A ação contra a Petrobrás em prol do PL Dilma-Serra

Para os aliados, ela dizia estar contra o PL, mas pelas costas deles manobrou para tirar a Petrobrás do pré-sal

O melhor relato dos acontecimentos de quarta-feira - em que o governo e o tucano José Serra juntaram-se contra a Petrobrás, para afastá-la do pré-sal e para entregar nossas imensas reservas de petróleo aos monopólios norte-americanos e europeus – foi realizado pelo senador Roberto Requião.

Depois de historiar as relações de Serra com a Chevron, que aparecem nos relatórios da embaixada dos EUA ao Departamento de Estado, refere o senador Requião:

"Em determinado momento [dias antes da votação] nós soubemos que alguns técnicos dos ministérios estavam nos gabinetes dos senadores, agindo a favor do projeto entreguista do José Serra. Mas nós fomos fundo, e ontem, no dia da votação, nós passamos a ter a certeza que derrubávamos na votação e liquidávamos esta aventura criminosa contra o Brasil. Mas eis que de repente, não mais que de repente, veio uma proposta do governo, num acordo com José Serra, [que] liquida a exclusividade da Petrobrás [como operadora do pré-sal] e dos 30% [mínimo de participação da Petrobrás nos consórcios para explorar as reservas do pré-sal]. A Dilma disse no Facebook que ela era absolutamente contra qualquer modificação nesse sistema que beneficiava o Brasil. Mas os seus ministros, o Berzoini e o Jaques Wagner, pelo que eu sei, mandaram a emenda e como tal foi colocada no plenário. E nós perdemos o apoio de muitos companheiros que estavam conosco, mas que atenderam um pedido do governo. E o José Serra emplacou a sua suposta promessa aos Estados Unidos e aos americanos. Eu li um twitter do Tarso Genro, que dizia o seguinte: se isso aconteceu, o boi da Dilma foi embora e levou a corda."

Em texto que publicamos nesta edição (ver página dois), João Vicente Goulart aponta o entreguismo "subterrâneo" de Dilma e do governo. Em nossa edição anterior, publicamos as declarações do senador Lindbergh Farias, no mesmo sentido.

Somente a senadora Gleisi Hoffman é que se atreveu a dizer que Dilma "não traiu, apenas reduziu danos". Tanto isso não é verdade que a própria Gleisi não votou na proposta de Dilma/Serra – e só teve um motivo para isso: cometer um ato aberto de traição, na frente de todos, é um pouco diferente de levar propinas da Consist ou da lavagem e corrupção no inquérito em que a senadora está incluída na Operação Lava Jato. Pelo menos, não é na frente das câmeras de televisão.

CARÁTER

Desde que Dilma tomou posse, em 2011, a falta de palavra – isto é, de caráter – tornou-se uma endemia no Planalto e adjacências. Qual foi o acordo em que ela manteve a palavra? Que nos lembremos, nenhum, seja com governadores (vide o acordo das dívidas estaduais), senadores, deputados, prefeitos, centrais sindicais, partidos ou funcionários. Dilma só mantém aquilo que acerta com banqueiros, multinacionais e seus mamulengos. Mas, para isso, não precisa de honrar a palavra, nem de caráter – pelo contrário, é preciso falta de palavra e falta de caráter para trair o povo, o país, a Nação.

Não se trata – é quase dispensável dizer – de um pequeno vigarista que tapeia os incautos na fila dos bancos ou passa o golpe do anel em alguma avenida arborizada. Esses trambiqueiros quase não têm importância social, exceto aquela que merece a ação pontual da polícia.

Mas Dilma é presidente da República.

Quantos presidentes da República nós tivemos com esse tipo de problema? Bem poucos: dois ou três, entre 36 presidentes.

Porém, se a falta de caráter da ocupante palaciana é notória – e motivo frequente de conversas da própria base governista – jamais isso foi tão nítido, intenso e criminoso quanto no caso da Petrobrás.

