Dilma quer cortar aposentadorias em favor dos bancos e das múltis 

Para ela, essa é a “questão mais importante para o país”

No sábado, a senhora Rousseff disse outra vez – a segunda em quinze dias – que pretende estabelecer uma "idade mínima" para o trabalhador se aposentar. Disse mais: que essa é "a questão mais importante para o País".

No último dezembro, o governo enviara documento ao Fórum de Debates sobre Previdência Social, propondo idade mínima de 65 anos, tanto para homens quanto para as mulheres. O documento foi assinado pelo então ministro Joaquim Levy. Não temos notícia de que, após a saída de Levy, o governo tenha retirado esse documento da pauta do Fórum – exatamente a instância que Dilma citou como palco para as discussões sobre a idade mínima.

EXCESSO

Como Dilma apenas repete o que os porta-vozes de bancos e multinacionais propalam, diretamente ou através de sua mídia, vejamos, então: por que os bancos e demais monopólios querem uma "idade mínima" para que o trabalhador se aposente apenas uma semana ou duas antes do dia do Juízo Final?

Sobretudo por dois motivos:

Primeiro: porque, depois de, através dos juros, drenarem o dinheiro público das outras áreas (Saúde, Educação, Defesa e tudo o mais), os bancos sabem que é na Previdência que está o dinheiro que eles não puderam drenar para os juros. Querem, portanto, desviar o dinheiro da Previdência também para os juros.

A Previdência, sozinha, é 53,77% das dotações do Orçamento de 2016 (fora os "encargos especiais"), além de constituir 76,6% do Orçamento da Seguridade Social. Trata-se de mais de meio trilhão de reais (R$ 570 bilhões e 886 milhões – cf. MP/SOF, "Execução Orçamentária dos Orçamentos Fiscal e da Seguridade Social da União – Função, 2006-2016").

O problema que os bancos e seus pajens veem na Previdência não é, portanto, falta de dinheiro. Pelo contrário, é o "excesso". Como é que se permite que uma área da administração tenha tanto dinheiro aplicado em aposentadorias, pensões e outros direitos do povo, ao invés de cevar os juros?

Daí a declaração de Dilma, diante da diretoria da UNE, de que o "ajuste" é em cima da Previdência (v. HP 22/05/2015).

"Ajuste", como é óbvio pelo que aconteceu e continua acontecendo, significa aumentar a parcela do setor financeiro, sobretudo externo, no patrimônio e na renda dentro do país. O que implicou – e implica – em aumentar os repasses de dinheiro público para esse setor, sob a forma de juros. A despesa do setor público com juros, de janeiro de 2015 até novembro, foi a maior da história do país: R$ 449 bilhões e 693 milhões, o triplo da média de janeiro a dezembro dos 13 anos anteriores.

Mas eles querem mais: querem o dinheiro da Previdência.

Vamos ao segundo motivo dessas quadrilhas monopolistas para querer que os trabalhadores somente se aposentem com o pé na cova.

Segundo: quanto mais trabalhadores estiverem na ativa – e quanto mais desempregados houver – mais fácil é rebaixar o salário de todos os trabalhadores. É a essa miséria, com gente faminta disputando empregos com salários miseráveis até a morte, que eles chamam de "competitividade".

Assim, se pudessem fazer com que os trabalhadores não se aposentassem jamais, para rebaixar o salário daqueles que conseguem algum emprego, melhor seria para os monopólios & caterva. Monopólios ganham dinheiro saqueando o Estado e arrancando o couro da população. O resto – isto é, a diferença entre um e outro – é mera questão de forma.

Assim, diz Dilma, o problema da Previdência é que estamos vivendo demais, ficando mais velhos que antes – e, por isso, o sujeito que passou 35 anos trabalhando, tem que trabalhar mais 5 ou 10 anos.

É quase pior que a lei dos sexagenários da época da escravidão: pelo menos, naquela época, se o sujeito chegasse aos 60, estava livre. Na concepção de Dilma, no entanto, não existe idade máxima para deixar de trabalhar – só idade mínima para se aposentar.

Em suma, viver mais é uma desgraça. Em vez de ser um modo de melhor gozar a vida, uma vez conquistada a alforria – quer dizer, a aposentadoria – o sujeito, como aquele personagem da lenda grega, deve trabalhar mais e mais, e, ao viver mais, sempre ver o momento da sua aposentadoria se afastar.

Mas, continua Dilma, se não for assim, a Previdência vai ficar insustentável... no ano 2030.

Dilma fez um abatimento de 20 anos, em relação ao que um ministro afirmara em novembro passado, segundo o qual a Previdência iria falir no ano 2050, por isso era necessário dificultar ao máximo as aposentadorias - e arrochá-las (v. HP 25/11/2015).

Um mês depois, apareceu na TV um "comentarista econômico", um certo Iceberg ou coisa semelhante, dizendo que a situação era desesperadora, porque no ano 2040 a Previdência ia ser um caos – ou, talvez, um Titanic. Ainda bem que ele nos avisou.

Agora, Dilma introduziu o ano de 2.030, encurtando o caminho para o Armagedon.

Como se sabe, Dilma e sua equipe sabem prever o futuro. É, aliás, a especialidade deles: basta olhar o presente para perceber...

Obviamente, não querem mudar a Previdência daqui a 15, 20, 30 ou 40 anos. Querem mudar agora. É um pessoal muito precavido. Por isso é que o país está uma maravilha.

FATOR

Na última entrevista, no sábado, Dilma falou de "outras alternativas" à idade mínima para a aposentadoria – e a única que citou, não existe, porque já foi implementada, ainda que de forma deformada, o chamado fator 85/95. Se ela achasse que esse fator é alternativa à idade mínima, por que estaria querendo mudar a Previdência? Bastaria, nesse caso, deixar como está.

Ela apenas reafirmou o que disse na semana anterior, mas agora de forma escaldada, isto é, mais covarde ainda, porque até a CUT, e até parte do PT, considerara - ou sentiram-se na obrigação de publicamente considerar - "inaceitável" o que ela havia dito:

"... nós vamos encarar a reforma da Previdência (...). Nós estamos envelhecendo mais e morrendo menos. (…) Não é possível que a idade média de aposentadoria no Brasil seja 55 anos, para mulher um pouco menos".

Não há diferença alguma entre isso e a famosa declaração de Fernando Henrique, de que os aposentados eram vagabundos ("Fiz a reforma da Previdência para que aqueles que se locupletam da Previdência não se locupletem mais, não se aposentem com menos de 50 anos, não sejam vagabundos em um país de pobres e miseráveis", disse o ídolo de Dilma, que se aposentou aos 37 anos).

Quanto à Dilma, é mentira que a "idade média de aposentadoria no Brasil seja 55 anos". Há oito anos, o economista Eduardo Fagnani demonstrara que essa idade "média" estava em 60 anos, mesmo porque, até há poucos meses, o famigerado "fator previdenciário" cortava impiedosamente as aposentadorias de quem se atrevesse a se aposentar antes dos 60 anos – ou 55 anos para as mulheres (cf. Eduardo Fagnani, "Outro mito sobre a Previdência", FSP, 01/06/2007).

Tanto na lei quanto, mais ainda, na prática, já existe idade mínima para aposentar-se. O problema é que Dilma quer jogá-la para as calendas gregas.

CARLOS LOPES


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