Versão de Lula para sítio e triplex ficou insustentável

Notas fiscais comprovam que OAS pagou pelos equipamentos das cozinhas dos imóveis

Temos, desde que apareceram denúncias contra o ex-presidente Lula, tomado todas as precauções para não cometer injustiças. Desde o aparecimento em cena do triplex no edifício Solaris (antigo "Mar Cantábrico"), em Guarujá, demos crédito à versão do ex-presidente, divulgada pelo Instituto Lula.

No entanto, isso tornou-se impossível.

Primeiro porque, nas notas do Instituto Lula – não sabemos por que Lula delegou sua defesa ao Instituto - apareceram, pelo menos, três versões sobre o triplex. A última é tão parecida com as acusações, que a defesa propriamente dita está na retórica ("A mesquinhez dessa ‘denúncia’, que restará sepultada nos autos e perante a História, etc." e "a oposição acabou no Guarujá, etc.").

O problema é que frases não apagam fatos. Sobretudo uma diatribe tão burra que substitui o bairro popular carioca do Irajá, em um dito preconceituoso ("acabou no Irajá"), pelo balneário paulista do Guarujá, sem perceber que, com isso, até como preconceito, o sentido da expressão é o oposto.

Segundo porque, com o aparecimento do sítio em Atibaia, uma propriedade de 173 mil metros quadrados na qual Lula esteve 111 vezes entre 30 de março de 2012 e 11 de janeiro de 2016 (ou seja, uma vez a cada quinze dias, em média), sua reforma pela Odebrecht, e, sobretudo, a cozinha que a OAS comprou na Kitchens - mesma loja em que comprou a cozinha do apartamento - a versão inicial sobre o triplex também ficou insustentável.

Que o ex-presidente convivesse com tanta tranquilidade, e até satisfação, nessa fossa de traficância perfurada pela Odebrecht, OAS e outras empresas monopolistas do cartel que assaltou a Petrobrás e as obras públicas do país, era coisa que podia-se intuir, mas não estava provada. Agora, é diferente.

Um ex-presidente da República, duas vezes eleito, que se mete em um dos empreendimentos da falida Bancoop, pirâmide que o sr. Vaccari repassou para a OAS (logo a OAS!), não parece ter consciência da própria estatura – ou, talvez, sejamos nós que fantasiamos essa suposta estatura.

Cartéis são quadrilhas monopolistas. Não é de bom alvitre aceitar seus presentes, nem há muito futuro em tornar-se comensal delas. Quem se nega, por vantagens imediatas, a ver o caráter antinacional, antipopular e antidemocrático dos monopólios, jamais será capaz de fazer as mais simples perguntas do mundo – muito menos, obter as suas respostas.

Por exemplo: por que motivo a OAS ficou com a massa falida do sr. Vaccari? Em troca de quê?

Pelos felizes condôminos do edifício Solaris – até uma (agora presa) funcionária da Bancoop com uma empresa de fachada em Las Vegas, em nome de uma pobre laranja, seria vizinha de Lula - parece que a cúpula do PT e seu entorno perderam definitivamente a vergonha.

Mas, quais são os fatos?

No dia 13 de março de 2014 (data da nota fiscal), a OAS adquiriu, na Kitchens, utensílios no valor total de R$ 130.034,04 (centro e trinta mil, 34 reais e 4 centavos), incluindo:

uma cozinha planejada: R$ 28.284,14;

uma geladeira: R$ 9.740,00;

uma máquina de lavar louça: R$ 9.100,00;

um forno elétrico: R$ 10.180,00;

uma bancada: R$ 43.462,90.

A Kitchens entregou os utensílios no sítio Santa Bárbara, em Atibaia, onde Lula passou um em cada dois fins de semana desde 2012. A nota foi emitida em nome de Fernando Bittar, um dos sócios do filho de Lula, Fábio Luiz, em nome de quem está metade do sítio – mas a conta foi paga pela OAS.

Por que a OAS pagaria essa conta para Fernando Bittar, desconhecido e sem poder?