Dilma estava, desde o início, a favor do projeto de Serra, que roubava da Petrobrás a condição de operadora única do pré-sal. Sua defesa do regime de partilha da produção era mais do que mandrake, pois o projeto de Serra não tocava no regime de partilha. Portanto, opor-se a Serra com uma defesa desse regime, era se omitir em relação ao seu verdadeiro conteúdo: afastar a Petrobrás da operação do pré-sal. Nessa questão, Dilma estava com Serra. Por isso, fazia uma defesa – aliás, bem furreca – daquilo que não estava sendo atacado e deixava sem defesa o alvo do entreguismo: a Petrobrás como operadora do pré-sal.

Quando o projeto Serra, na sua primitiva forma, por excesso de truculência – ele, simplesmente, tirava da Petrobrás a condição de operadora única no pré-sal que ela descobriu, e a igualava a qualquer petroleira vagabunda com sede no exterior – se tornou inviável, o governo nada fez quando o senador Ferraço apresentou um substitutivo para salvar a essência do projeto Serra, acrescentando alguns adereços para iludir os inocentes do Leblon – aliás, menos inocentes que aqueles do poema de Drummond.

VOTAÇÃO

O governo também não fez nada quando, na terça-feira, dia 23 de fevereiro, a malta entreguista resolveu votar um pedido de urgência para a tramitação do projeto Serra/Ferraço – ou seja, o fim da discussão sobre a matéria -, sem que houvesse justificativa para que um projeto que entrega as maiores reservas de petróleo do país para a operação monopolista estrangeira, fosse votado a toque de caixa.

Foi então que dois senadores governistas sumiram do plenário – Jorge Viana e Valter Pinheiro, ambos do PT – e a urgência foi aprovada por dois votos. A informação de que o sumiço dos senadores foi provocado pelo Planalto era voz corrente no Congresso – e não somente no Congresso. Porém, vamos imaginar que Viana e Pinheiro tenham desaparecido por moto próprio: por que o governo permitiu? Todo mundo sabe qual o efeito da pressão do governo sobre esses – e outros – senadores.

Nas semanas que antecederam a votação, Dilma se reuniu duas vezes com o mal chamado Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP), que reúne as multinacionais petroleiras – intimidade de que se gabou o presidente do IBP, Jorge Camargo, um testa-de-ferro tucano que foi diretor da área internacional da Petrobrás no governo Fernando Henrique.

Durante essas reuniões com os monopólios estrangeiros, Dilma "acenou com a entrega de áreas do pré-sal para as petroleiras estrangeiras. (…) as múltis, que adquiriram através de concessão áreas que estão em águas rasas, e estenderam seus tentáculos na surdina para águas profundas, passariam a poder operar também abaixo da camada de sal numa canetada do governo Dilma" (v. HP 27/01/2016, e, nesta página, a entrevista de Fernando Siqueira).

A seguir, Dilma disse ao sr. Renan Lavajato Calheiros, que "não tinha objeções" ao projeto Serra.

Assim, o ato da quarta-feira à tarde, descrito pelo senador Requião, é o ápice de uma sequência de traições e crimes contra o país, contra o controle nacional sobre nossas reservas petrolíferas – ou seja, contra a Petrobrás, cuja existência como operadora no pré-sal é a realização da soberania sobre nossa própria riqueza. Sem a Petrobrás como operadora única no pré-sal, não existe controle do povo, controle da Nação, sobre o que é nossa propriedade.

Mas, tudo isso, foi perpetrado da forma mais embuçada – portanto, traiçoeira. Enquanto se dizia uma coisa, se fazia outra – ao modo dos silvérios de todas as épocas.

Depois de garantir a alguns senadores que o governo estava contra o projeto de Serra/Ferraço, quando a aprovação deste último se tornou duvidosa, o mesmo governo apoiou um substitutivo cuja diferença para o outro é completamente ridícula, para impedir a derrota do entreguismo.

O leitor poderá perguntar: mas o projeto ia mesmo ser derrotado?

Uma coisa é certa: o governo não queria correr nenhum risco de que ele fosse derrotado.

CARLOS LOPES

 

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A ação contra a Petrobrás em prol do PL Dilma-Serra

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CARTAS

 

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Página 8

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