Cunha ensaia transformar o Conselho de Ética em circo

O presidente da Câmara dos Deputados pretende mentir novamente e até envolver um morto no cenário

O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB/RJ), pretende dizer ao Conselho de Ética, em sua defesa no processo disciplinar por quebra de decoro parlamentar, que não sabia a origem do 1,3 milhão de francos suíços depositados em 2011 numa de suas contas secretas na Suíça pelo lobista João Augusto Henriques, preso pela Operação Lava Jato em setembro.

Alvo de investigação na Lava Jato, no STF, Cunha foi denunciado no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar por ter mentido em depoimento à CPI da Petrobrás, em março, quando disse que não possuía contas no exterior. Mas sua casa caiu quando começaram a surgir provas, documentos enviados pelo Ministério Público da Suíça ao Brasil mostrando a existência de várias contas, com assinatura e cópia do passaporte, inclusive. Denúncia do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, diz que Eduardo Cunha recebeu, pelo menos, US$ 5 milhões de propina, sobre a compra de duas sondas da Petrobrás.

Segundo parlamentares ouvidos pelo jornal "Folha de S. Paulo", o presidente da Câmara alegou que só descobriu muitos anos depois que o valor depositado por Henriques – lobista do PMDB no esquema de corrupção na Diretoria Internacional da Petrobrás – representava o pagamento de um empréstimo no valor de US$ 1 milhão que ele afirma ter feito ao deputado mineiro Fernando Diniz (PMDB/MG) alguns meses antes de sua morte.

Diniz morreu em 2009. À Polícia Federal, João Augusto Henriques relatou que fizera o depósito em uma conta na Suíça, a pedido do economista Felipe Diniz, filho do deputado falecido, sem saber que a conta pertencia a Cunha. O lobista confirmou declaração em depoimento ao juiz federal Sérgio Moro, na sexta-feira, dia 30 de outubro, reafirmando que só depois veio a saber quem era o titular da conta.

Ainda segundo a FSP, Cunha disse aos colegas que insistirá na versão de que não teria mentido na CPI, porque no seu depoimento foi questionado se era titular de contas. O presidente da Câmara sofisma que isso ele não é, porque as contas foram registradas por empresas que abriu fora do país. A versão é considerada frágil pelos próprios aliados, diante da existência de documentos como cópias do passaporte e da assinatura do deputado, que comprovam a abertura de quatro contas bancárias na Suíça para ele, a esposa e a filha. Nem a inteligência dos seus próprios aliados Cunha respeita. Achar que alguém vai cair num conto grosseiro desses é estar fora si completamente.

O peemedebista também teria dito a deputados que sua mulher, a jornalista Cláudia Cruz, não declarou a conta em seu nome porque sempre manteve saldo inferior ao mínimo que torna a declaração obrigatória. Nesta terça (3), ele disse que vai "provar" ao Conselho de Ética que "não faltou com a verdade".

As manobras do presidente da Câmara para tentar se livrar da cassação do mandato, generalizando a prática de ilícitos a todos os parlamentares da Casa, também têm causado protestos de vários parlamentares. Na quarta (4), houve reações às declarações de Cunha de que vai esperar no cargo o final do processo no conselho e que, por enquanto, nada pesa contra ele porque, "se forem levados em conta os que estão sendo investigados no Judiciário, o número chega perto de 150 deputados".

Claro que a chantagem de Cunha, capaz de qualquer coisa sem escrúpulos para manter a roubalheira, não surtiu efeito, por que boa parte desses "perto de 150" deputados investigados não têm processos onde foram flagrados com a mão no roubo, assinatura, cópia de passaporte, testemunhas oculares do ilícito cometido, muitas provas, como é o caso dele. Alguns certamente merecem punições pelos seus delitos, mas não adianta Cunha tentar usá-los para esconder seus crimes. Segundo matéria no site da Rede Brasil Atual, atualmente 132 deputados, dos 513 da Casa, respondem a inquéritos ou ações penais no Supremo Tribunal Federal (STF).

Por outro lado, cresce o número de parlamentares que exigem a saída de Eduardo Cunha da presidência da Câmara. Alessandro Molon (Rede/RJ) afirmou que os deputados não podem aceitar "que a imagem da Câmara seja manchada e confundida com esse quadro de corrupção". "Quem está sendo acusado e denunciado é ele. Não aceitamos ser confundidos com essas acusações e denúncias. Não queremos mais que o poder da presidência da Câmara seja usado para sua defesa pessoal", disse.

A deputada Clarissa Garotinho (PR/RJ) fez um discurso na tribuna, denunciando que Cunha "tem usado de todos os artifícios possíveis para manobrar e minimizar o processo que corre contra ele". Ela advertiu que o Conselho de Ética não pode se transformar no "conselho da vergonha".

"Ele tem o direito de se defender, embora essa seja uma difícil tarefa, mas uma pessoa dessas não pode usar a cadeira de presidente para defender suas ideias e manipular suas próprias posições. Ele já tentou dar interpretações próprias sobre o regimento desta Casa e mudar votações. Não podemos continuar passando pelo constrangimento de ter um presidente assim", afirmou Erika Kokay (PT/DF).

O processo contra Cunha no Conselho de Ética da Câmara começou na terça-feira (3). O deputado de primeiro mandato Fausto Pinato (PRB-SP) foi indicado na quinta-feira (5) para ser relator do processo de cassação do presidente da Câmara pelo presidente do conselho, deputado José Carlos Araújo (PSD-BA). Agora o relator terá dez dias para fazer um relatório preliminar, avaliando se o processo deve ou não continuar. Nessa fase, o relator só analisa se foram cumpridos requisitos formais e se o autor da representação apresentou uma denúncia bem fundamentada. Caso o Conselho aprovar seu relatório de admissibilidade ele abrirá mais 10 dias para Cunha apresentar sua defesa.

WALTER FÉLIX


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Cunha ensaia transformar o Conselho de Ética em circo

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