Liberdade, igualdade, fraternidade abandonadas para o exílio forçado

 MAYA EVANS*

Neste mês as autoridades francesas (fundamentadas no apoio de 62 milhões de libras por parte governo inglês para evitar o fluxo de refugiados) demoliu a “Selva”, anteriormente um terreno baldio e contaminado em Calais. Era um aterro de 4 quilômetros quadrados agora habitados por cinco mil refugiados amontoados por lá durante o último ano. Uma comunidade notável, onde 15 nacionalidades e diversas crenças compreendem o acampamento de refugiados. Os residentes construíram uma rede de comércios e restaurantes que, com suas barbearias e salões de beleza, contribuem para a economia local do acam-pamento. A infraestrutura local compreende escolas, mesquitas, igrejas e clínicas.
 

Os afegãos, que somam aproximadamente mil pessoas, constituem o maior grupo do acampamento. Entre eles estão diversas etnias do país: Pashtoons, Hazaras, Uzbeks e Tajiks. A Selva é um exemplo impressionante de como diferentes pessoas de diferentes nacionalidades e etnias podem conviver juntas em relativa harmonia, apesar das dificuldades, opressão e violações dos direitos universais e liberdades civis. Há discussões e brigas, normalmente catali-sadas pelas autoridades francesas e traficantes.
 

No início do mês Teresa May [Secretária de Estado para os Assuntos Internos da Inglaterra] venceu a batalha para restabelecer os voos para repatriar os afegãos de volta a Cabul, afirmando que o país agora está em segurança.

CABUL
 

Há apenas 3 meses eu estava no escritório da organização “Parem com as Deportações para o Afeganistão”, em Cabul. Nesse dia a luz solar refletia dourada através da janela de um apartamento no último andar e a cidade de Cabul estava envolta em poeira, como um cartão postal. Quanto à organização, trata-se de uma entidade apoiada por um grupo dirigido por Abdul Ghafoor, um afegão paquistanês que morou 5 anos na Noruega, apenas para ser deportado para o Afeganistão, país que ele nunca tinha visitado. Ghafoor contou-me sobre um encontro recente com ministros do governo afegão e ONGs – rindo ao descrever como os não-afegãos das ONGs chegam ao país armados e vestindo coletes e capacetes a prova de balas, mas mesmo assim Cabul foi declarada segura para o regresso dos refugiados. A hipocrisia e os padrões duplos pareceriam uma piada se o resultado não foi tão injusto. Por um lado você vê o pessoal da embaixada estrangeira na cidade serem resgatados com helicópteros (por razões de segurança), por outro lado diversos governos europeus afirmam que a cidade é segura para o regresso dos milhares de refugiados.
 

Em 2015 a Missão da ONU no Afeganistão apresentou um relatório com 11.002 vítimas (3.545 mortos e 7.457 feridos), superando as estatísticas de 2014.
 

Como nos últimos 5 anos visitei 8 vezes Cabul, tenho consciência de que a segurança da cidade diminuiu drasticamente. Enquanto estrangeira, já não fazia caminhadas com duração superior a 5 minutos devido a periculosidade, e os dias de passeios no belo Vale de Panjshir e lago Qargha agora são considerados demasiadamente arriscados. O que se fala nas ruas de Cabul é que os Talibãs são fortes a ponto de tomar a cidade, mas não querem fazê-lo; entretanto células independentes do Estado Islâmico estabeleceram sua posição. Escutei diversas vezes que a vida dos afegãos é menos segura hoje do que era sob o regime Talibã [antes da invasão norte-americana]: os 14 anos da guerra dos EUA, Otan e demais satélites têm sido um desastre.
 

Voltando à “Selva”, ao norte da França, a 33,8 quilômetros das ilhas inglesas, cerca de mil afegãos sonham com uma vida segura na Inglaterra. Alguns já viveram lá, outros têm família no país, muitos já trabalharam com os militares ou ONGs do país. Suas expectativas são manipuladas por traficantes que descrevem as ruas inglesas como se fossem pavimentadas com ouro. Muitos refugiados são desencorajados pelo tratamento que receberam na França, onde são submetidos a brutalidade policial ou a ataques perpetrados por bandidos da extrema-direita. Por diversas razões eles acreditam que a melhor chance para estabelecer uma vida pacífica será na Inglaterra e a sua exclusão deliberada só aumenta o desejo de lá chegar. Seguramente o fato de que as autoridades inglesas concordaram em receber apenas 20 mil refugiados sírios ao longo dos próximos 5 anos, enquanto estão recebendo em média 60 refugiados a cada mil habitantes, dentre todos que solicitaram asilo em 2015, enquanto a Alemanha recebe 587, apóia a ideia de que a Inglaterra é a terra de oportunidades únicas.
 