Obviamente, porque não foi para Fernando Bittar que a OAS pagou essa conta.

Lula pode dizer que o sítio não é seu; mas não é essa a opinião da OAS; nem da Odebrecht, que gastou R$ 500 mil, pelo menos, na reforma do sítio.

No dia 12 de novembro de 2014 (também data da nota fiscal), a OAS, na mesma loja Kitchens, adquiriu uma cozinha planejada por R$ 78.800, incluindo:

uma geladeira: R$ 10 mil;

um micro-ondas: R$ 5 mil;

um tampo de pia de resina americana: R$ 50 mil;

um forno elétrico: R$ 9 mil.

A loja entregou esta segunda série de utensílios no triplex 164 da torre A do edifício Solaris, na Praia de Astúrias, em Guarujá – o apartamento que Lula diz que não é dele.

Ao todo, a OAS gastou, na mesma loja, R$ 312 mil com as duas cozinhas – a do sítio e a do triplex.

Com a mobília de quarto do triplex, também comprada pela OAS, esse gasto chegou a R$ 380 mil.

Além disso, a OAS adquiriu, para o triplex, outros itens, por exemplo, uma escada em caracol (R$ 23.817,85), outra escada até a cobertura (R$ 19.352,00), o porcelanato para as salas de estar, jantar, TV e dormitórios (R$ 28.204,65), o rodapé em porcelanato (R$ 14.764,71), o deck da piscina (R$ 9.290,08) e um elevador interno por R$ 62.500,00.

No conjunto, as compras da OAS, conhecidas até agora, para triplex e sítio, atingiram R$ 560 mil.

Além disso, a Talento Engenharia, contratada pela OAS para reformar o triplex, revelou que a reforma saiu por R$ 777 mil.

Já a Odebrecht, gastou R$ 500 mil em material de construção na reforma do sítio de Atibaia, fora a mão de obra e outros quesitos.

A última nota do Instituto Lula, ao tentar eximi-lo, acaba por confessar algo importante: o apartamento que estava sendo comprado por dona Marisa Letícia, a partir de maio de 2005, não era o triplex 164-A, mas o apartamento 141.

Foi desse apartamento 141 que dona Marisa, em 2009, desistiu. Nas palavras do Instituto Lula: "... não havendo adesão ao novo contrato, no prazo estipulado pela assembleia de condôminos (até outubro de 2009), deixou de valer a reserva da unidade 141".

Portanto, a visita de Lula, ciceroneado pelo presidente da OAS, Leo Pinheiro – hoje cumprindo pena, após ser condenado a 16 anos e 4 meses por corrupção, lavagem e formação de quadrilha – em 2014, nada tinha a ver com o apartamento reservado por dona Marisa em 2005. Que apartamento Lula foi ver, com o presidente da OAS? Diz o Instituto Lula:

"Era o apartamento tríplex 164-A, com 215 metros de área privativa: dois pavimentos de 82,5 metros quadrados e um de 50 metros quadrados."

O que fez a OAS, em seguida, reformar o apartamento?

Basta ver a data em que Lula – pois é fora de dúvida que a decisão não foi à sua revelia - desistiu desse outro apartamento: 26 de novembro de 2015, ou seja, há dois meses, depois que a história explodiu, embora o documento de desistência tivesse data de 2009. A explicação do Instituto Lula é algo hilária: "Como se trata de um formulário padrão, criado na ocasião em que os associados foram chamados a optar entre requerer a cota ou aderir ao contrato com a OAS (setembro e outubro de 2009), ao final do documento consta o ano de 2009".

Na verdade, como o Instituto Lula reconhece, o prazo para a desistência caducara em 2009. A data fictícia era uma forma de usar, em 2015, condições que já não eram válidas para a devolução do dinheiro.

Porém, ainda mais importante: para quem, nesse intervalo entre a visita de Lula e a desistência, a OAS fez tanta despesa nesse apartamento?

CARLOS LOPES

 

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