a solidariedade na Europa, e no mundo inteiro. Foi uma “decisão audaz”, saudou Tsipras a seus compatriotas, com as bandeiras gregas empunhadas por toda parte.

  O “OXI” não só venceu disparado, como venceu em todas as regiões do país, fazendo ecoar o grito que estava represado há cinco longos anos, de devastação sem fim, depressão da economia com queda de 25% no PIB, desemprego de um em cada quatro gregos e um em cada dois jovens, salários e aposentadorias ceifados em 40%, um terço da população, 40 % das crianças e 45% dos aposentados abaixo da linha de pobreza da União Europeia, e em 49% das famílias a magra aposentadoria sendo a principal, e muitas vezes, única, fonte de renda. Nesses tempos tenebrosos, 11 mil gregos, levados ao desespero, à fome ou ao despejo, cometeram suicídio.

  Um caos fabricado para salvar bancos alemães, franceses e norte-americanos, pendurados na especulação com títulos gregos, rescaldo da farra com os derivativos vendidos por Wall Street, e impondo ao povo grego uma dívida imoral, ilegítima e impagável. Enquanto os bancos trocavam seus papéis podres por euros novinhos em folha emitidos pelo BCE, via uma arapuca privada, criada junto com o FMI, o EFSF, sendo que para a Grécia ficava a dívida e a servidão perpétua. Desse modo, a dívida foi inflada até chegar a 170% do PIB, e o país foi acorrentado aos superávits primários e cortes monstruosos, para pagar juros enquanto a dívida não cessa de inchar.

 Os principais bancos envolvidos são o Deutsche Bank e o Commerzbank (o primeiro e o segundo maiores bancos alemães); o BNP-Paribas e o Société Générale (dois dos maiores bancos franceses); e o Goldman Sachs, o banco norte-americano que faz “o trabalho de Deus” e que nomeia secretários do Tesouro dos EUA e o presidente do BCE. Até mesmo o Financial Times, em 2011, se referiu nos seguintes termos à “solução” da Troika: “parece pensado menos para tornar a situação da Grécia mais sustentável do que ajudar os bancos a removerem os riscos de seus balancetes”. Na mesma época, foi revelado que a ‘contribuição’ do Deustche Bank ao ‘resgate’ da Grécia seria de “menos de um décimo dos lucros esperados para esse ano [2011]”.

  Como registrou então a edição alemã do FT, “levando em conta as somas totais dos balancetes das instituições financeiras, isso significa migalhas”. De fato, o bailout significava que “os bancos saem dessa sem nenhum arranhão e que podem inclusive contar com uma taxa de juros de 8%”. E o Süddeutsche Zeitung citou um analista do ‘mercado’ que classifica a ‘solução’ apresentada de “placebo” que assegurará que “os bancos não tenham nada a perder”.

  O jornal inglês Guardian descreveu os acontecimentos na Grécia como “os oito dias que abalaram o continente”. Ao votar no distrito operário de Kypseli, Tsipras afirmou que “muita gente pode ignorar a vontade de um governo. Mas ninguém pode ignorar a vontade de um povo”. “Hoje é um dia de celebração. E quando a democracia supera o medo e a extorsão, então se torna redenção e uma saída. O povo grego hoje enviou uma mensagem muito forte, de dignidade e determinação. Uma mensagem de que eles tomaram uma escolha em suas mãos. Não apenas permanecer, mas também viver com dignidade na Europa. Um caminho de retorno aos valores fundadores de democracia e solidariedade na Europa”.

  Na segunda-feira (6), Tsipras se reuniu com todas as forças políticas do parlamento – menos os fascistas, que não foram convidados -, mais o presidente grego, Pavlopoulos, para conformar uma ampla frente nacional para a retomada das negociações com o FMI e a União Europeia. À qual os comunistas do KKE insistem em se manter alheios, por só admitirem a imediata saída da União Europeia e da Otan. O ex-primeiro-ministro Samaras, o preferido da Troika, renunciou à liderança da Nova Democracia, após a tunda sofrida nas urnas. Para facilitar as negociações, o ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, odiado pelos figurões da Troika, renunciou, mas se mantém firme com o governo Tsipras. Foi ele que denunciou, muito apropriadamente, como “terrorismo” a ação da Troika fechando bancos às vésperas do plebiscito.

 DÍVIDA IMPAGÁVEL

  Como destacou Tsipras, o “OXI” colocou na ordem do dia a reestruturação da dívida. O próprio FMI admitiu em documento que se os gregos tivessem se sujeitado ao pacote de arrocho da Troika, iriam ficar na miséria até 2030 e a dívida continuaria impagável. Os dias vindouros não serão fáceis. A sátrapa Merkel continua possessa com o referendo e seu resultado; Hollande admite que é preciso renegociar. No dia 20 vence uma parcela de 3,5 bilhões de euros do BCE. Se o BCE continuar seu aperto ao redesconto dos bancos gregos, pode faltar dinheiro nos caixas nos próximos dias. Como dizia Nixon a Kissinger, no tempo da preparação do golpe contra Allende no Chile, “tem de fazer a economia gritar”.

  A luta do povo grego conquistou os corações de milhões e milhões no mundo inteiro. Como Varofakis declarou em seu último pronunciamento ainda como ministro, o voto Não foi uma rejeição à “jaula de ferro” de zona do euro. “Hoje o Não é um grande sim à Europa democrática. Um Não à visão da zona do euro como uma jaula de ferro sem fronteiras para seus povos. A partir de amanhã, a Europa, cujo coração esta noite bate na Grécia, começa a curar suas feridas, nossas feridas”.

  O ex-presidente da Comissão Europeia, e ex-primeiro-ministro italiano, Romano Prodi, convocou a Europa a encontrar uma solução para a questão da Grécia e advertiu que está em jogo a sobrevivência da União Europeia. “Se a UE não pode resolver um pequeno problema do tamanho da Grécia, que será da Europa? Eu gostaria de saber como Merkel, Juncker ou Lagarde acham que podem atirar a Grécia fora do euro. É verdade que comportamentos irracionais são recorrentes na história. A Primeira Guerra Mundial foi deflagrada a partir de um incidente menor. Vamos manter a esperança de que esta não seja a nossa Sarajevo”.

ANTONIO PIMENTA
 


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