Falei com Sohail, líder da comunidade afegã em Calais, que disse: ‘Eu amo meu país, eu quero voltar e viver lá, mas ainda não é seguro e não temos oportunidade de construir nossa vida. Olhe para todas os comércios na Selva, nós temos talento, precisamos apenas de oportunidades para utilizá-lo’. Esta conversa aconteceu no Café Cabul, um dos principais pontos sociais no campo de refugiados da Selva, um dia antes da área ser incendiada. Toda a rua sul foi dizimada, destruindo suas lojas e restaurantes. Após o incêndio, falei com o mesmo líder da comunidade afegã. Ficamos parados no meio das ruínas demolidas enquanto bebíamos chá no Café Cabul. Ele se sente profundamente triste com a destruição. ‘Por que as autoridades nos colocaram aqui? Nos permitiram construir uma vida para depois destruí-la?’
 

Há duas semanas atrás a parte sul da Selva foi demolida: centenas de abrigos foram queimados e destruídos, deixando mais de 3,5 mil refugiados desabrigados. Agora as autoridades francesas permitiram o mesmo na parte norte com o objetivo de realojar a maior parte dos refugiados em contêineres de pesca, enquanto muitos já estavam bem estabelecidos na Selva, que atualmente acomoda cerca de 1,9 mil refugiados. Cada contêiner abriga 12 pessoas. Não há privacidade, e a rotina será determinada pelos demais moradores. O mais alarmante é que os refugiados são obrigados a se registrarem junto às autoridades francesas, que recolhem as impressões digitais gravadas. Com efeito, este é o primeiro passo para o exílio forçado fora da França.

*coordenadora da “Vozes Criativas para a Não-Violência na Inglaterra”, organização destinada ao trabalho de solidariedade aos refugiados

 


 


Capa
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Temer-PSDB, pacto para abafar Lava Jato e manter a recessão

Ministro da recessão “defende” Dilma

Cunha é obrigado a recuar de mais uma manobra

PSB descarta retornar à base dilmista

PMDB foi o maior sócio e beneficiário desse governo nos últimos 13 anos, diz Marina Silva

Eleições Já! (Vladimir Palmeira)

Lula e Dilma ignoraram todos os meus avisos, afirma Ciro

PF identifica agressores do ministro Teori Zavascki

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Servidores: governo tenta impor PL para pilhar salário e demitir

Funcionários públicos do Rio voltam às ruas para exigir pagamento dos salários

Rio Grande do Sul anuncia que funcionalismo terá vencimento de março parcelado até o final de abril

Professores de SP rejeitam proposta de Alckmin que suspende bônus e reajusta salários em 2,5%

Desemprego na Grande SP sobe de 14% para 14,7% em um mês

“Fora Dilma e Temer! Eleições Gerais Já”, defende a CGTB

ESPORTES

Página 6

Inglaterra: privatizada, indústria do aço está à beira da falência

Charlie Hebdo faz piada sobre a desgraça dos atingidos pelo atentado em Bruxelas

“Usamos sanções econômicas em relação a países que se negam a nos atender e a mudar seu comportamento”

Convenção da ONU reafirma decisão: Malvinas argentinas

Liberdade, igualdade, fraternidade abandonadas para o exílio forçado

 

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França para contra assalto de Hollande ao Código do Trabalho

Sarandon defende Sanders por ser o melhor para presidir os EUA e para derrotar Trump

Corte Europeia mantém impunidade dos policiais ingleses que mataram o brasileiro Jean Charles

Japoneses repudiam “reforma” que permite aos EUA usar FFAA nipônicas como bucha de canhão

Uma luz no fim do túnel?

Produção industrial do Japão despenca 6,2% em fevereiro


Boeing anuncia demissão de 4,5 mil trabalhadores


 

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História da Petrobrás - (8)