Pelo Mundo

CAIO REARTE*

 Filmadoras e Armas

Hoje vou falar sobre um assunto que tem mais a ver com a ideologia do império militar estadunidense, que com notícias fresquinhas. Vou falar sobre o Office of Entertainment Liaison (Escritório de Relações de Entretenimento, numa tradução livre) do Departamento de Defesa dos EUA. Esse escritório funciona da seguinte maneira: quando um produtor de TV, de filmes, de videogames, etc., quer fazer algo sobre os militares, esse escritório pode ser contatado para conseguir ajuda. Recentemente, dois pesquisadores obtiveram deles documentos internos – inéditos até então – que revelam a extensão do relacionamento do Pentágono com o mundo do entretenimento.

Os documentos obtidos por Tom Secker, do site www.spyculture.com, dizem respeito a interface entre o Exército, a Força Aérea e o mundo do entretenimento. Outros departa-mentos militares, como a Marinha e os Fuzileiros Navais, também têm escritórios como esses mas seus documentos não foram incluídos nessa remessa.

Um dos arquivos é um calhamaço de quase mil e quatrocentas páginas, que resume milhares de interações do Exército com a indústria do entretenimento no período de janeiro de 2010 a abril de 2015. A primeira impressão que fica é de espanto. São inúmeros reality shows, filmes, jogos, documentários, videoclipes, etc., que recebem colaboração do Exército. De certa forma, é possível perceber essa influência com um olhar clínico sobre a programação da TV. Mas ver tudo concentrado num documento só oferece uma nova perspectiva.

Há de tudo: um documentário sobre o futuro das armas nucleares; um episódio de um reality show da MTV sobre soldados voltando do campo de batalha; um episódio de A Guerra dos Cupcakes passado no Pentágono; a coordenação com os produtores do filme Transformers 3, entre muitos, muitos outros.
É claro que os militares têm que fazer um imenso esforço de relações públicas. Sendo uma instituição que depende de voluntários (há vários anos não há serviço militar obrigatório nos EUA), eles necessitam estar constan-temente em evidência. Por isso, um esforço sofisticado e sistemático de atingir uma audiência de “idade de recrutamento” é necessário.

Além disso, o Departamento de Defesa é uma das maiores e mais importantes instituições dos EUA, portanto é natural que muitos artistas se interessem em retratá-lo, resultando nessa extensa colaboração.

Porém, fica claro que o Pentágono só coopera – dando acesso a bases e equipamento militar para filmagens, por exemplo – caso concorde com o roteiro em questão. É claro, um dos critérios óbvios para o acordo é que a visão do artista não pode ser totalmente crítica dos militares. Mas pode ser algo mais complexo.

Por exemplo, no documento, há o caso de uma empresa de videogames (Blizzard) que pede ajuda para imaginar como seria o soldado de 2075. É feita uma reunião na empresa no final de 2010, e, nas palavras do documento, os funcionários do Escritório “expressam preocupação que o cenário sendo considerado envolve uma futura guerra com a China”, e sugere que outros cenários sejam considerados. É uma sugestão muito peculiar.

Afinal, os chineses estão cada vez mais diminuindo a distância tecnológica com os EUA, e possuem o maior contingente de soldados em potencial. Um documento da Casa Branca de 2012 aponta o potencial da ascensão da China de “afetar nossa segurança em diversas maneiras”. Os EUA vivem acusando os chineses de executarem ataques cibernéticos. E no entanto, o Pentágono não acha uma boa ideia um videogame apontar a China como adversário…

Por fim, há a questão monetária. O artista pode se sentir pressionado a aceitar sugestões do Pentágono pois dessa forma pode economizar muito dinheiro com as filmagens, já que, aparentemente, os militares “dão um jeitinho” de oferecer a ajuda gratuitamente.

Essa remessa de documentos é o pontapé inicial para se aprofundar nessa relação ambígua entre o Departamento de Defesa e a indústria do entretenimento. Neles não há nada sobre os acordos em si, ou seja, uma descrição do que exatamente foi pedido que o diretor X ou Y modificasse na sua obra em troca de colaboração. Outro aspecto notável do documento é que todos os nomes dos militares foram retirados do documento – ninguém pode ser contatado para uma entrevista, por exemplo.

A meu ver, fica a inquietante pergunta, de qual o real efeito dessa relação. Qual a consequência desse bombardeio de propaganda sofisticada diretamente no imaginário do público – e principalmente, das gerações mais novas? Será que é só uma maior taxa de ingressantes no Exército? Ou algo mais profundo, que afeta a nossa própria percepção dos conflitos no mundo?

*Caio Rearte é colaborador do HP e editor do
blog caiorearte.blogspot.com

 


Capa
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João Goulart em 1963: a agenda de um presidente de verdade (2)